Serras de todas as esperanças

Reportagem Wilson Renato Pereira e Raquel Coutinho
Fotos José Israel Abrantes
 
Serras da Calçada, da Moeda e do Rola-Moça são guardiãs de riquezas históricas e ambientais da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, mas sofrem pressões decorrentes principalmente da expansão urbana, do turismo predatório e de atividades minerais.
 

“Ninguém nivelará as montanhas de Minas”. Esta frase, de forte conteúdo simbólico, atribuída ao ex-presidente e ex-governador Tancredo Neves, expressa todo orgulho e apreço que os mineiros têm pelas serras que desenham o relevo e dão identidade ao Estado. Montanhas que escondem belezas, mistérios, conspirações e chegam mesmo a influenciar o temperamento reservado mas generoso da sua gente.

A história mineira passa, necessariamente, por suas montanhas. Elas são muitas e estão em todo canto do Estado, cada qual mais surpreendente pela beleza das suas reentrâncias, picos e cachoeiras, pelos pores-do-sol deslumbrantes, pela rica diversidade da flora e da fauna nativas e pelos vestígios deixados por quem já andou por aqui em remotas épocas.

Três delas estão a apenas 20 quilômetros de Belo Horizonte, margeando o lado direito da BR-040, em direção ao Rio de Janeiro, próximo ao trevo de Ouro Preto. Trata-se da Serra da Calçada, ilustre desconhecida de muitos, e das vizinhas Serra do Rola-Moça e Serra da Moeda, famosa pelo espetáculo de cores e formas que os praticantes de vôo livre traçam no céu todo fim-de-semana.

 
Formações muito raras

Bem perto, nota-se o tráfego frenético de caminhões carregando o ferro extraído das minas da região para alimentar a voracidade dos mercados dessa valiosa commoditie. Mas, além do minério, também se escondem por trás das serras de solos ferruginosos, sentimentos nostálgicos de quem acompanha sua agonia.

Moradores locais, freqüentadores e ambientalistas, como a mestre e doutoranda em ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Maíra Figueiredo Goulart, temem pelas muitas espécies de orquídeas terrestres, bromélias, gramíneas e arbustos que ocorrem apenas no tipo de solo da região. “Se essa área continuar sendo destruída, boa parte da sua biodiversidade estará perdida para sempre”, alerta, observando que os campos ferruginosos são formações muito raras fora do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais.


Importância histórica e ambiental

A Serra da Calçada fica na porção norte da Serra da Moeda, braço meridional da Cadeia do Espinhaço — reconhecida pela Unesco como Reserva da Biosfera. Para alguns, o nome ‘Calçada’ deve-se aos solos formados, basicamente, por canga (óxido de ferro hidratado e ‘cimentado’ por intemperismo). De origem indígena, o nome foi incorporado ao vocabulário geológico brasileiro, conformando uma superfície que imita um calçamento artificial. Outra versão, baseada em razões históricas, sustenta que o nome vem dos antigos pisos, ainda hoje existentes em vários trechos da serra, que facilitavam o acesso aos antigos núcleos de mineração e fazendas da região, cuja ocupação remonta ao final do século 17 e início do século 18.

Tais informações foram reunidas no trabalho desenvolvido pelo Instituto de Estudos Pró-Cidadania (Pró-Città) e Instituto Biotrópicos de Pesquisa em Vida Silvestre, em parceira com Associação para a Recuperação e Conservação Ambiental e Defesa da Serra da Calçada (Arca-Amaserra). O próprio nome ‘Serra da Calçada’, de acordo com a pesquisa, “revela seu patrimônio e seus paradoxos, formando uma síntese que é emblemática de Minas Gerais e da região do Quadrilátero Ferrífero. De um lado, o meio natural, com predomínio das cangas e dos campos rupestres, com cobertura vegetal que abriga diversas espécies endêmicas de flora e fauna variada; de outro lado, a história, o registro da formação inicial da civilização mineira, com a exploração mineral e com as primeiras ocupações, deixando vestígios e registros que permanecem em nossa paisagem, de rara beleza cênica”.

 
Localização

A Serra da Calçada estende-se por cerca de 8 km entre os municípios de Nova Lima e Brumadinho e divide as bacias dos rios Paraopeba e das Velhas, importantes mananciais que abastecem a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Inserida na Área de Proteção Ambiental Estadual (APA-Sul/RMBH), sua extremidade sul encontra-se parcialmente no Parque Estadual da Serra do Rola-Moça e na Área de Proteção Especial Catarina. Sua porção nordeste faz limite com a Estação Ecológica de Fechos.

Segundo os professores Marco Aurélio Costa, mestre e doutorando em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e dirigente da ONG Pró-Cittá, e Alexsander Azevedo, mestre em entomologia e doutorando em ecologia pela UFMG, a Serra da Calçada é pressionada, por um lado, pelo avanço das atividades minerárias e, por outro, pelas pressões decorrentes da expansão urbana da RMBH e do turismo desordenado. Cresce a cada dia o número de visitantes que procuram a serra por suas qualidades naturais, paisagem e possibilidades para a prática de esportes.

Para Marco Aurélio, uma ação orientada para a proteção da Serra da Calçada deve considerar sua inserção regional, especificidades, patrimônio natural e histórico. “É preciso traçar uma estratégia de proteção que garanta permanência desse patrimônio, de forma compatível com a realidade socioambiental local e com os conflitos de uso atualmente existentes, em uma perspectiva de promoção do desenvolvimento sustentável”, afirma.

 
Patrimônio histórico-cultural

Conforme explica o professor, a história da Serra da Moeda se confunde com a história de Minas Gerais e do Brasil. Mesmo antes da ocupação portuguesa que viria a ocorrer a partir de meados dos anos 1600, essa região testemunhou ocupações pré-coloniais, como se vê nas inscrições rupestres que podem ser encontradas em suas grutas. Esse patrimônio espeleológico-arqueológico reúne diversas grutas cuja identificação, mapeamento e caracterização encontram-se por fazer.

A ocupação “moderna” da serra da Moeda data do século 17, como testemunham os caminhos revestidos de pedra que são encontrados ao longo das encostas, conectando importantes unidades agro-minerais que ali se estabeleceram, muitas delas ainda existentes na paisagem da serra, como é o caso do chamado Forte de Brumadinho, na Serra da Calçada. Segundo alguns pesquisadores, uma estrada com vários trechos calçados atravessa esse trecho do Espinhaço, da Serra da Calçada até o limite sul da Serra da Moeda, passando, inclusive, pela Fazenda da Boa Esperança, no município de Belo Vale, um dos mais importantes monumentos históricos de Minas Gerais, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e pelo Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA).

Os caminhos que atravessam as serras da Moeda e da Calçada são registros importantes do processo de colonização de Minas Gerais e do Brasil. Seus trechos, alguns deles ainda preservados, compõem a malha secundária da Estrada Real, construída no século 17, única via de conexão entre Vila Rica e os portos de Parati (Caminho Velho) ou Rio de Janeiro (Caminho Novo) autorizada pela Coroa Portuguesa.

 
Testemunho ameaçado

Diversos vestígios e registros de arqueologia histórica podem ser ainda encontrados: calçadas de pedra, aqueduto, galerias, canais, catas e os chamados “mundéus” (grandes tanques receptores), testemunhos da exploração minerária e das técnicas que permitiram o desenvolvimento dessa atividade já naquela época. O Forte de Brumadinho destaca-se entre as ruínas de grande importância histórica.

A despeito do apelido e da forma que revela de uma clara estratégia de defesa, o forte consiste em um magnífico exemplar de arquitetura civil, tendo sido construído, segundo alguns pesquisadores, na primeira metade do século 18. A edificação principal domina a encosta oeste da Serra da Calçada, permitindo o controle visual dos caminhos e trilhas da região e de seus principais marcos naturais, a partir de uma construção de paredes de pedras de grande volume e fechamento hermético, com sua única entrada apontada para leste, o que favorecia a defesa.

No interior de suas paredes, diversos vestígios de construções podem ser observados, como uma edificação principal, um poço e outras construções anexas. Ricos e variados elementos construtivos, executados com grande rigor técnico denotam a importância histórica e arquitetônica da edificação. Esse valioso e ainda pouco explorado patrimônio histórico e cultural vem sofrendo agressões de diversas naturezas, como dos novos e recentes avanços da mineração, do avanço da urbanização e das práticas turísticas degradantes.

O fato de ainda não estar devidamente protegido, embora conste no Inventário do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC) do Estado de Minas Gerais, contribui para que essa parte da história se perca. Iniciativas relevantes, como o trabalho feito pela Associação Turística da Encosta da Serra (Asturies) e pelo Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), dão mostras da importância do patrimônio histórico e cultural da região, que ainda carece de identificação, mapeamento e caracterização adequados.

 
Flora exuberante

O estudo revela a singularidade do meio natural da Serra da Calçada, que conserva um rico patrimônio biológico e genético: formações vegetacionais como as matas de galeria, os capões, os campos rupestres sobre quartzito e, em especial, os campos rupestres sobre canga. A canga caracteriza-se por afloramentos ferruginosos que ocorrem em topos e encostas de montanhas isoladas no Quadrilátero Ferrífero, oriundos de intensas atividades vulcânicas.

No substrato rico em ferro, crescem os campos rupestres sobre canga, também denominados campos ferruginosos. As plantas deste tipo de vegetação são adaptadas para sobreviver em um ambiente estressante, já que no solo da canga existem metais tóxicos e quase não há retenção da água de chuva. Para se ter uma idéia, mais de um terço das famílias botânicas existentes no Brasil estão representadas nos campos ferruginosos.

Tais características fazem da canga um ecossistema favorável à existência de um elevado grau de endemismo — espécies que ocorrem apenas nos campos ferruginosos e em nenhum outro lugar do mundo. Pode-se citar a cactácea Arthrocereus glaziovii, a orquídea Oncidium gracile, as bromélias Dyckia consimilis e Vriesea minarum, além de ervas e arbustos como Mimosa calodendron, Sinningia rupicola, Ditassa aequicymosa, Ditassa linerais, Calibrachoa elegans. Na Serra da Calçada podem ser encontrados aproximadamente dois terços do total de espécies ameaçadas de extinção em Minas Gerais.

A Xylocopa truxali (Apidae), abelha solitária que habita o local, constrói seus ninhos nos ramos da canela-de-ema Vellozia compacta. Devido à grande redução de seu habitat, esta espécie foi enquadrada como vulnerável na Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, editada pelo Ministério do Meio Ambiente.

 
Espécies raras ou ameaçadas

Estudos com inventário da fauna de vertebrados ainda não foram realizados especificamente na Serra da Calçada. Mas a fauna do Parque Estadual da Serra do Rola-Moça e da EE de Fechos já foram estudadas. Mamíferos ameaçados de extinção como a onça-parda (Puma concolor), o gato-do-matopequeno (Leopardus tigrinus), o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), a raposa-do-campo (Pseudalopex vetulus) e pelo menos duas espécies de veados (Mazama americana e Mazama gouazoupira) habitam a região. Estas espécies demandam uma grande área para viver, se alimentar e reproduzir. Segundo estudos do Instituto Estadual de Florestas, se o atual estado de degradação da região for mantido, suas populações podem não ser viáveis em longo prazo.

O IEF também registra duas espécies de anfíbios ameaçadas de extinção Hyalinobatrachium eurygnathum e Phasmahyla jandai e diversas espécies de aves consideradas endêmicas, raras ou ameaçadas: Augastes scutatus, Melanopareia torquata, Cyanocorax cristatellus, Polysticus superciliaris, Antilophia galeata, Porphyrospiza caerulescens, Harpyhaliaetus coronatus, Tinamus solitarius, Odontophorus capueira e Crax blumenbachii.

 
Hotspots

Por reunir áreas de Mata Atlântica e de Cerrado, a cadeia da Serra do Espinhaço e, mais especificamente, a Serra da Calçada, são contempladas por ações conservacionistas. Ambos os dois biomas são considerados hotspots — estão entre as 25 eco-regiões mais ricas e ameaçadas do planeta. Os hotspots ocupam apenas 1,4% da superfície da Terra, mas concentram 44% de todas as espécies de plantas vasculares e 35% de todos os vertebrados, com exceção dos peixes. Todas elas, no entanto, apresentam pelo menos 70% de sua extensão original já descaracterizada por atividades humanas.

A grande importância biológica da Cadeia do Espinhaço é reconhecida em estudos globais de identificação de prioridades para conservação, sendo enquadrada nos Centros de Diversidade de Plantas da WWF/IUCN, na lista da World Wildlife Funds’s Global 200 e nas Áreas de Endemismo de Aves (EBAs), da BirdLife International. Nacionalmente, o Espinhaço foi apontado como prioritário para conservação em estudos promovidos para os biomas brasileiros no âmbito do Programa Nacional de Biodiversidade (Pronabio), do Ministério do Meio Ambiente. Estudos que apontaram as áreas prioritárias para a conservação no Estado de Minas Gerais, coordenados pela Fundação Biodiversitas, Conservação Internacional e Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Minas Gerais, conferiram ao Espinhaço o status de importância especial.

Um importante passo foi dado em prol da conservação da Cadeia do Espinhaço quando, em julho de 2005, grande parte da sua porção mineira foi decretada Reserva da Biosfera pelo programa O Homem e a Biosfera, da UNESCO. As metas de uma Reserva da Biosfera enfocam a proteção da biodiversidade, aliada ao desenvolvimento responsável e ao conhecimento científico. Em busca da sua efetivação, as ONGs Instituto Biotrópicos, Fundação Biodiversitas e Conservação Internacional desenvolvem o Projeto Espinhaço Sempre Vivo.

Também temendo os efeitos da exploração de riquezas minerais sobre o valioso patrimônio natural e histórico existente na Serra da Calçada, a ONG Arca-Amaserra reforça o coro por sua preservação. Formada por moradores da região, a organização sugere sua incorporação ao Parque Estadual da Serra do Rola-Moça, por meio projeto de lei 1.304/07, de autoria do deputado Délio Malheiros, apresentado à Assembléia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que conta com o apoio do IEF, de diversas entidades ambientalistas e da Comissão de Meio Ambiente e Recursos Naturais da ALMG, como se viu em recente audiência pública realizada naquela casa legislativa.

 
Uma serra em comum

As ameaças à Serra da Calçada desencadearam uma mobilização social sem precedentes na região. Pessoas que têm em comum o amor por essas montanhas se organizaram na tentativa de conter sua degradação. A ONG Arca-Amaserra, por exemplo, vem realizando diversas manifestações em defesa do local e, paralelamente, articula meios de agir por mecanismos legais.

Esportistas, ambientalistas, vizinhos ou freqüentadores, a serra encanta tipos de todas as tribos. Durante 18 anos, a assistente social Leda Afonso Martins, moradora da região, registrou exemplares de flores da região e enviou amostras para pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo. Mais de três mil flores foram fotografadas nesse período. Aos 80 anos de idade, Dona Leda não se cansa de apreciar a delicada vegetação dos campos rupestres. “Temos que conhecer para amar e proteger. Muitas das espécies que via antes já não são mais encontradas hoje”, lamenta, ao mesmo tempo em que continua a correr aqui e ali, batendo em portas as mais diversas, em busca de patrocínio para o livro no qual pretende registrar o resultado das suas pesquisas de campo.

Entre a gente da serra, há também grandes talentos do esporte mineiro. Pela variedade e qualidade das trilhas, proximidade com a capital Belo Horizonte e facilidade de acesso, o local revelou campeões de mountain bike e triatlon que ainda hoje procuram ali as belezas que os encantaram no início de suas carreiras. Nik Wagner é um deles.

André Aloísio Duarte Corrêa, mais conhecido como Abelha, foi um dos precursores. Também morador da região há 33 anos, começou a pedalar aos 40 e conquistou importantes títulos nacionais e internacionais — foi bicampeão mineiro de triatlon, campeão brasileiro de mountain bike e triatlon e campeão da Copa do Mundo de Mountain Bike.

Outra importante atleta formada no local é Jaqueline Mourão, representante do Brasil nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, e no Pan do Rio 2007. “A Serra da Calçada é um lugar muito especial para mim, onde aprendi a pedalar e a levantar dos tombos. Tenho a serra em minha memória e nas fotos de antigamente, um antigamente que me levou a um futuro brilhante”, comenta.




O Forte de Brumadinho destaca-se entre as ruínas de grande importância histórica.


Mais de um terço das famílias botânicas existentes no Brasil estão representadas nos campos ferruginosos.

As nascentes esculpem as belas reentrâncias da Serra da Calçada.


Serras da Calçada, do Rola-Moça e da Moeda, famosas pelo espetáculo de cores e forma.



Minhas Meias Sujas
Por Nik Wagner

A Serra do Rola-Moça
Mário de Andrade


No substrato rico em ferro, crescem os campos rupestres sobre canga.