As vocações de uma cidade mutante e múltipla

Por Euclides Guimarães

 
Uma cidade é preliminarmente um conjunto de cenários para o grande teatro da sociedade. Trama em que se mesclam o real e o falso e onde os papéis nem sempre estão perfeitamente delineados, posto que se alteram à mercê de muitas forças e também do acaso. Talvez por isso estejamos freqüentemente tentados a nos sentir fantoches do destino, seja este a manifestação de forças "maiores", ou simplesmente a certa incerteza do devir.
 
O grande teatro da vida real se difere do espetáculo teatral não só porque encenar nele não é uma opção e sim uma necessidade, mas essencialmente porque são os atores seus autores e o resultado, espetacular ou não, é a única verdadeira história.
 
Diante dos scripts, cada um de nós, atores sociais, reagimos mediante um "como" muito especial, um estilo por assim dizer. Assim como revelam-se os estilos pessoais e os de época, também se notamos estilos localizados que perfazem características culturais de um povo, de uma nação, de uma região, de uma cidade.
 
O universo situacional de uma cidade reflete-se inevitavelmente na mentalidade e na conduta de seu habitante. Somos influenciados constantemente por suas poeiras cósmicas e, assim como a convivência faz com que as pessoas fiquem parecidas umas com as outras, também a cidade faz com que as pessoas fiquem parecidas entre si e com ela própria. Cada cidade abriga certas peculiaridades que se revelam no comportamento de seus habitantes, como aspectos do seu estilo.
 
Numa metrópole contemporânea, estilos de vida se entrecruzam numa dinâmica cultural extremamente mutante e múltipla, gerando variadas formas de sociabilidade, nas quais emergem grupos de comportamento que oscilam desde o muito bem definido – normalmente chamados "tribos urbanas" – até os mais difusos, identificáveis apenas por aspectos relativos ao consumo ou a certos hábitos.
 
Nas pequenas cidades o modo de falar e atitudes que se generalizam nos costumes de seus habitantes produzem estilos regionais por vezes muito peculiares, ainda que consideremos toda a globalidade com que as informações circulam nas cibervias da atualidade. Esses aspectos estilísticos regionais tornam-se muitas vezes grandes atrativos para visitantes e turistas, na medida em que refletem na música, na dança, nas festas, na cozinha e em outros bens culturais interessantes.  
 
Belo Horizonte é a capital de uma das regiões culturalmente mais ricas do Brasil, Minas Gerais. Historicamente, Minas tem papel central em pelo menos três dos principais episódios da saga brasileira, tendo sido palco do ciclo do couro – introdução a partir do século XVI, do gado bovino em grande parte do território nacional –, do ciclo do ouro – quando, no século XVIII, a corrida por metais e pedras preciosas, fundou uma verdadeira civilização na região – e do ciclo do ferro – quando, no século XIX, das minas de Minas saiu parte substancial da matéria prima que subsidiou a revolução industrial na Europa.
 
Geograficamente situada em ponto central do país e extensa o suficiente para fazer fronteiras com a maior parte das macrorregiões brasileiras, a região de Minas interage intensamente com todas elas. O mineiro do norte é meio baiano, o do sul meio paulista, o do leste meio capixaba, o do oeste goiano, o da Zona da Mata fluminense.
 
De todas essas Minas vieram os que se tornaram belo-horizontinos. Impossível resistir à tentação de ver BH como uma miniatura do Brasil. Poucas cidades teriam os brasis tão proporcionalmente representados do ponto de vista cultural.
 
Belo Horizonte encontra-se num confortável meio termo entre a megalópole e a pequena cidade. Suas tribos são majoritariamente colônias do interior de Minas que se preservam, mas que também se diluem territorial e culturalmente pela cidade. Chamá-la de "Roça Grande" é sintomático, no sentido de que o povoamento é predominantemente de mineiros oriundos de todos os cantos do interior mas, ao mesmo tempo em que aglomera províncias, traz a tradição de ser uma cidade moderna desde a origem, dessa forma dotada de olhos universais, cosmopolitas.
 
Tendo sido uma cidade planejada e construída no afã da República recém-fundada nos idos de 1897, Belo Horizonte nasceu moderna, com suas ruas largas e seu desenho urbano condizente com a mentalidade científica, positivista da época. Sintomático dessa tradição moderna, nela os meios de comunicação chegaram cedo, o automóvel, o bonde, o cinema, a terceira emissora de TV inaugurada no Brasil, a arquitetura, a publicidade, a moda, muitos dos elementos indispensáveis ao espírito cosmopolita da modernidade encontram-se a ela atrelados desde sua fundação.
 
Esta combinação de provinciana mineiridade com uma tradição de modernidade acredito, vem a ser a base conspícua sobre a qual se ergue o estilo próprio da cidade. É como se o belo-horizontino estivesse naturalmente adaptado a uma dupla identidade, que lhe permite transitar pelo rural e pelo urbano, pelo tradicional e pelo moderno, sem o trauma da perda de raízes que faz o urbanóide se sentir um estrangeiro em sua própria terra.
 
O mix sociocultural de Belo Horizonte envolve ainda a presença de imigrante, especialmente italianos e alemães que, atraídos pelas oportunidades de negócios da promissora capital nova, imprimiram costumes e hábitos indispensáveis ao que vem a ser o estilo atual da cidade. Nos anos 40, por exemplo, há um boom cultural encabeçado por artistas italianos da envergadura de um Magnani, um Ceschiatti ou um Guignard, suficiente para elevar o nome da cidade aos píncaros do modernismo brasileiro. A industrialização teve a marca dos investimentos alemães, no rastro dos quais aparecem espaços culturais, comerciais e até hábitos alimentares, sacralizados pelos bares e restaurantes especializados em pratos germânicos.
 
No auge da modernização industrial brasileira vieram também os nordestinos trazendo a riqueza cultural de suas origens, que hoje se faz presente no artesanato, nas feiras e nos mercados.
 
A tuberculose, uma das principais moléstias da primeira metade do século XX, a Belo Horizonte fez bem. Em face do clima favorável ao tratamento da doença, muitas de suas mais brilhantes vítimas - poetas, músicos, artistas, estudiosos – vieram aqui se tratar. É difícil medir o efeito cultural da migração tísica sobre BH, algo que exigiria pesquisas ainda não realizadas, mas nos anos 20,30 e 40, gestou-se um clima intelectual altamente profícuo, no qual emergiram gerações brilhantes de escritores e artistas, tudo isso num tempo em que a poesia, a boêmia e a tuberculose andavam de braços dados.
 
A juventude também pode ser lembrada como fator decisivo para a configuração de um astral cosmopolita em Belo Horizonte. Estudantes e jovens profissionais, alimentados pelo espírito aventureiro indispensável a qualquer processo de modernização, vieram tentar a vida em BH, muitos deles dispostos a recomeçar sem olhar para trás. O ambiente universitário, as redações de jornais, os cafés do centro da cidade, o trafegar dos bondes, o movimento dos operários, bancários e funcionários públicos serviram de palco ideal para o intenso afluxo cultural que se tornou marca registrada da cidade no cenário nacional.
 
Toda a diversidade cultural, social e evidentemante econômica que caracteriza essa região tão peculiar pelos seus aspectos históricos e naturais, reflete na territorialidade de Belo Horizonte: o sul frio e montanhoso, de maior poder aquisitivo, o norte mais pobre, deixando à mostra a ferida civilatória do terceiro mundo, caracterizada pela exclusão de muitos, pela desigualdade acentuada e pelas contradições que opõem a extrema beleza de grandes edificações e privilegiadas paisagens naturais a tristes cenários de miséria e sofrimento. Isto é sombrio e belo como são belos seus horizontes, como tem sido o rico e ao mesmo tempo pobre Brasil.   
 
Uma certa irracionalidade marcou o crescimento das metrópoles brasileiras no século XX. Urbanização mal planejada, privilegiando interesses de pequenas elites, utilização predatória dos recursos naturais, resultando em variadas formas de poluição, especialmente no caso das águas e mananciais, acabaram por trazer à tona uma série de desafios para reverter esse quadro no novo século.
 
Em face de tal situação, Belo Horizonte se vê hoje cercada por tais desafios, como o de recuperar áreas degradadas, especialmente seus lagos, parques e rios, incluindo a recuperação de espaços urbanos dotados de maior valor histórico. Destaca-se também a necessidade de um grande esforço no sentido de minimizar as agruras dos deserdados.
 
Contudo, a cidade se encontra em condições bastante privilegiadas para fazer valer suas vocações tão ricamente configuradas. Os serviços urbanos são de um modo geral eficientes. Tratamento de água, rede de esgoto, telefonia, suprimento de energia e os serviços de transporte e escoamento de mercadorias aliam-se a uma ampla rede bancária, muitos centros comerciais, shoppings, rede hoteleira e outros serviços, proporcionando uma posição de destaque para a cidade entre as metrópoles brasileiras. Somando-se a isso toda a facilidade de acesso aos principais pontos turísticos de Minas, especialmente no que tange ao inestimável patrimônio histórico e ecológico, a capital mineira vem se afirmando cada vez mais como centro de negócios, atraindo capitais para a formação de centros de treinamentos, convenções e desenvolvendo Know how para sediar feiras, seminários e eventos de nível nacional e/ou internacional.
 
A humanização do espaço urbano, bem como o pleno alcance de suas potencialidades são os principais desafios que se colocam para os empreendedores e governantes na Belo Horizonte desse limiar de terceiro milênio. Parte do caminho já vem sendo trilhado, mas estima-se que se intensifiquem as ações nesse sentido.
 
Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC-MG.