Cantando baixinho

Por Maria Lutterbach

Em voz, letra e música, Érika Machado mostra que é uma das boas descobertas da música brasileira contemporânea.  
 
 
Para dividir com o mundo o que leva por dentro, Érika Machado escolheu o caminho da singeleza. O que vai capturando no ar, entre os amigos e por onde passa, transforma em letra, música, desenho e outras boas invenções. Não interessa muito o suporte que vai dar asas para seus projetos e sim o impulso que cada um deles pode ganhar. Compositora, artista plástica, cantora e uma simpatia em sorriso aberto, Érika aparece hoje como um sopro de novidade na música brasileira.

Depois de produzir de forma totalmente independente um disco batizado “O Baratinho” e fazer shows que tinham como cenário seu próprio quarto, ela alcançou um público maior e chamou atenção da crítica especializada com o CD “No Cimento”.

Lançado pela Indie Records em 2005, o disco encantou o público e rendeu a Érika o prêmio de Artista Revelação pela Associação Paulista dos Críticos de Arte em 2006. A começar pela melindrosa “Secador, maçã e lente”, gravada também pela conterrânea (e prima) Marina Machado, quase todas as músicas levam a assinatura de Érika, que não enxerga seu trabalho como cantora desconectado da criação de letras. “Se eu não fizesse as letras, nem ia existir o trabalho”.

 
Música visual
 
Começa na palavra seu jeito de traduzir em som tudo de interessante que ela coleta por aí. Assim, entrega ao público uma música visual, que faz quem escuta construir imagens leves e soltas em uma palheta de cores que vai do cítrico aos tons mais delicados. Esse som povoado de imagem se explica pela trajetória de Érika, que começou a alinhavar seus primeiros projetos nas artes plásticas. “O ‘No Cimento’ tem muita imagem e traz questões dos dois universos. Meu trabalho de artes plásticas dizia muita coisa que o de música também diz e eu nem consigo separar tanto, são só suportes diferentes para a mesma idéia”, diz.

 
O desenho da música
 
Formada em desenho e fotografia pela Escola Guignard, de Belo Horizonte, Érika foi quem cuidou da produção gráfica do CD e deu cara para o site www.erikamachado.com.br. O trânsito entre a música e as artes plásticas ainda se reflete histórias que devem aparecer no segundo disco da cantora, previsto para ser lançado no segundo semestre de 2008. Tudo pode tomar outro rumo até o disco estar pronto, mas por hora, Érika conta que todas as letras que já escreveu flertam com a fotografia. Depois de aposentar a câmera analógica, ela comprou uma digital e daí para as imagens invadirem a música foi um clique.

Mais uma vez com a produção sob os cuidados do Pato Fu John Ulhoa, com quem ela estabeleceu fértil parceria no primeiro CD, o disco novo vai chegar com algumas novidades. Enquanto “No Cimento” foi gravado basicamente por ela e John, o próximo trabalho vai agregar os toques e talentos dos que vêm acompanhando a cantora: Daniel Saavedra (guitarra), Cecília Silveira (vocais e programações),  Thiago Braga (contrabaixos elétrico e acústico) e Daniel Monteiro (bateria).

 
Forma no palco
 
“Nao sei classificar se o meu primeiro disco é infantil, jovem, adulto ou para idosos. Ele tem uma linguagem simples, mas permite várias leituras. Isso que quero conservar pro próximo CD, um trabalho que mostra como eu observo o mundo e as coisas”, conta Érika, agora mais atenta em produzir um disco que possa ganhar uma forma interessante no palco. “Não tive essa preocupação no primeiro e foi um pouco difícil solucionar tudo para tocar ao vivo. Esse trabalho de estréia teve uma repercussão muito legal e ao mesmo tempo serviu para eu aprender a trabalhar”. Para quem não cogitava ser cantora e compunha por pura diversão, a música acabou virando protagonista: “Hoje é meu projeto de vida”.
 
 
Outras histórias
 
De Minas, o Pato Fu, de Pernambuco, Mombojó, de São Paulo, Fábio Góes e Céu e, lá do Norte, os acreanos dos Los Porongas.  Ao mesmo tempo que mantém as orelhas em pé para pescar Brasil afora o que está despontando na música de agora, Érika continua se dedicando a empreitadas em diferentes universos.  

No ano passado, lá estava ela fazendo a trilha para o desfile de Ronaldo Fraga na São Paulo Fashion Week. Também cantou a música que embala o programa “Dango e Balango”, infantil da Rede Minas estrelado por bonecos do Grupo Giramundo e, desde junho, integra a equipe de assistentes da artista plástica Adriana Varejão, que prepara um pavilhão para suas obras no Inhotim, Museu de Arte Contemporânea. Além de planejar um CD infantil para 2008, continua desenvolvendo projetos em artes plásticas que também traduzem sua esfera de desejos. O melhor de tudo isso é que ainda sobra tempo e graça para seguir cantando, e no tom exato: “Canto baixinho porque quando você conta um segredo, todo mundo quer ouvir. Quando você berra, às vezes ninguém presta atenção”.