Recuperar o solo é proteger a vida

Por Cézar Félix
Fotos Fernando Grilo


O engenheiro especializado em bioengenharia Luiz Lucena — o único profissional brasileiro agraciado com um certificado internacional no controle de erosão e sedimentos — fala sobre as tecnologias de que usam a vegetação como proteção e conservação de solo. Para se ter uma idéia, a perda de solo estimada no Brasil é da ordem de 1 bilhão de toneladas/ano.
 


O senhor é um profissional, engenheiro civil de formação, especializado em bioengenharia?
 
Sim. Eu comecei a trabalhar na área de bioengenharia há 10 anos na empresa Deflor Bioengenharia, sediada em Belo Horizonte,  onde trabalho até hoje como Gerente  de Negócios Internacionais. Sou o primeiro engenheiro no Brasil certificado internacionalmente no controle de erosão e sedimentos. Aliás, essa certificação — que poderia considerar uma honraria — é até motivo de tristeza para mim. Com tantos  profissionais competentes e instituições da mais alta credibilidade nesta área de solos no Brasil, esta situação mostra claramente que há um certo descaso no que se refere a uma maior  interação com o corpo técnico internacional. O fato é que não estamos interagindo com que há de mais adiantado nesta tecnologia de proteção de solos. No Brasil, poucos conhecem essas tecnologias que utilizam a vegetação como proteção e reforço de obras civis. As tecnologias que utilizam a vegetação barateiam imensamente qualquer projeto, tornando viáveis economicamente projetos que de outra forma —  principalmente se fossem utilizadas técnicas tradicionais da engenharia — não teriam condições de serem executados para a proteção ambiental.
 

De onde surgiu e como se deu o desenvolvimento e a evolução desta tecnologia?
 
A evolução do desenvolvimento tecnológico que usa basicamente  a vegetação como proteção e reforço de obras civis  se deu em grande parte nos EUA por uma conjugação de fatores. O dia mundial da conservação de solo, 15 de abril, é a data de nascimento de um americano chamado  Hugh Hammond Bennett (1881). Ele foi um cientista brilhante, estudioso  da conservação do solo, e também um grande politico. Foi uma liderança da base ruralista que elegeu o presidente Franklin Delano Roosevelt. É considerado o pai da ciência da Conservação do Solo justamente por estimular a comunidade científica a trabalhar na investigação do tema. É bom que se saiba, no entanto, que Bennett foi o pioneiro nos EUA, mas o verdadeiro precursor do conservacionismo do solo e da água foi um alemão chamado Wolney, responsável  pela elaboração de estudos sobre o tema no distante ano de 1874. O trabalho do Wolney, inclusive, somente foi reconhecido por um americano em 1938.

Quanto a Bennett, ele usou as suas habilidades políticas para promover a consciência pública em torno da necessidade de se evitar drasticamente a perda dos solos. Ele foi muito bem sucedido, pois em 1932 os EUA já tinham o primeiro serviço público de erosão de solos e, em 1935, a primeira lei de conservação de solos, o que não temos até hoje no Brasil. Em se tratando de uma política de conservação de solos, estamos atrasados pelo menos em 70 anos. Mesmo na nossa Agenda 21, a questão do solo, no meu entender, é tratada timidamente e com um aspecto muito voltado para agricultura, para a agronomia. Não expõe o solo de forma estrutural como elemento fundamental para a conservação do meio ambiente.  Se não houver conservação do solo não há como conservar a água e, sem conservar solo e água, não há o que falar em se tratando da conservação das espécies, inclusive a nossa.
 


Já existe um mercado mundial significativo que usa a vegetação como proteção do solo? Qual é a dinâmica deste mercado?
 
Os EUA foram os pioneiros, com as pesquisas se desenvolvendo rapidamente.  Ocorreu um fator comercial muito interessante quando o principal produto utilizado na conservação do solo, as biomantas antierosivas, foram desenvolvidas nos anos 30 e 40 lá nos Estados Unidos. Elas ganharam uma repercussão muito grande quando foram utilizadas na construção de campos de golfe. O ‘boom’ dos campos de golfe permitiu uma alta comercialização do produto e o aporte de dinheiro permitiu a continuidade de pesquisas para o controle da erosão. Hoje, esta indústria lá fora é gigantesca. Existe inclusive uma Conferência Internacional realizada anualmente. A próxima,  39ª edição, acontece em Orlando, na Flórida. O evento  é organizado pela Associação Internacional de Controle de Erosão e Sedimentos, da qual eu sou o diretor internacional para o Brasil.  Nesta conferência, com participação superior a 2 000 pessoas,

normalmente comparecem em torno de 300 expositores do setor. Quem produz estaca viva, quem desenvolve sementes, quem produz biomantas, biorretentores e materiais de fixação, quem produz fertilizantes e outros insumos químicos  e orgânicos, além de fabricantes de equipamentos de toda espécie.  Nos EUA, só o mercado de biomantas antierosivas, é de 180 milhões  de metros quadrados ao ano. Para termos de comparação, a Deflor Bioengenharia, única produtora da América Latina, produziu  cerca de cinco de milhões de metros quadrados em 2006. Potencialmente, por incrível que pareça, temos um mercado extremamente promissor. As nossas condições de relevo e o clima tropical favorecem tremendamente o uso deste tipo de tecnologia com rápido desenvolvimento da vegetação. Afirmo com tranqüilidade que nós temos melhores condições de usar essa tecnologia do eles lá fora.
 
 

O senhor pode detalhar como funciona as biomantas antierosivas?
 
As biomantas antierosivas são como se fossem umas esteiras de fibras vegetais que têm a função de proteger a semente, proteger o solo e ancorar o material orgânico nos barrancos, nos taludes (como na construção de estradas), e não deixar nada deslizar em direção a cursos d’água ou nascentes, por exemplo. As biomantas incorporam material orgânico no solo justamente porque são fibras vegetais. Assim, reduzem a velocidade do escoamento superficial, protegem imediatamente o solo do impacto da gota de chuva, retém a umidade do solo, diminui a evaporação e cria um micro clima que favorece o desenvolvimento da planta, evitando a erosão. A biomanta executa outra função importantíssima: inibe a incidência de plantas não desejadas. A sua importância para a engenharia é o fato de criar as condições de proteção do solo enquanto a vegetação não se desenvolve, permitindo o planejamento e uso em projetos estruturais.

Depois do desenvolvimento da vegetação não há mais com que se preocupar porque o solo está definitivamente protegido.  
 
 

Em que nível está a degradação do solo no Brasil?
 
A degradação no Brasil é muito grande! Consta da Agenda 21, dados do Ministério do Meio Ambiente, que a perda de solo estimada em território nacional é da ordem de um bilhão de toneladas por ano. Este número me parece subestimado. Para se ter uma idéia, nos EUA nos anos 70 foi calculada uma perda de solo da ordem de 4 bilhões de toneladas ao ano. No final dos anos 90, depois que eles entraram com um programa muito rigoroso de proteção de solo — aliás, tendo como base a proteção das águas eles exigiam a proteção do solo para proteger as águas —,  isso caiu para 1, 8 bilhão de toneladas/ano nos anos 90.

Portanto, a perda de solo no Brasil de 1 bilhão de toneladas/ano, quase a metade, me parece subestimada porque vivemos em condições tropicais, temos um relevo mais acentuado, mais chuvas e mais condições de ter perda de solo, problemas com erosão e carreamento de partículas de solo. Por outro lado, ainda podemos fazer muito pelo nosso meio ambiente, pois temos uma área muito grande ainda preservada e dispomos de tecnologias a custos razoáveis para proteger e recuperar grandes áreas. Com um pouco de ajuda, a natureza sempre nos surpreende positivamente. Ainda temos tempo para reagir, para fazer alguma coisa.

De qualquer maneira, perder 1 bilhão de toneladas/ano de solo é um absurdo completo. O que vai embora primeiro é a fração orgânica, é a camada fértil  superior, o solo bom para a agricultura. Existe então uma carga imensa, gigantesca, para ser protegida.
 


Como um estado minerador, qual é a situação do solo de Minas Gerais?
 
Fazer comparação é sempre muito difícil, mas Minas Gerais ainda é o maior estado minerador do país, e a mineração é extremamente degradadora. No entanto, hoje, felizmente, temos empresas que estão demonstrando preocupação com a recuperação. Estamos sendo muito solicitados por mineradoras para fazer recuperação na fase final da exploração. Já é um passo importante, mas o ideal é que esta proteção ocorresse em todas as etapas do processo de uso do solo. Antes de começar a minerar, você faz as proteções para evitar uma degradação maior; durante a fase de exploração, deve-se fazer proteções temporárias para evitar a perda de solo. Na verdade, em todas as atividades, seja mineração, agricultura, construção de rodovias e demais grandes obras de infra-estrutura, a atividade de recuperação e proteção ambiental invariavelmente ocorre no final do projeto, quando ocorre. Sempre é possível recuperar. Mas há um conceito: a recuperação plena não existe, ela é utópica. Atualmente na legislação existe um rito que precisa ser obedecido por qualquer empreendimento. Elabora-se um estudo e um relatório de impacto ambiental, os conhecidos EIA e RIMA. São ferramentas excelentes para todo e qualquer projeto. Existem muitas empresas que fazem muito bem feito esse trabalho. O próprio relatório já mostra qual é caminho. É mera questão de decidir o uso futuro das áreas. Para qualquer utilização futura precisamos reforçar e estruturar o solo, aumentar o volume de massa orgânica no solo, ou seja, promover a formação acelerada de solo orgânico, e depois entram as técnicas de reflorestamento ou de preparo do solo para outras utilizações, como por exemplo, a agricultura. Para áreas de preservação ambiental podem ser utilizadas todas as espécies nativas, endêmicas de determinada região, e com um bom trabalho de recuperação da vegetação acabamos por atrair a fauna de volta. Resguardadas as proporções entre uma espécie e outra, cria-se um ambiente muito similar ao que existia anteriormente.
 

 
A erosão é um dos entraves enfrentados pela agricultura. Como a bioengenharia pode atuar nesta área?
 
A erosão atua no melhor do solo, na camada superior, o que onera ou até  invibializa projetos de agricultura. Um outro fator interessante é que as grandes propriedades agrícolas hoje necessitam de um alto grau de mecanização, pois produz-se mais numa área menor. Geralmente, nós somos chamados para resolver um problema de erosão simplesmente porque o proprietário tem uma erosão divindo a terra dele ao meio e ele não tem como passar com uma máquina. Então, ele quer tratar a erosão pra fazer com que a terra dele possa ser mecanizada e com isso valorizar  a propriedade. Portanto, os processos de recuperação tornam-se baratos em função da valorização da terra livre de áreas erodidas. Estou falando da mecanização por que é mais óbvio em termos de ganho econômico. Mas o cidadão que tem uma erosão em sua propriedade certamente está perdendo capacidade de utilização da terra. A questão é a gente descobrir as tecnologias adequadas que permitam a recuperação das áreas degradadas e que compensem o valor da terra. A engenharia tradicional não tem as respostas, mas a bioengenharia tem.
 


Esta tecnologia também pode ser utilizada no caso de recuperação de áreas degradadas de reservas ambientais?
 
Esta tecnologia vale para proteção do solo em qualquer situação. A única questão que a gente levanta em se tratando de atuar  em áreas que eu chamaria de ecologicamente sensíveis como parques nacionais ou reserves ambientais, é o extremo cuidado que temos que tomar com o tipo de vegetação que vamos introduzir ou com o tipo de ação que será determinada para atuar nestas áreas de forma a não prejudicar os ecossistemas reinantes. De qualquer maneira,  as tecnologias são de baixo impacto, os materiais são muito leves. Nós não precisamos abrir caminho de acesso para poder tratar uma área que esteja degradada no meio de uma floresta, não é preciso abrir uma estrada; quando a área é muito inclinada, de difícil acesso, fazemos a proteção usando técnicas de rapel. Não é preciso degradar mais o meio-ambiente para fazer a recuperação, diferente das soluções da engenharia tradicional. Raramente é preciso revolver o solo; as condições de relevo ainda que degradadas, aquela paisagem erodida, vai ser muito pouco modificada naquilo que a natureza esculpiu. Nós vamos procurar recuperar sem alterar aquelas características. Como não há nenhuma alteração tudo fica extremamente suavizado depois de colocada a vegetação. Se nós não mexemos muito, não é necessário transportar solo, nem para uma área de “bota-fora”, nem para trazer o solo de uma área de empréstimo para se fazer aquele aterro compactado que normalmente são as alternativas técnicas utilizadas pela engenharia tradicional. Com a bioengenharia, nós fazemos apenas pequenos arredondamentos para retirar as tensões do solo. Vamos aplicar mantas antierosivas e simplesmente desenvolver a vegetação a partir dali. Depois a própria natureza cuida.