Turismo sustentável e responsabilidade social

Por
Cacaio Six
Fotos Fernando Grilo


O jornalista José Eustáquio de Oliveira, o Taquinho, é um profissional multidisciplinar. Atuou, entre outras atividades, como repórter e editor na IstoÉ, na Folha de S. Paulo, no Diário do Comércio, foi professor e Coordenador de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da PUC/MG e da Escola de Comunicação da UFMG. Até recentemente foi Gerente de Comunicação Social da Gerdau Açominas, onde trabalhou 18 anos, cargo no qual se aposentou recentente. Atualmente é consultor de Comunicação, principalmente em assuntos voltados para a gestão de crise e responsabilidade social. Nesta entrevista, dentre outros temas discutidos, Taquinho salienta que o turismo é uma atividade a ser incrementada na nova economia globalizada, baseada na sustentabilidade e na responsabilidade social.
 


Qual a importância do Turismo para um país como o Brasil?
 
O Turismo é uma atividade considerada industrial tal qual a produção de automóveis ou a siderurgia. É um segmento importante das economias da França, Espanha, EUA, Inglaterra e também do México — um país emergente como o nosso. Dados disponíveis na Internet, dão conta de que a França e a Espanha arrecadam, por ano, mais de U$ 40 bilhões por ano com os cerca de 40 milhões de turistas que os visitam. O México, arrecada cerca de U$ 30 milhões por ano com turismo, talvez a sua mais importante fonte de arrecadação. Enquanto isso, o Brasil recebeu, ano passado, a quantia recorde de 6 milhões de turistas e arrecadou cerca de U$ 8 milhões. Ou o o mesmo que a capital da Espanha, Madrid, arrecadou em 2003. O mais grave é que, enquanto os países citados são visitados por causa de seus atrativos culturais, artísticos, paisagísticos, comerciais, ou até mesmo cientíticos, no Brasil um dos “atrativos” dos turistas estrangeiros é o chamado turismo sexual, especialmente no Nordeste e na Amazônia. Em outro plano, mas não muito diferente, os nosos atrativos turísticos estão muito ligado ao Carnaval, especialmente do Rio de Janeiro, Salvador e Recife, e aos passeios na Amazônia e do Pantanal matogrossense.

 
Em outras palavras, isso significa que a atividade turística no Brasil ainda está longe do que se faz primeiro mundo?
 
Significa que, além de estarmos agravando um problema social, o da prostituição infantil, estamos perdendo uma fantástica oportunidade econômica. O Brasil tem mais de dois milhões de quilômetros de praias maravilhosas na costa marítima, mais de não sei quantas em rios portentosos da Amazônia, conta com a música popular mais bonita e diversificada do mundo, tem o melhor futebol do planeta, abriga a maior reserva florestal e a mais ampla diversidade biolólogica da terra. Isso sem contar com a excelência  de sua culinária, o acervo histórico e artístico, arquitetônico e generosidade e hospitalidade de sua gente, apesar da pobreza, violência e miséria. O que nos falta é a consciência de que, em vez de permanecermos investindo em atividades industriais ultrapassadas, como a indústria madeireira e  a produção de automóveis, por exemplo, poderíamos investir seriamente na criação de uma pujante indústria de turismo, com retornos muito maiores, em prazos menores, sem causar poluição e engarrafamentos nos centros urbanos, ou a destruição das florestas.

 
O senhor acha que não existe no Brasil uma política específica, voltada exclusivamente para o setor?
 
Apesar dos esforços do Ministro Mares Guia quando esteve à frente do Ministério do Turismo, e que foi o que mais tentou articular seriamente o setor, o Brasil precisa  incrementar políticas mais consistentes no setor de turismo. Os políticos, os tecnocratas e os empresários, em sua maioria, ainda não perceberam a importância que o turismo vem adquirindo nesta era de globalização da economia. O turismo é uma atividade talhada para ser incrementada na nova economia, baseada na sustentabilidade e na responsabilidade social.
 

De que maneira  o turismo se encaixa nesta chamada nova economia?
 
Além de seu potencial gerador de riqueza, de empregos e renda, a atividade turística quando bem orientada, planejada e articulada com outros setores é não poluente e pode ser realizada com grande sustentabilidade. Não é dificil pensar o desenvolvimento equilibrado de atividades como hotelaria, indústria de entretenimento, atividades artisticas, esportes, cultura, agricultura, preservação ambiental e do patrimômio histório, físico e cutural. São atividades que podem atrair investimentos de risco nacionais e estrangeiros, com retornos de curto prazo. O novo é pensar o turismo a partir de políticas consistentes e coordenadas entre os setores público e privados, envolvendo, inclusive, outros setores da sociedades civil, como os setores culturais, de comunicação (Mídia), agricultura, representação sindical, meio ambiente, construção civil e educação, dentre outros. Precisamos todos entender a importância de se desenvolver no país uma indústria de turismo dinâmica, lucrativa e fundamental como alternativa sustentável de desenvolvimento social e econômico.


Esta não seria uma alternativa muito complexa para um país com as características do Brasil?
 
Sim é complexo, mas é possível. O Brasil é ainda um país muito amador em vários setores. No turismo também. Ainda falta muita coisa para que os nossos hotéis prestem serviços de boa qualidade, que os restaurantes atendam bem, sem falar no absurdo das estradas de rodagem e dos aeroportos. Porém, acho que essa realidade tende a mudar rapidamente por causa da globalização e do aquecimento global. Está se tornando improdutivo investir em certos setores considerados poluentes, insustentáveis. As empresas estão começando a mudar seu foco em busca de energias alternativas, consumo responsável e atividades pouco poluentes.


O senhor poderia citar alguma experiência neste sentido?
 
Veja o exemplo do Wal-Mart,  a maior empresa do mundo, que deu uma virada radical em seu posicionamento. Por isso, de vilão, o Wal-Mart transformou-se em herói do meio ambiente nos EUA. Será que que é porque o CEO, Lee Scot, virou mocinho depois de ter a iluminação ao conhecer Peter Seligmann, fundador da Conservação Internacional, uma das mais respeitadas organizações globais de proteção amiental ? Foi um pouco por isso, mas o mais importante é que uma pesquisa realizada nos EUA mostrou que o Wal-Mart perdeu, em 2004, de 2% a 8 % de consumidores por causa da mídia negativa. Detectou-se, também, que as ações da empresa valeriam 4,9% a mais nas bolsas se sua reputação fosse melhor. Para se ter idéia, a virada do Wal-Mart influencia  pesadamente o comportamento de funcionários, fornecedores e consumidores no sentido de adotarem a sustentabilidade como filosofia. O que eles estão colocando em prática é a percepção de que as marcas do futuro terão que garantir não apenas qualidade do produto mas também uma imagem desejável. Terão que igualmente sinalizar que alguma coisa de valor existe no interior delas, como afirma o guru das marcas Philip Kotler, que acrescenta: o próximo grande passo em matéria de marcas é a responsabilidade social.
 

Como juntar responsabilidade social e sustentabilidade em ações que poderiam redundar no incremento da atividade turística?
 
É preciso convencer e envolver as empresas e as comunidades para que todos  juntos possam desenvolver soluções locais. Um bom exemplo é o da Gerdau Açominas, com incentivo das Leis Federal e Estadual da Cultura, e apoio de empresas como a CEMIG, ao investir no Festival “Tudo é Jazz”, realizado anualmente em Ouro Preto. O festival ampliou as possíbilidades para o turismo de classe “A” na cidade. O evento reúne, há seis anos, os mais importantes músicos de  jazz do mundo. Atualmente abriga também artistas nacionais, regionais e locais, possibilitando o diálogo entre o que existe de melhor, mais inovador e consagrado musicalmente no mundo e no Brsail. Resultado: o público que gosta de música de boa qualidade e tem alto poder aquisitivo ocupa, na época do “Tudo é Jazz”, todos os hotéis, pousadas, hotéis-fazendo e até repúblicas de Ouro Preto, além de lotar os restaurants e consumir artesanato e pedras preciosas. Melhor: os turistas visitam os museus, igrejas, ateliers, ruas, ruelas, bares, aprendem sobre a arquitetura e a música barroca de Minas, conhecem e passam a amar as obras de Aleijadinho, Mestre Athaide, Bracher, Guignard, Tomaz Gonzaga, Claudio Manuel da Costa  e passam a respeitar Minas, a Inconfidência Mineira e Tiradentes. Sem contar a curtição da comida típica e da cachaça mineira. Tive a oportunidade de assistir na Globo News uma entrevista com o Ron Carter, o maior violoncelista do mundo, na qual ele falou de seu encamentamento com Ouro Preto, com Minas e com os músicos brasileiros. Quer propaganda melhor para o país e para a cidade? Esse é um conceito em turismo que as empresas podem desenvolver em suas comunidades, existe até incentivo governamental para isso. È preciso que entendamos que, apesar de ser uma indústria, o turismo só existe na realidade se for entendido como CULTURA.


O que senhor quer dizer com essa afirmação?
 
Pense bem! Ninguém vai à França ou à Espanha para apenas conhecer Paris ou Barcelona. As pessoas viajam atrás de conhecimento, para fruir o belo, para estabelecer  ligações históricas, culturais e afetivas com seu passado ou para conhecer o que poderá ser o futuro. O que elas buscam nesses países são os museus de arte e a arquitetura; é a gastronomia, a música, os vinhos, os espetáculos de ópera, dança, circo, moda, literatura. Fazer turismo é se encontrar com a história, com a produção do pensamento; é conhecer outras culturas, outras maneiras de ser e pensar. É uma possibilidade de conhecermos a nós mesmos através dos outros.
 
 
Neste cenário que o senhor pintou, como fica o turismo em Minas?
 
Por ser um estado privilegiado em recursos naturais, além do ouro, do diamante, das pedras preciosas e o minério de ferro, Minas tem paisagens e lugares belíssimos como as Serras do Cipó, da Mantiqueira e Ibitipoca. Tem o Rio São Francisco, o Vale do Jequitinhonha, o Circuito das Águas e a Estrada Real. Mas o que me encanta é que Minas forjou o que eu chamo de cultura das cidades históricas, com o estilo barroco impresso na face mineira pela genialidade de Aleijadinho e Athaide. Mais que isso, pelo estabelecimento de um dos berços da identidade brasileira, surgida do sangue de Tiradentes e Felipe dos Santos; dos versos dos poetas Claudio Manoel e Tomaz Antônio Gonzaga, que habitam com suas sombras as ruas de Ouro Preto, Mariana, São João del Rei, Itabira, Tiradentes. São ruas que escutam Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Teofilo Otoni, Tancredo Neves, Pedro Nava, Fernando Sabino, Oto Lara Resende e Guimarães Rosa. Minas são muitas. Se soubermos nos preparar, como Juscelino uma vez nos ensinou, a gente chega lá. O cavalo está, novamente, passando arriado.