As Minas e os Gerais sem tamanho

Reportagem Pedro Cerqueira
Fotos Henry Yu
 
Se o Brasil é um país com dimensões continentais, o estado de Minas Gerais, com 853 municípios habitados por cerca de 18 milhões de pessoas e área total de aproximadamente 7% do território nacional (586.552,4 km2), tem dimensões de um país. Um “país” que se destaca por sua grande riqueza natural, cultural e histórica que se misturam para formar uma deliciosa diversidade.

 
Minas abriga vegetações de Mata Atlântica, Cerrado e até mesmo uma pequena amostra da Caatinga, a única fora do Nordeste brasileiro. A Mata Atlântica é o bioma que prevalece no sul e sudeste do Estado (pelo menos o que sobrou dela). O Cerrado cobre grande parte do centro e do noroeste e a Caatinga espalha-se pelo extremo norte e nordeste mineiros, ao longo da divisa com a Bahia.

O elevado número de nascentes rende a Minas Gerais o título de caixa d’água do Brasil. As grandes bacias hidrográficas do país têm suas origens no território mineiro, as bacias do São Francisco, do Paraná e a do Leste. O estado tem 5.030 km2 constituídos por lagos e rios.

O clima mineiro é muito influenciado por sua altitude média de 700 metros, com 9% de suas terras apresentando altitudes superiores a mil metros e com montanhas entre 1.500 e 2.900 metros. O clima predominante é o tropical de altitude nas regiões altas, com temperaturas mais baixas, mas ainda podemos encontrar o tropical semi-árido ao norte e o tropical semi-úmido no centro-sul. A temperatura fica em torno de 18ºC, com médias de 9ºC no Sul e 33ºC no norte.

E esta diversidade é a matéria-prima do turismo mineiro. A geografia variada, com planaltos, picos, serras, depressões, vales, cavernas, rios, lagos, cachoeiras, campos, florestas, afloramentos minerais e coberturas vegetais diversas, já revela a vocação do Estado para o ecoturismo e o turismo de aventura.
 

Ecoturismo e Turismo de Aventura
 
A Serra do Cipó oferece várias opções para os mais corajosos, como o canyoning, caving, alpinismo, trekking, hikking, passeios de caiaque e barco. Na Serra da Canastra o turista encontra paisagens de serras e vales com cachoeiras e paredões de pedra prontos para serem escalados. Na Serra do Lenheiro são praticados o off-road, mountain-bike e rafting. O Pico do Gavião, ponto mais alto da Serra do Caracol, é freqüentado pelos praticantes do vôo livre. Na Serra da Mantiqueira muitas opções como trilhas, cavalgadas, canoagem, arborismo, vôo livre, rapel e rafting.

O passeio ecológico é uma modalidade muito apreciada no Sul de Minas. A Pedra Sapo e a Mata do Pinheirinho (em Extrema) são repletas de quedas d' água a 1.790 metros de altitude. Na Pedra da Onça (em Senador Amaral), que possui excelente vista panorâmica, o visitante pode banhar-se no Pilão de Pedra, rocha que recebe a água de dois rios e as devolve cinco metros abaixo em forma de várias quedas d'água. A cidade de Gonçalves também reúne um singular conjunto paisagístico que, além das trilhas, oferece passeios a cavalo ou trekking.

Cavalgadas e caminhadas por trilhas centenárias, além de um banho na Cachoeira Bom Retiro, são os atrativos de Santa Cruz de Minas. Em Alvorada de Minas, passear por trechos da Estrada Real ainda recobertos pela floresta original (Mata Atlântica). O Parque Nacional da Serra da Canastra abriga inúmeras nascentes, corredeiras, lagos, grutas, cavernas e cachoeiras como a Casca D’Anta, com 200 metros de queda. É na Serra da Canastra que está a nascente do Rio São Francisco.

No Parque Municipal do Rio Claro (em Santa Rita de Caldas), os turistas encontram cachoeiras, piscinas naturais e mini-praias de rios. Em Senador Modestino e Couto de Magalhães existem várias reservas naturais repletas de cachoeiras e poços para banho. A região da Serra do Espinhaço e da Bacia Hidrográfica do Rio Jequitinhonha é cheia de grutas e quedas d’água, com destaque para as cachoeiras dos Cristais, da Sentinela e das Fadas e as grutas do Salitre e da Tromba D’Anta. Se o interesse for visitar grutas vale destacar as mais famosas do Estado, Gruta de Maquiné (em Cordisburgo), da Lapinha (em Lagoa Santa) e do Rei do Mato (em Sete Lagoas). Em São Gonçalo do Rio Preto existe a oportunidade de se hospedar nas casas dos moradores e vivenciar o seu dia-a-dia, o chamado Turismo Solidário.
 

Águas que curam
 
As águas de Minas oferecem muito mais que beleza e desafios para os turistas. As cidades do Circuito das Águas, sul do Estado, têm fontes de águas com características terapêuticas próprias. No Parque das Águas (em São Lourenço) existem seis fontes minerais. Caxambu guarda a maior concentração de águas carbogasosas do Planeta, são 12 fontes diferentes de água mineral com alto poder diurético e desintoxicante. Em Cambuquira existem fontes gasosas, magnesianas, férreas e sulfurosas que possuem poder de cura. A região possui muitos parques, praças, fontes e termas. Outras cidades, em outras regiões do Estado, que possuem fontes hidrominerais e águas com ação terapêutica são Poços de Caldas, Passa Quatro Araxá e Patrocínio.
 

Arquitetura
 
As cidades mineiras, principalmente as mais antigas, exibem numerosas igrejas coloniais, além de um belo acervo da arquitetura civil deste período. Ouro Preto guarda imponentes sobrados, casas de câmara e cadeias, chafarizes, capelas e magníficas igrejas como a de São Francisco de Assis, com obras de Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho) e Mestre Athaíde. Ainda nesta região o turista pode visitar a capela de Nossa Senhora do Ó (em Sabará) e o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos (em Congonhas), com os passos da Paixão de Cristo e as esculturas dos profetas, obras de Aleijadinho.

A Matriz de Nossa Senhora do Pilar (em São João del Rei) e a Matriz de Santo Antônio (em Tiradentes) são pequenas amostras das igrejas e capelas que podem ser encontradas no Circuito Trilha dos Inconfidentes. A região ainda é rica em sobrados, fazendas centenárias, antigas casas de câmara e cadeia, museus históricos e de arte sacra, bastando um passeio por seus centros históricos para conferir as atrações.

Diamantina exibe um importantíssimo conjunto arquitetônico, sendo que algumas ruas do centro histórico ainda conservam seu calçamento original. A Igreja mais suntuosa da cidade é a de Nossa Senhora do Carmo, que abriga um órgão trabalhado em ouro com mais de 600 tubos. As igrejas do Serro se destacam por suas belas pinturas. O belo casario da cidade se encontra bastante conservado.

Em Belo Horizonte, a Praça da Liberdade exibe um interessante conjunto arquitetônico composto pelo estilo eclético (com predominância do neoclássico), pelo modernismo de Oscar Niemeyer e o estilo pós-moderno do Museu de Mineralogia, de Éolo Maia e Sylvio de Podestá. No Complexo da Lagoa da Pampulha novos traços de Niemeyer como a Igreja de São Francisco de Assis, a Casa do Baile e o Museu de Arte Moderna.
 

Patrimônio da Humanidade

É importante salientar que Minas Gerais possui três dos 17 bens brasileiros inscritos na lista do Patrimônio Mundial pelo seu excepcional e único valor para a cultura da humanidade: a cidade histórica de Ouro Preto, o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos (em Congonhas do Campo) e o centro histórico de Diamantina.
 

Museus
 
Entre os principais museus do Estado estão os do Circuito do Ouro, que guardam objetos notáveis e documentos de grande valor. Em Ouro Preto destacam-se o Museu da Inconfidência, Museu do Oratório e Museu de Arte Sacra. Ainda são museus importantes nesta região o Museu do Ouro (em Sabará), o Museu do Escravo (em Belo Vale) e o Museu de Arte Sacra (em Mariana).

Belo Horizonte concentra 13 museus e cinco centros de memória, entre eles o Museu histórico Abílio Barreto, Museu de Artes e Ofícios, Museu de Mineralogia, Museu de Arte Contemporânea e Museu de Ciências Naturais. Outro lugar especial, situado no município de Brumadinho, é o Inhotim Centro de Arte Contemporânea, cujo acervo artístico de arte contemporânea se relaciona com a natureza em 35 hectares de jardins.
 

Artesanato
 
A produção do artesanato em Minas Gerais vem crescendo, se organizando e profissionalizando. Esta evolução tem acontecido sem que os produtos percam seus vínculos com a história e cultura do Estado, além de trazer novas formas de trabalho e criação. Em cada região cultural, de acordo com seu processo histórico, sobressaem-se variados objetos artesanais típicos.

Na Serra da Mantiqueira a arte toma forma por meio do barro, da palha, da madeira e do tecido. No Vale do Jequitinhonha, a tradicional técnica de modelar a argila para fazer potes e moringas utilizados no dia-a-dia agora também vem sendo usada para confeccionar máscaras, animais e bonecas. As carrancas são fabricadas pelas populações das margens do Rio São Francisco desde o começo do século XIX.

Na região dos Campos das Vertentes encontra-se jóias e adornos de prata, de Tiradentes, e as peças de estanho de São João del Rei. Em Resende Costa são produzidos bordados e tapetes, além de colchas, toalhas de mesa e cortinas em teares manuais. O município de Prados tem uma das maiores produções artesanais da região com variadas esculturas de animais em madeira e peças decorativas trabalhadas com material reciclado, com destaque para o distrito de Vitoriano Veloso que é mais conhecido como Bichinho. Arreios, selas e outros artigos de montaria feitos à mão são executados em Dores do Campo.

Alguns municípios organizaram feiras para expor seu artesanato. Uma das mais famosas é a Feira de Arte e Artesanato da Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, que possui cerca de 3 mil expositores divididos em 17 setores, tamanha a riqueza e diversidade dos trabalhos expostos. Da Feira de Artes e Artesanato de Poços de Caldas participam cerca de 600 artesãos que expõem bordados, tricô, crochê, malharia, bolsas e bibelôs em cristal murano.
 

Cozinha
 
A culinária mineira é fruto tanto da comida simples e rude de escravos e tropeiros quanto dos pratos elaborados nas fazendas. Seu cardápio resume sua história e a mistura de culturas. Como a atividade inicial era a extração do ouro, e o desenvolvimento da lavoura e pecuária era quase nulo, diz-se que a culinária mineira veio do quintal. Era o quintal que oferecia milho, mandioca, feijão, couve, abobrinha, chuchu, jiló, taioba, ora-pro-nóbis, e ainda galinhas e porcos que ali eram criados.

Além das compotas, a goiabada e o doce de leite fazem parte da sobremesa dos mineiros. Estes doces sempre são acompanhados por um pedaço de queijo, como o da Serra da Canastra ou do Serro. Para acompanhar o lanche, diversas quitandas como o pão de queijo, broas, biscoitos, sequilhos e brevidades.
 

Cachaça
 
Produto industrial para exportação, sobretudo para países europeus, a cachaça vem ganhando status e prestígio a cada dia. Hoje existem mais de 5 mil marcas registradas somente em Minas Gerais. Em várias cidades o produto ainda é fabricado artesanalmente.
 

Música
 
A cidade de Mariana é guardiã de um dos principais tesouros da música colonial brasileira, um órgão fabricado em 1701 pelo construtor alemão Arp Schnitger, que fica na Catedral da Sé, onde ainda são realizadas apresentações de música colonial.

Outra cidade que guarda parte da história da música mineira é São João Del Rei, com duas orquestras fundadas na segunda metade do século XVIII que ainda estão em atividade e foram responsáveis pela manutenção de significativa parte do acervo do período colonial.

Diamantina é palco da Vesperata, tradição que remonta ao século XIX em que músicos e cantores ficam nas janelas e sacadas da rua da Quitanda e executam um eclético repertório conduzido por um maestro que fica embaixo, no centro da praça.

Minas ainda é berço de importantes compositores das décadas de 1940 e 1950, os sambistas Ary Barroso e Ataulfo Alves. Na virada da década de 1960 para 1970 surgiu a turma do Clube da Esquina, reunindo Milton Nascimento, Wagner Tiso, Lô Borges, Fernando Brant, Beto Guedes, Toninho Horta e Tavinho Moura. Mais recentes são os artistas do cenário pop, que despontaram a partir da década de 1990, e a vanguarda do grupo Uakti.
 

Turismo de Negócios
 
No ano passado, Belo Horizonte sediou cerca de 4 mil eventos, a maioria feiras, congressos e exposições das mais diversas áreas profissionais e econômicas. Apostando no setor de serviços, que reúne as atividades de eventos e turismo e ainda corresponde a 84% de suas atividades econômicas, a capital tem recebido maciços investimentos em infra-estrutura para se consolidar como um dos maiores pólos de turismo de negócios do país.
 

Festas e Eventos
 
Anualmente acontece em Belo Horizonte eventos que já se tornaram tradição e que agitam a cidade como o Festival Internacional de Teatro, Fórum Internacional de Dança, Festival Mundial de Circo do Brasil, Festival Internacional TIM de Curtas-Metragens, Festival Internacional de Quadrinhos, Encontro Mundial de Artes Cênicas, Festival Internacional de Teatro de Bonecos e Campanha de Popularização do Teatro e da Dança.

Pelo Estado a programação também é variada. Em Tiradentes se destacam a Mostra de Cinema e o Festival de Cultura e Gastronomia. Ouro Preto, Mariana, Itabira, Diamantina, São João del Rei e tantas outras cidades organizam seus Festivais de Inverno todos os anos. Existem ainda as celebrações religiosas da Semana Santa, os carnavais, festivais, exposições agropecuárias, rodeios, festas.




Paisagem das serras verdes do Sul de Minas.


A magnífica Matriz de Santo Antônio em Tiradentes: um dos mais ricos atrativos do Circuito Trilha dos Inconfidentes.

Circuito das Grutas: atrativos tradicionais de Minas.


Ecoturismo: uma das principais vocações turísticas de MInas Gerais.

"Revoada" de paragliders na Serra da Moeda.


Esportes de Aventura: mercado em franca expansão.



A eterna Diamantina, destino de turistas de todas as partes do mundo, é o principal atrativo do Circuito dos Diamantes.