O gênio audaz do Barroco

Reportagem Maria Lutterbach
Fotos Henry Yu

A aura de mistério que sempre envolveu a figura de Aleijadinho só ajudou a reforçar o fascínio em torno de sua obra, considerada o mais importante exemplo do barroco fora da Europa. Se várias incertezas pairam sobre a vida desse grande mestre, como a data de seu nascimento, ou quais peças levam realmente sua marca, não existem dúvidas de que Antônio Francisco Lisboa foi o maior expoente da arte feita no Brasil no século XVIII.
 

Distribuído em cidades históricas como Ouro Preto e Congonhas, além de enriquecer acervos de museus e coleções particulares, o legado de Aleijadinho foi construído, em sua maior parte, numa Vila Rica que palpitava durante o ciclo do ouro. Fundada em 1711, a cidade viveu o seu nascimento, apogeu, crise e declínio em oito décadas que coincidem com a vida de Antônio Francisco Lisboa. Foi ele um dos principais artistas que se dedicaram à transformação visual da vila subitamente convertida na princesa dos olhos da metrópole além-mar. Era preciso levantar igrejas, pontes, chafarizes e outras obras que desenharam um cenário condizente com a quantidade colossal de ouro ali encontrada pelos bandeirantes. Assim, por muito tempo, não faltou trabalho para artistas e arquitetos.

“Vila Rica era uma das mais ricas cidades da América Latina, tanto que o ouro de Minas financiou a corte portuguesa durante aquele período. Toda essa riqueza econômica atraiu para a capitania alguns artistas da maior categoria, entre eles Francisco Xavier de Brito, José Coelho Noronha e João Gomes Batista, que trouxeram as novidades européias da época”, afirma Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, especialista no período barroco-rococó no Brasil e autora dos livros “Aleijadinho: passos e profetas”, “Passos da Paixão” e “O Santuário de Congonhas e arte do Aleijadinho”.

 
Tratados de arquitetura e escultura
 
Apesar de nunca ter saído do Brasil e ter feito uma única viagem à capital — o Rio de Janeiro — para responder a um processo de paternidade, Aleijadinho tinha conhecimentos atualizados dos estilos europeus em voga no período. Isso só pode ser explicado, segundo Myriam, pelo contato com os artistas estrangeiros que chegaram à cidade mineira e pelo acesso a tratados teóricos de arquitetura e escultura ornamentais, que circulavam entre os artífices.

O pai e o tio de Aleijadinho foram alguns dos profissionais que chegaram a Minas atraídos pela riqueza e pela abundância de trabalho ofertado. Como ele próprio não viajou, teve que contar com os ensinamentos de artistas de fora e com a obra impressa trazida da Europa.
 

Primeira fase de produção (1760 a 1774)
 
Entre esculturas devocionais, projetos arquitetônicos, ornamentações escultóricas em pedra-sabão e conjuntos de talha, a obra de Aleijadinho pode ser dividida em três períodos de produção. Apesar de começar com alguns exemplares ainda tímidos e um pouco estáticos, aparecem, já na sua primeira fase (1760 a 1774), as imagens com olhar de peculiar expressão de vida que depois torna-se marca do seu trabalho. A primeira obra atribuída ao artífice é um busto de mulher com seios desnudos em pedra-sabão, de 1761, rara imagem profana deixada por Aleijadinho. Atualmente no acervo do Museu da Igreja do Pilar de Ouro Preto, a imagem de Nossa Senhora das Mercês é outro destaque desta primeira fase do artista.
 
 
Segunda fase (1775 a 1790)
 
Com 37 anos, Antônio Francisco Lisboa atinge a maturidade que caracteriza sua segunda fase de produção (1775 a 1790), com figuras mais realistas, como a Santana Mestra abrigada hoje pelo Museu do Ouro (IPHAN), em Sabará. No auge da carreira, Aleijadinho recebia infindáveis encomendas, atestadas pelos sucessivos contratos com as Ordens Terceiras do Carmo e São Francisco de Assis de Sabará e Ouro Preto. O nascimento do filho em 1775, a viagem ao Rio de Janeiro em 1776 e os primeiros sintomas da doença podem ser tomados como marcos de uma nova etapa de sua evolução artística, marcada pela audácia inventiva. Desta fase, algumas obras de grande qualidade são as portadas das igrejas franciscanas de São João Del Rei e Ouro Preto, além da decoração da nave do Carmo de Sabará.

 
Terceira fase (a partir de 1790)
 
Tomado pela doença a partir de 1790, Aleijadinho se concentra totalmente no trabalho e realiza algumas de suas obras mais surpreendentes, como o retábulo de São Francisco de Assis de Ouro Preto e as imagens dos Passos executados em Congonhas, composto por 64 esculturas. “Nesta última fase, suas imagens vão ficando cada vez mais dramáticas e expressivas”, afirma Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira. Como as obras atribuídas à sua oficina tiveram supervisão direta de Aleijadinho, que devido à doença, precisava contar com a ajuda física dos assistentes, a autenticidade das peças, especialmente da segunda e terceira fase, não exclui a idéia de colaboração dos seus auxiliares.

 
Personagem misterioso
 
Além da obra de Aleijadinho sempre ter sido um dos maiores atrativos turísticos de Ouro Preto, o valor de seu trabalho e os mistérios em torno desse personagem atraem também grande atenção internacional. Divulgado fora do país por meio de pesquisas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e da publicação de “Aleijadinho e a Escultura Barroca no Brasil”, que Germain Bazin lançou em Paris na década de 60, o artista foi foco de estudo de outros importantes historiadores, como John Bury e Robert Smith.

O precioso conjunto de trabalhos de Aleijadinho como arquiteto, toreuta, escultor em pedra e madeira e entalhador ainda hoje surpreende pela coerência e pelo sentido dramático impresso nas obras, carregadas de profunda expressão psicológica. Numa época em que os artistas trabalhavam para consolidar a glória da Igreja, e não em busca de méritos pessoais, era comum talentos permanecerem anônimos e não assinarem seus trabalhos. Sendo assim, sempre foi desafio para os pesquisadores identificar as peças legítimas de Aleijadinho, que assinou pouquíssimas obras e, ao mesmo tempo, deixou uma ampla área de influência através de seus discípulos.

 
“Aleijadinho e Sua Oficina”

A maior dificuldade ainda hoje enfrentada por estudiosos é a de distinguir os exemplares feitos exclusivamente pelo artífice, que também produziu muito contando com a ajuda de auxiliares, além de ter supervisionado de perto os que trabalhavam em sua oficina — todos, inevitavelmente, sob influência de sua técnica. Com base em estudos realizados nas últimas três décadas e na tentativa de atualizar os catálogos sobre sua obra, um grupo de pesquisadores viu a necessidade de criar uma espécie de cânone mínimo do legado do artista que aparece ilustrado no livro “Aleijadinho e Sua Oficina”.

Por meio da comparação estilística com obras de autoria indubitável, os estudiosos, entre eles Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, agregaram ao levantamento apenas as peças que sem dúvida foram criadas pelo artista. Publicado em 2002, o livro causou polêmica, principalmente entre colecionadores, por apontar um número pequeno de obras comprovadamente feitas pelo mineiro.

Parece não existir mesmo consenso nem sobre a vida nem sobre o trabalho do artista. Indicativo disso foi a mostra “Aleijadinho e Seu Tempo: Fé, Engenho e Arte”, organizada neste ano pelo Centro Cultural do Banco do Brasil, que exibiu entre as 208 peças reunidas, uma escultura em madeira descartada da seleção apontada pelo livro. Com curadoria de Fábio Magalhães, a exposição ocupou as sedes da instituição no Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo.

 
De herói romântico a mito da nacionalidade
 
A começar pela divergência que recai sobre sua data de nascimento, Aleijadinho se transformou em lenda de si próprio. A primeira biografia, levantada por Rodrigo José Ferreira Bretas menos de 50 anos após sua morte, aponta o ano de 1738 como o de nascimento do artista, em Ouro Preto, mas, na certidão de batismo do mestre, está registrado o ano de 1730.

Filho da escrava Antonia Maria de São Pedro e do arquiteto Manoel Francisco de Lisboa, Aleijadinho morreu também em Ouro Preto, em 18 de novembro de 1814. Artista brasileiro mais estudado da época colonial, sua imagem foi analisada sob diferentes óticas em diferentes momentos, como no Romantismo, quando foi visto como herói romântico, dada sua origem como filho ilegítimo de escrava, sua doença e a dificuldade financeira. Já no Modernismo, o escultor é lembrado pelos aspectos absolutamente originais com os quais contribuiu para a construção do Barroco brasileiro, tendo sido alçado à condição de mito da nacionalidade.


Herói cultural
 
Para a escritora e pesquisadora Guiomar de Grammont, por meio da figura de Aleijadinho, é possível traçar a história da construção sobre a arte nacional. Em sua dissertação de mestrado, a docente da UFOP faz uma leitura crítica de discursos que, desde o século XIX, produziram Antônio Francisco Lisboa como um herói cultural antecipador da suposta “identidade cultural brasileira”.

“Quando a arte dele era contada pelo Instituto Geográfico Brasileiro, os interesses eram de relacioná-la com a arte portuguesa, criar uma origem na metrópole e, nesse contexto, era enfatizado o fato que o artista era branco, de pai português. Durante o governo Vargas, Aleijadinho é tomado como um dos símbolos nacionais que funcionavam para criar exemplaridade e provocar uma espécie de integração nacional, em torno de uma política populista”, analisa.
 
 
Imagem do artista enfermo
 
Entre as causas mais prováveis para as lesões que sofreu no corpo e que lhe valeram a alcunha, estão a poliomielite, sífilis, escorbuto, artrite reumatóide e a hanseníase. Apesar de ter se empenhado em diversos trabalhos antes da doença se firmar, a imagem mais difundida é a do artista enfermo que precisava atar os instrumentos aos cotos dos braços e era carregado por escravos, envolto em uma capa negra que escondia suas chagas.

“Se com o advento da República o imaginário brasileiro foi obrigado a ressuscitar o espectro de Tiradentes (...), do Aleijadinho precisaria acordar também. Os países do Ocidente moderno fundam seu orgulho nacional nas figuras do herói, do gênio e do santo. Se o herói era claramente o alferes enforcado, se o gênio era sem dúvida o escultor sem dedos, podemos dizer que a santidade que não encontrou personificação pôde ser dividida entre ambos, pois ambos compartilharam a realidade do martírio, elemento quase suficiente de santidade, ao menos na concepção popular”, escreve o poeta e ex-diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro Alexei Bueno na introdução de “O Aleijadinho e Sua Oficina”.
 


Anjo do Horto


Medalhão do frontispício da Igreja do Carmo de Ouro Preto

São Manuel


Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto

Anjo Tocheiro



Ezequiel



Aleijadinho, o grande mestre da arte colonial:

"A obra de Alejadinho foi executada apenas em Minas Gerais e uma das características de sua grandiosidade reside exatamente nese fato: feita para uma determinada região e um povo, elevou a Capitania a um patamar artístico comparável ao das melhores cidades barrocas do mundo."

"Foi como escultor que o Aleijadinho mais trabalhou. Existem dele, atribuídas a ele até 2006 por diversos historiadores, 318 esculturas propriamente ditas e 25 trabalhos classificados como esculturas ornamentais."

"Foram indicados até agora 27 sinais do chamado "estilo Aleijadinho". O estilo é um modo constante de fazer, que transparece por sinais distribuídos por toda a obra."



Roteiro básico:
Um roteiro obrigatório mínimo que o interessado em conhecer a obra de Aleijadinho deve seguir.



Judas