Existência imaginária de Maria do Matué

Por Pedro Cerqueira
Foto Fernando Grilo

O consagrado cantor e compsitor Tavinho Moura se aventura no universo literário com o lançamento de Maria do Matué – Uma estória do Rio São Francisco, projeto que vem acompanhado por um CD inédito.  
 

Em seu recém lançado-livro de estréia, o cantor e compositor Tavinho Moura usou sua experiência de ter morado em vários lugares do norte de Minas Gerais — período em que compôs trilhas sonoras de filmes do cineasta Schubert Magalhães —, além de todas as suas vivências nas andanças por ranchos pesqueiros, para contar grandiosas histórias do Rio São Francisco.

Trata-se de uma biografia imaginária da protagonista Maria do Matué que conta em primeira pessoa as aventuras e desventuras de sua existência na região da mata do Matué, habitada pelo povo Matué. Esta mata, imaginada pelo autor, existiu no encontro do Rio das Velhas com o Rio São Francisco e foi descrita pelos viajantes Saint-Hilaire e Richard Burton como um dos cinco mais belos lugares do mundo. Hoje a mata está extinta.

E esta Maria do Matué existiu? Sim, seu nome também é Maria e viveu no rancho pesqueiro de Tavinho Moura em Barra do Guaicuí e faleceu em 2004, aos 94 anos. “É uma homenagem a esta senhora detentora de toda uma cultura de subsistência, uma coisa que está praticamente em extinção. Seu marido morreu quando era muito nova e foi ela que criou os filhos, ela que plantava, roçava e fazia tudo. Ela também detém um aspecto cultural porque toda a mitologia do rio (São Francisco) está presente na vida dela” explica o autor.

Este é o primeiro livro lançado por Tavinho, que ficou quatro anos escrevendo e editando, processo que classificou como artesanal.  Ele conta que foi um grande aprendizado e que escreveu por prazer, mas quando o projeto foi aprovado na Lei Federal de Incentivo à Cultura e surgiu um patrocinador, ele teve que dar uma ajustada para tudo sair em tempo. A obra ganhou uma aquarela de Mário Zavagli que marca os pontos onde as narrativas se passam, e ilustrações de Jorge dos Anjos. O autor não descarta a possibilidade de futuramente escrever mais um livro e diz até já fazer anotações que, na sua avaliação, estão saindo mais prontas e bem formatadas.

 
Folclore
 
O universo do folclore sempre esteve presente na carreira de Tavinho e começou com o desejo de descobrir qual era a fonte da música mineira. O  artista começou a ouvir muita coisa e ir a festas populares. O resultado desta busca são belíssimas adaptações do folclore de Minas e do Brasil como Calix Bento, adaptado da Folia de Reis, e Peixinhos do Mar, da Marujada.

O compositor garante que seus trabalhos de campo não são pesquisas: “Pesquisa é uma coisa muito científica, eu gosto é da música. Eu escutei muito a música popular, viajei o Nordeste todo, viajei pela Amazônia. Eu conheço um pouco da cultura popular brasileira. E hoje sei muito bem traduzir todo este conhecimento”.
 

CD

Rua do Cachorro Sentado é o título do CD que vem encartado no livro. Tavinho Moura conta que o disco não é uma trilha sonora. “O CD é um universo paralelo, mas as canções falam sobre coisas de rio... Acaba sendo uma outra coisa dentro da mesma coisa”, explica o compositor. O nome do álbum foi baseado no antigo nome da rua onde Tavinho tem seu rancho, onde morava Maria do Matué.

O CD tem participação especial de Mariana Brant, Poliana Cruz, Chico Amaral, Túlio Mourão, Ricardo Cheib e Beto Lopes, que assina a direção. “São pessoas amigas, especiais. O disco teve uma verba limitada justamente porque era um livro e não um disco. Então, o projeto mesmo já limitou a utilização de dinheiro para o CD. Essas pessoas foram muito generosas. O disco foi super prazeroso de fazer e eu acho que ele está dez”, comemora.

Tavinho aproveita pra falar sobre outras duas importantes parcerias: “O Fernando (Brant) fez umas letras para mim, uma muito bonita que chama Igreja da Barra e também Chico Caminhador. Com o Ronaldo (Bastos) são duas regravações, Engenho Trapizonga, música minha e do Túlio Mourão com letra do Ronaldo Bastos que eu achei que cabia muito bem no disco, e Noites de Junho, que só tinha sido gravada pelo Flávio Venturini e que eu estava doido para gravar. Assim, aproveitei este disco porque ela tem todo um universo de natureza, da noite”.
 

Estilo de vida

Mineiro de Juiz de Fora, Tavinho veio para Belo Horizonte em 1954. Ele mora há quase 30 anos num sítio no bairro São Francisco, região da Pampulha, em Belo Horizonte. Quando se mudou para lá nada existia no local, as pessoas diziam “como vocês têm coragem de morar nesse lugar?”, conta. O cultivo de orquídeas e a paixão pela marcenaria são outras ocupações do compositor. Ele acredita que a música não é uma ocupação constante para mais ninguém. “Eu toco pouquíssimo, estudo um pouco, mas não sou desses fanáticos que tocam o dia inteiro. Aí eu invento essas coisas. Mas são hábitos diferentes, você precisa ter tempo, paciência, senão você acaba fazendo bobagem, fazendo errado”, diz.