Cerveja gelada, tira-gosto, a saideira e a conta

Reportagem Maria Lutterbach
Fotos Eugênio Sávio
 
Afinado à mania de bar do mineiro, o festival Comida di Buteco — que já realizou oito edições — revela sabores e histórias da culinária guardada atrás dos balcões dos botecos de Belo Horizonte.
 

Para os mineiros, sentar no botequim preferido, mandar descer uma gelada e pedir um tira-gosto para beliscar é quase ritual. Em Belo Horizonte e por todo o Estado, existe um bar em cada esquina e, a cada boteco, histórias de vida são arrematadas com boas doses de cerveja e cachaça acompanhadas por petiscos de identidade bem peculiar. São delícias despretensiosas servidas no balcão durante uma partida de futebol na TV, ou nas mesas, temperando a boa prosa com os amigos. A mania de botecar é tamanha entre as montanhas que o festival mais popular da capital mineira consiste numa verdadeira maratona que movimenta bares nos quatro cantos da cidade. Há oito anos em cartaz, o Comida di Buteco colocou a chamada “baixa gastronomia” no centro das atenções, revelando sabores e misturas que conquistaram o paladar de gente de todo o país.
 

“Muita História Pra Contar”

Criado para traduzir o talento mineiro de inventar boas receitas com ingredientes típicos, o festival tem apresentado, desde sua quarta edição, um tema que evidencia traços da cultura local. A última festança, realizada em Belo Horizonte entre os dias 9 de abril e 9 de maio de 2007, reuniu o maior número de bares participantes de sua trajetória em torno do tema “Muita História Pra Contar”. “Usamos o evento para reforçar nossa história e nossa cultura, por isso tentamos criar temas que valorizem aspectos da mineiridade. Dessa vez, nossas lendas urbanas, como o Capeta do Vilarinho e a Loura do Bonfim, entraram em destaque”, conta a publicitária Maria Eulália Araújo, realizadora do Comida di Buteco ao lado do gastrônomo Eduardo Maya, com quem criou a CdB produções.

Tendo como pano de fundo os “causos” que tradicionalmente animam as conversas nos botequins, o evento trouxe 41 estabelecimentos para disputar a preferência do público. Foram 12 bares estreando no Comida di Buteco, quatro que retornaram ao festival e outros 25 classificados na edição do ano passado. Cada vez mais afinados, os botecos novamente formaram um mosaico irresistível de cores e aromas. “Criou-se na cidade um roteiro de gastronomia urbana e de culinária de raiz que valoriza muito nossa cozinha. O Comida di Buteco não trata propriamente da comida mineira, mas desse nosso jeito mineiro de interpretar a culinária”, define Maria Eulália.  

 
Intercâmbio gastronômico
 
Ao mapear petiscos de bares espalhados por todas as regiões de Belo Horizonte, da zona Sul à periferia, o evento vem estimulando o público a freqüentar botecos de diferentes vizinhanças. O saldo dessa andança é um rico intercâmbio gastronômico e cultural entre os bairros da cidade, que a cada ano ganha mais força.

Ao longo dos anos, o formato do festival foi sendo aprimorado e, atualmente, os bares concorrentes são avaliados em quatro itens: tira-gosto, atendimento, higiene e temperatura da cerveja. Além dos clientes — que escolhem seus prediletos por meio de cédulas de votação distribuídas nos bares —especialistas e formadores de opinião convidados pelo festival formam um corpo de jurados que atua à paisana, percorrendo todos os estabelecimentos e ajudando a eleger os melhores em cada categoria. Todo o processo de votação é realizado pelo instituto Vox Populi. Neste ano, foram 131 mil votos.
 

Bom e velho tira-gosto
 
Mais do que divulgar os bares participantes e estimular a criação de novas iguarias, o Comida di Buteco foi responsável pelo resgate o bom e velho tira-gosto e também pela reinvenção dessas tradicionais iguarias. A vontade dos donos de bares de oferecer novidades para conquistar os clientes é tanta que a produção do evento, neste ano, definiu uma regra para os botecos concorrentes: o desafio foi criar receitas para serem degustadas como autênticos petiscos de boteco: com palitos ou garfos, sem a necessidade de pratos. “As receitas vinham sendo tão criativas que a gente precisou regrar porque os donos dos bares estavam começando a fazer pratos de alta gastronomia”, diverte-se Maria Eulália. Segundo ela, já virou tradição os botequeiros passarem o ano todo experimentando receitas na cozinha para, na época do evento, apresentarem deliciosas (e inéditas) criações.
 

Inventividade e fama
 
A inventividade aparece já nos nomes dos tira-gostos. Em 2005, surpreendeu o prato do Bar Temático, tradicional no bairro Santa Tereza, que fazia alusão ao casamento relâmpago do jogador Ronaldo: batizado “Fenômeno nu Barraco de Chantilly”, o petisco trazia joelho de porco com língua empanada acompanhados de geléia de jiló. “Os donos dos bares têm essa preocupação de dar nomes chamativos para o tira-gosto, o que serve até para quebrar a resistência das pessoas em relação a alguns tipos de carne, como dobradinha e língua”, explica Maria Eulália. Na recente edição, entrou no hall de nomes curiosos o petisco oferecido pelo Amarelim do Prado, “A Moela Atrás da Moita do Escargot Fugitivo”, receita de moela e nacos de poule na manteiga, café de paris com cachaça e mandioca cozida servidos com folhas temperadas.

Ao mesmo tempo que as carnes menos nobres, sempre presentes nas cozinhas dos bares, vêm ganhando novos adeptos, os botecos alcançam fama cada vez melhor, aponta Orcínnio Gonçalves Ferreira, o Careca. Vencedor do primeiro Comida di Buteco, em 2000, ele nunca deixou de participar. “Se antigamente ainda existia algum preconceito em relação aos botecos, hoje eles se tornaram locais de socialização também para as famílias”, afirma ele, que durante a maratona costuma aumentar de 30 para 60 o número de mesas de seu Bar do Careca, na Cachoeirinha. Por causa do festival, o estabelecimento se tornou conhecido em toda a cidade e precisou ampliar sua cozinha e melhorar o atendimento, segundo o proprietário.
 

Prato cheio para curiosos

As histórias escondidas em cada bar também fazem do Comida di Buteco um prato cheio para os curiosos. Enquanto experimenta as carnes do Via Cristina, no Santo Antônio, o cliente que puxar conversar pode descobrir a trajetória do bar de Miguel Murta, que no início funcionou como self-service e hoje é uma cachaçaria com 410 variedades da bebida. Já no Casa Cheia, boteco que fica dentro do Mercado Central e é um dos mais disputados do festival, o segredo do tempero está no trabalho incansável de três gerações de um mesmo clã que tem à frente Dona Maria, hoje com 86 anos.

O encantamento por essa culinária de raiz, que nasce nas famílias e faz fãs nos bares, foi o que motivou o gastrônomo Eduardo Maya a criar o festival. Na época, ele levava ao ar o programa “Momento Gourmet” pela extinta Rádio Geraes, onde Maria Eulália era diretora executiva. Numa mesa de bar, os dois tiveram a idéia de lançar um concurso de gastronomia que valorizasse essa cozinha do pé de porco, da dobradinha e do torresmo, tão apreciada pelos freqüentadores assíduos dos botecos. “Se antes tínhamos cerca de 60 petiscos servidos nos bares da cidade, hoje esse número chega a quase 300, com as carnes molhadas sempre em destaque”, lembra Maria Eulália.
 

Potencial turístico
 
Depois de cativar em definitivo o público mineiro — que mesmo fora da temporada do Comida di Buteco procura nos cardápios de Belo Horizonte os pratos do festival — o evento ganhou adeptos que vêm de outros Estados brasileiros para saborear a culinária botequeira. “Ao reforçar o nosso valor cultural, também queremos fazer com que o turista tenha interesse ainda maior pela cidade e pelo Estado”, diz Maria Eulália Araújo. O cenário onde os belo-horizontinos se sentem tão à-vontade também tem as portas abertas para moradores de outras cercanias. Já se tornou comum a cidade receber, durante o evento, visitantes especialmente de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Atenta ao potencial turístico do Comida di Buteco, a CdB Produções vem investindo na estrutura do festival e, como resultado, já conseguiu ter o evento inserido no “Guia 4 Rodas”, que indica os melhores serviços e atrações do país e é referência para os turistas brasileiros. “O Comida já integra o calendário da Secretaria de Turismo de Belo Horizonte e nós também nos associamos ao BH Convention & Visitors Bureau na tentativa de ter uma ação mais orientada pro turismo”, acrescenta a empresária. A organização do evento vem se reunindo, ainda, com a Secretaria de Planejamento e a Belotur, na tentaiva de reforçar o projeto como um produto turístico da cidade. Hoje, o Comida começa a fazer parte dos pacotes de viagens oferecidos nas agências.

Em formato mais enxuto que reúne 15 bares, o festival é realizado também em outras cidades mineiras, no chamado Circuito Minas. Neste ano, o evento já passou por Poços de Caldas, em março, e segue agora para Uberaba (de 13 de junho a 27 de junho), Ipatinga (22 de agosto a 5 de setembro) e Montes claros (12 a 26 de setembro). Já no ano que vem, estréia o Circuito Estrada Real, que inclui na maratona gastronômica as cidades de São João Del-Rei, Diamantina Juiz de Fora e Ouro Preto.   
 

Música e arte

Claro que a culinária é a grande vedete do festival, mas as atrações artísticas do Comida di Buteco dão um tempero a mais a essa festa. Dentro do Circuito de Arte e Cultura, que faz parte do cardápio do evento desde a segunda edição, os bares recebem atrações musicais que, neste ano, também chegaram a praças públicas nos finais de semana. Homenageando o compositor mineiro Ary Barroso, o Circutio de Arte e Cultura 2007 colocou em foco o samba de raiz e o choro, levando instrumentistas e grupos teatrais para dentro dos botecos.

Outro braço cultural, este nascido no ano passado, é o Arte no Banheiro, projeto que convida e seleciona artistas para criarem instalações nos banheiros dos bares participantes. Além de encher os olhos da clientela, as obras são avaliadas por um corpo de jurados especializado que seleciona cinco criações. Os artistas vencedores ganham uma exposição coletiva na Celma Albuquerque Galeria de Arte.

E é na festa A Saideira que o público fica sabendo quem foram os destaques do Comida di Buteco – dos artistas aos petiscos! Realizado no Espaço Funarte Casa do Conde, o encerramento da maratona, que neste ano aconteceu entre os dias 17 e 20 de maio, reúne todos os bares - última chance para quem não conseguiu provar as delícias oferecidas durante o evento. Animada pelas barraquinhas e shows, A Saideira é um momento de grande emoção para aqueles que durante 31 dias batalharam para satisfazer os clientes. Neste ano, os cinco melhores bares foram: Bar do Veio, Bar do João, Agosto Butiquim, Bar do Zezé, Köbes, Família Paulista e Bar da Cida.  Depois desse verdadeiro festim astronômico, agora é hora dos vencedores abrirem a derradeira cerveja para celebrar o feito e puxar inspiração porque no ano que vem, tem mais.



Bar Casa Cheia no Mercado Central de Belo Horizonte.


O tira-gosto campeão, Bar do Véio: Come Quieto (cabeça de lombro com creme de legumes, molho de abacaxi com hortelã e batatas).

Mesas na calçada, uma tradição dos frequentadores de boteco.


Mistura de boteco e mercearia típica de bairro, a receita da Mercearia do Lili no bairro Santo Antônio.

A combinação mais que perfeita: cerveja gelada e tira-gosto.


O ambiente do Bar Via Cristina e as suas 410 variedades de cachaças de todas as regiões de Minas Gerais.