Ofício abençoado

Fotos Ronaldo Guimarães
 
Artesanato que transforma vidas; artesãos do Vale do Jequitinhonha retiram do barro a prosperidade.



Artesãos do Vale do Jequitinhonha triplicam a renda e dobram a quantidade de peças vendidas. Em três anos, eles foram capacitados pelo Projeto de desenvolvimento do setor de artesanato de Minas Novas, do Sebrae Minas, e conseguiram melhorar a qualidade e comercialização dos produtos. Juntos, os artesãos estão superando as expectativas e transformando a realidade de uma das regiões com mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Minas Gerais.

Casado há 18 anos com a artesã Maria José Gomes, a Zezinha, Ulisses Gomes dos Santos deixou o trabalho de corte de cana, para se dedicar ao ofício desempenhado pela esposa. Em 1994, ele foi o primeiro homem a integrar a Associação de Artesãos de Coqueiro Campo, comunidade localizada no município de Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha.

Durante a primeira participação da associação na Feira Nacional de Artesanato, na capital mineira, em 1996, as peças das artesãs levadas por Ulisses para serem comercializadas alcançaram boas vendas. Entre utensílios domésticos e artigos de decoração feitos de barro, a cerâmica produzida por Zezinha, em especial as bonecas, se sobressaiu pela qualidade e acabamento. Tamanho foi o sucesso nos anos seguintes que, em 1998, o casal focou a produção somente em bonecas, que retratam o povoado do município. "Essa mudança nos ajudou a aperfeiçoar o trabalho", conta Ulisses.

 
Paciência e qualidade no trabalho

Zezinha intensificou a produção. Ulisses, por sua vez, apostava nas vendas em Belo Horizonte. Para Zezinha, o apoio do marido foi fundamental para o sucesso dos negócios do casal e também da Associação. "Sozinha, isso tudo não ia ser nada perto do que conseguimos. Somos boas na produção, mas não entendemos nada de vendas. O Ulisses é bom nas negociações e na busca de parcerias, então é ele quem cuida disso."

No início de 2005, o Sebrae Minas reuniu-se com os artesãos e com vários parceiros, implantando o projeto de artesanato em Minas Novas. "Recebemos capacitação em design, comportamento humano, gestão e comercialização, o que melhorou nossos conhecimentos e nos ajudou nas negociações", conta Ulisses.

Há dez anos, o casal produzia em média 30 bonecas/mês, que custavam cerca de R$ 40,00 cada. Hoje, a produção média é de 15 bonecas/mês. "Para começar esse ofício é preciso muita paciência e qualidade no trabalho. Aprendi que é melhor fazer poucas peças bem feitas que fazer muitas e não vender. Não devemos trabalhar só por dinheiro, mas também pelo prazer", aconselha Zezinha.

Com a renda obtida ao longo dos anos, o casal aumentou consideravelmente o patrimônio. Eles construíram duas novas casas ao lado da antiga moradia e adquiriram carro para auxiliar no transporte das peças. Na casa nova eles recebem os clientes e até turistas que visitam a região para conhecer a arte de Zezinha. A casa antiga será transformada no museu particular da família, abrigando peças que contam um pouco de sua história. "Já encomendei um casal de bonecas à minha mãe para guardar no museu. Foi ela quem me ensinou este ofício abençoado. Quero que meus netos, bisnetos e tataranetos conheçam a história de Zezinha", afirma orgulhosa.

 
No caminho certo

Desde sua implantação, o Projeto de desenvolvimento do setor de artesanato do Sebrae Minas vem transformando a vida dos artesãos nas comunidades de Coqueiro Campo, Cachoeira do Fanado e Furquilha, pertencentes ao município de Minas Novas.  De acordo com a pesquisa do Sebrae Minas, realizada entre 2004 e 2006, a renda média mensal dos artesãos participantes cresceu mais de 150%, desde o início do projeto. No mesmo período, aumentou o número de peças produzidas.

Outro saldo positivo foram os mais de 15 mil produtos vendidos, que corresponde a um aumento de 76% no número de peças comercializadas em 2006. “O projeto nos orientou a adequar nossos produtos às necessidades dos clientes, e conseqüentemente, aumentar as nossas vendas”, explica a artesã Maria do Carmo Barbosa Souza.

A iniciativa beneficiou cerca de 89 artesãos que produzem bonecos, animais e objetos decorativos feitos de cerâmica. Os participantes receberam informações sobre atendimento ao cliente, gestão, design, tecnologia e marketing. Também foram incentivados a criar coleções que valorizassem a identidade cultural dos produtos.
 
Para Sabrina Campos, técnica responsável pelo setor de artesanato do Sebrae Minas, o projeto ajudou os artesãos a se fortalecerem. “Com uma visão empreendedora eles criaram, produziram e passaram a ver o mercado de forma diferente. Os grandes resultados foram a melhoria da qualidade de vida, ampliação de renda e ocupação”, relata Sabrina.

 
Os melhores do Brasil

O artesanato produzido no Vale do Jequitinhonha ganhou reconhecimento nacional. Em 2006, as associações de artesãos de Minas Novas e de Coqueiro Campo ganharam o prêmio TOP 100 de artesanato — promovido pelo Sebrae —, ficando entre as 10 melhores unidades produtivas do setor no Estado e entre as 100 no Brasil.

"O Top 100 valoriza a qualidade do trabalho. Os artesãos precisaram comprovar que, além de possuírem um belo trabalho nas associações, cooperativas ou individualmente, realizavam ações sem comprometer o meio ambiente, tinham práticas comerciais justas, primavam pela adequação à cultura local e por aspectos ergonômicos e funcionais na unidade de produção", explica a técnica responsável pelo setor de Artesanato do Sebrae Minas, Sabrina Campos.

 
Capacitação e negócios pelo Estado

O Projeto de Desenvolvimento do  Setor de Artesanato do Sebrae Minas já atendeu 280 municípios e 4 mil artesãos no Estado, trabalhando a capacitação técnica e gerencial e o acesso a mercados.

Um dos pontos fortes do projeto é o catálogo de artesanato editado pelo Sebrae, que dá visibilidade à produção do interior do Estado. A terceira edição do Catálogo de Artesanato Minas Gerais reúne 367 produtos confeccionados por cerca de 200 artesãos. São utilitários e artigos de decoração feitos com matérias-primas diversificadas como, madeira, metal, cerâmica, fibras, entre outras.

Editado em três idiomas (português, inglês e espanhol), o catálogo é uma amostra das riquezas culturais e regionais de Minas e tem o objetivo de divulgar e impulsionar os negócios do setor nos mercados nacional e internacional. De acordo com Sabrina Campos , a quarta edição do catálogo está prevista para ser lançada em agosto do ano de 2008.