Aleijadinho, o grande mestre da arte colonial
Por Márcio Jardim*
 
 
O Aleijadinho é um fenômeno excepcional na arte barroca e a compreensão do seu talento obriga o interessado a se propor três questões: quem foi o artista, o quê constitui sua arte e qual a dimensão de sua obra. Outras questões não são menos importantes: as dúvidas sobre a sua existência ou sobre o que é realmente de sua autoria ou de auxiliares e imitadores; em que ponto se encontra a pesquisa e o levantamento dos trabalhos?

Comecemos então pela primeira questão: a pessoa do artista.

 
Quem Foi
 
Aleijadinho – Antônio Francisco Lisboa – nasceu e morreu em Ouro Preto (1730-1814) e toda sua vida foi passada em Minas Gerais, limitada às vilas principais, talvez não excedendo um raio de duzentos quilômetros. A obra foi executada apenas em Minas Gerais e uma das características de sua grandiosidade reside exatamente nesse fato: feita para uma determinada região e um povo, elevou a Capitania a um patamar artístico comparável ao das melhores cidades barrocas do mundo.

Era filho de Manoel Francisco Lisboa – arquiteto e construtor nascido em Lisboa e responsável por grandes obras em Ouro Preto e outras cidades mineiras em mais de trinta e cinco anos de trabalho – e de Izabel, mulher negra, sua escrava, que lhe deu ao todo três filhos, tendo sido o Aleijadinho alforriado no batismo, em 1730.

Os historiadores mais recentes inclinam-se, no que se refere ao apelido Aleijadinho, para uma explicação dedutiva sobre a tão propalada doença de que teria sofrido. Conjugando alguns poucos documentos indiretos e as circunstâncias de sua vida, entendem que Antônio Francisco Lisboa foi acometido de uma doença precoce, como a poliomielite infantil, com paralisia das pernas (porque não andava, precisava ser carregado), e daí o apelido carinhoso, recebendo, em conseqüência, atenção especial do pai, tornando-se um filho dileto, afortunadamente talentoso. Já adulto, o recrudescimento das paralisias, provavelmente em razão de reumatismo deformante, tornaram-no taciturno e recluso.

Antônio Francisco Lisboa nunca foi casado, mas, na casa dos trinta anos, teve um filho com Narcisa Rodrigues da Conceição, mulher negra liberta, chamado, como o avô, de Manoel Francisco Lisboa. Este Manuel Francisco teve um filho, Francisco e Paula, neto do Aleijadinho, portanto, e todos moraram na mesma casa em Ouro Preto nos últimos anos da vida do artista.

Sobre os estudos do Aleijadinho não há documentos. Depreende-se que tenha aprendido as profissões de marceneiro e arquiteto com o pai, na oficina deste, onde gerações de artesãos estudaram. As habilidades como entalhador e escultor teria aprendido com outros brilhantes escultores que trabalhavam em Minas Gerais entre 1730 e 1760, como Francisco Xavier de Brito, José Coelho de Noronha e João Gomes Batista, este último mestre de fundição de cunhos da Casa da Moeda de Lisboa transferido para Vila Rica e que trouxera desenhos no chamado “gosto francês”, o rococó.

Passemos à segunda questão sobre o artista: o quê constitui a sua arte?


As Profissões do Aleijadinho
 
Aleijadinho teve quatro profissões, quatro habilidades técnicas: marceneiro, arquiteto, entalhador e escultor. Deduz-se que tenha começado  como marceneiro, passando a entalhador – auxiliando e aprendendo com José Coelho de Noronha nas Matrizes de Caeté e Santa Luzia, por exemplo - e finalmente a escultor, dedicando-se mais a esta última profissão, em razão do crescimento das encomendas.

Como marceneiro, Aleijadinho é detectável pela existência atual de 22 trabalhos, entre os quais se destacam grandes oratórios que se acham nos Museus da Inconfidência e do Pilar de Ouro Preto e o conjunto de cadeiras nobres e Trono Episcopal do Museu de Arte Sacra de Mariana, em magnífico rococó.

Como entalhador, Aleijadinho executou alguns dos altares considerados como dos melhores do Brasil e do mundo, destacando-se, sem dúvida, os das Igrejas de São Francisco de Assis de Ouro Preto e de Nossa Senhora do Pilar de Nova Lima, e, ainda, os altares colaterais da Igreja de São Francisco de Assis de São João del-Rei. Não se pode deixar de mencionar os grandes trabalhos de entalhamento em pedra-sabão nas portadas de várias igrejas, mas que são classificados como esculturas ornamentais. O total de obras de entalhamento em madeira é 29.

Como arquiteto, Antônio Francisco Lisboa – chamado assim, de arquiteto, em documento de 1771 – foi o responsável por 23 trabalhos, sendo de se destacar os projetos das Igrejas de São Francisco de Assis de Ouro Preto – considerado revolucionário e que Lúcio Costa chamou de “palpitação de coisa viva” -, São Francisco de Assis de São João del-Rei (projeto original, não-executado), São João Batista de Barão de Cocais e as torres da Igreja Matriz de Tiradentes.

Foi como escultor que o Aleijadinho mais trabalhou. Existem dele, atribuídas a ele até 2006 por diversos historiadores, 318 esculturas propriamente ditas e 25 trabalhos classificados como esculturas ornamentais. O fato é explicável em razão de os trabalhos em igrejas demandarem longo tempo, enquanto as esculturas de santos podiam ser feitas em poucos dias e serem mais solicitadas, pois as casas possuíam oratórios, com várias imagens devocionais.

A questão do número de obras atribuídas ao Aleijadinho leva à terceira questão proposta: qual a dimensão de sua obra? O que é realmente dele?

 
O Número de Obras do Aleijadinho
 
Historiadores e outros especialistas vêm divergindo há décadas sobre o tema. Algumas divergências chegam a extremos, inclusive com tentativas de negar a própria existência do artista. Essa tese está, porém, totalmente superada, seja porque aqueles que a propuseram não apresentaram provas de suas afirmações – seu objetivo indisfarçável era apenas tumultuar os órgãos de defesa do patrimônio histórico -, seja porque foram descobertas provas em sentido contrário, documentos em que o Aleijadinho é mencionado nominalmente e mesmo pelo apelido, inclusive. Há um documento em que nome e apelido estão juntos.

A questão da atribuição de autoria de obras do Aleijadinho tem levado a posições radicais. Há uma corrente restritiva – que admite apenas a existência de três ou quatro dezenas de esculturas, atribuindo as demais a auxiliares e outros profissionais – e uma corrente extensiva, que atribui ao artista mais de 400 obras, admitindo também a existência de outras centenas, por descobrir, definindo como do Aleijadinho toda obra que tenha saído de sua oficina e não puder ser atribuída a determinado auxiliar por sinais de estilo próprios.

Em torno das discussões sobre a autoria giram interesses que vão além do conhecimento científico. Colecionadores, antiquários e marchands manifestam posições, seja através de publicações ou promoção de exposições, seja por meio de ações judiciais, como foi o caso recente, em 2002, em que um colecionador, considerando-se prejudicado, conseguiu impedir durante meses, por liminar, a circulação de livro-catálogo de imagens do Aleijadinho.

Para uma compreensão razoável da questão da autoria é necessário que o leigo entre um pouco no campo da técnica de atribuição, sabendo o mínimo sobre como definir que uma obra é de determinado artista ou não. Especialistas em Aleijadinho fazem a conjugação de dois fatores para fundamentarem suas atribuições: indicam os sinais do estilo (estilemas) próprios do artista e as características gerais de cada fase profissional. Ou seja: a obra é do artista se tem sinais do seu estilo e pode ser enquadrada numa de suas fases profissionais, de acordo com as características gerais dessa fase.


Sinais do Estilo do Aleijadinho
 
A descrição dos sinais estilísticos do Aleijadinho vem desde as primeiras anotações sobre seus trabalhos, feitas pelo deputado e professor mineiro Rodrigo Bretas em 1858. Já a partir de 1937-1938, trabalhos de Lúcio Costa e outros técnicos da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional constituíram os primeiros inventários, culminando em 1951 com a publicação da primeira relação oficial de obras do mestre, a única com caráter oficial até hoje.

Voltando à questão do modo de se atribuir uma obra à autoria do Aleijadinho, é necessário, pois, saber quais são seus estilemas e quais foram suas fases profissionais.

Foram indicados até agora 27 sinais do chamado “estilo Aleijadinho”. O estilo é um modo constante de fazer, que transparece por sinais distribuídos por toda a obra. Os mais evidentes na obra do Aleijadinho são:
. panejamento anguloso, em grandes dobras, esvoaçante;
. dobra em forma de “U” no panejamento na altura do joelho, com duas ou três dobras em “V” logo abaixo;
. gola em forma de cone, drapeada e aberta na altura do pescoço e colo;
. cabelos cacheados e estriados em rolos sinuosos, terminando em volutas, como pontas de anzol;
. topetes bipartidos na testa, como vírgulas invertidas;
. nariz estreito, longo e afilado;
. olhos amendoados, achinesados;
. sobrancelhas finas e arqueadas em linha contínua com o nariz;
. boca entreaberta;
. bigodes nascendo das narinas;
. barba em rolos bipartidos no queixo;
. meio-sorriso enigmático, leonardesco;
. dedos médio e anular unidos;
. pés em ângulo reto;
. artelhos dos pés longos.
 
No que se refere às fases, os historiadores têm-se posicionado no sentido de admitirem três ou mais fases, chegando a cinco. Em termos gerais, os contornos dessas fases indicam um período de aprendizado, outro (ou mais de um) de maturidade e uma fase final, de perícia máxima, comumente chamada de fase de Congonhas.

São bem visíveis na progressão técnica do Aleijadinho na escultura um período de aprendizagem – no qual são evidentes defeitos de proporções anatômicas -, outro período, a seguir, de concentradas atitudes místicas, reveladas por meio de santos e santas com expressões severas, tipicamente barrocas, e um último período, mais longo, dos seus últimos trinta anos de vida, em que a perícia máxima e a altura excepcional de seu talento produziram esculturas brilhantes, faustosas, anatomicamente perfeitas nos mínimos detalhes, passando do luxo e requinte do rococó para um final majestático e solene, apreciável especialmente em Congonhas.

Os estudos mais sérios sobre a obra do Aleijadinho começaram em 1933 com o livro de Gastão Penalva, “O Aleijadinho de Vila Rica”, o primeiro a relacionar e descrever pormenorizadamente os trabalhos. São considerados abrangentes também os trabalhos publicados por Germain Bazin (“O Aleijadinho e a Escultura Barroca no Brasil”, 1958 e 1972), Sylvio de Vasconcellos (“Vida e obra de Antônio Francisco Lisboa”, 1979), Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira et alii (“O Aleijadinho e sua oficina: catálogo das esculturas devocionais”, 2002) e Márcio Jardim (“Aleijadinho: catálogo geral da obra”, 2006).

A publicação de relações mais extensas de obras do Aleijadinho nos últimos anos vem ocorrendo no momento em que se dá maior atenção às coleções particulares, antes inéditas, e, de outro lado, procura-se separar o que é de autoria dele daquilo que pode ser atribuído a outros escultores mineiros menos conhecidos e só muito recentemente descobertos e analisados; nessa última vertente, destaca-se o livro organizado por Beatriz Coelho, “Devoção e Arte; imaginária religiosa em Minas Gerais”, 2005.


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Márcio Jardim é graduado em História pela UFMG (1974) e em direito pela FADOM (1986). Publicou “A Inconfidência Mineira” (Rio, Bibliex, 1989) e “O Aleijadinho, uma síntese Histórica” (BH, Stellarum, 1995).