A arte encontra a vida

Por Euclides Guimarães


Desde a segunda década do séc XX o mundo da arte se depara com uma questão: o que acontece com os lugares da arte quando a arte está em todos os lugares?
 
Tal questão aparece em resultado do processo de industrialização da cultura que, com o advento das mídias contemporâneas, permitiu que as obras de arte fossem reproduzidas em grande escala e divulgadas por pelo menos dois caminhos até então inusitados: o primeiro está ligado aos recursos de gravação e impressão que possibilitaram inundar o cotidiano de bens culturais, a exemplo do disco, da radiodifusão e das gravuras veiculadas pelas revistas ou mesmo avulsas, para decorar lojas e lares. Por esse caminho as paisagens urbanas e domésticas passaram a ser decoradas por cópias de obras consagradas cujos originais se encontram guardados nos museus. O segundo envolve as apropriações da publicidade e do marketing, pelas quais a arte é transformada em valor agregado, na medida em que se associa com mercadorias, a exemplo da Vênus de Millo vendendo lingerie.
 
Em que pesem as conflitantes interpretações desse fenômeno, que oscilam desde entusiasmados clamores de democratização até mal-humorados alertas de vulgarização, certo é que ali se iniciava um processo irreversível que mudaria a cara do mundo, afetando não apenas a paisagem, mas o modo de consumir arte e até mesmo de perceber as coisas. Gestava-se ali um novo homem, cercado de imagens e sons mesmo nos momentos em que sua atenção estaria voltada a outras coisas, de sorte que as imagens muitas vezes teriam um papel meramente decorativo e os sons se converteriam em fundos musicais.
 
Mas os velhos lugares para onde as pessoas antes se dirigiam quando queriam experimentar a fruição estética não perderam seu charme, sobreviveram ao novo tempo, em certos casos mesmo se beneficiando dessa nova ordem, na medida em que a cópia divulga e cria curiosidades especiais em relação ao original. Com a industrialização da cultura os museus tiveram que passar por reformas e ampliações, tornando-se muitos deles os principais reprodutores das jóias outrora únicas que guardavam Os teatros também tiveram que ser ampliados e, mesmo assim, muitas vezes são incapazes de comportar a imensidão da demanda, de forma que praças, praias, fazendas e estádios passaram a funcionar também como eventuais lugares da arte. As livrarias desdobraram-se numa alternativa mais afeita à dinâmica do novo tempo, surgindo as bancas de revistas e multiplicando-se as brochuras, os livros de bolso, as revistas de quadrinhos e similares. O cinema se afirmou como um dos principais negócios do séc. XX, fazendo brotar salas de exibição em abundância.
 
Tal processo até hoje não encontrou as fronteiras de sua expansão e, por sua aceleração constante, propõe também constantes inovações às estruturas e aos usos de tais lugares. Décadas depois de desencadeado, incrementado por ferramentas e técnicas cada vez mais sofisticadas, levaria esse novo homem a se reconfigurar constantemente, tornando-se cada vez mais habilidoso na lida com a multiplicidade.
 
Saltando etapas que poderiam ser identificadas na profusão crescente de informações que bombardeia o homem contemporâneo, e considerando ainda que tal profusão direta ou indiretamente, atinge o campo da arte, devemos considerar a maneira antenada com que os artistas aprenderam a lidar com esse processo. Não foi apenas a industrialização da cultura que impôs inovações ao modo de fazer e de consumir arte, mas também a resistência a ela pesa consideravelmente, se quisermos entender os caminhos trilhados pela arte do séc. XX.  
 
Conscientemente ou não, os artistas começaram a buscar uma arte que não fosse inovadora apenas pela criatividade ou originalidade, mas pela própria forma com que passou a ser ofertada ao espectador. Era preciso garantir o ritual de levar as pessoas até os lugares da arte e, como os formatos tradicionais eram facilmente copiados e levados a qualquer lugar, novos formatos teriam que ser criados. Inicia-se assim uma corrida em busca de novos suportes que, no caso das artes visuais, vai desembocar na invenção de obras que não poderiam ser penduradas em paredes ou dispostas em um ambiente. Isso porque as paredes e os recintos passaram a fazer parte da obra, ou seja, tornou-se a própria obra uma espécie de ambiente. Assim foram criadas as primeiras instalações.
 
Entendemos a instalação como uma obra-ambiente, que portanto não serve simplesmente para ser vista, mas para que se entre nela. Seu apelo não é visual nem auditivo, uma vez que nos convida a um exercício de imersão. Num ambiente de imersão tem-se a possibilidade da fruição estética multi-sensorial (visual, auditiva, olfativa, tátil) e, ainda que as intenções dos primeiros artistas a criar obras desse tipo não chegassem a tanto, não demorou para que se percebesse a dimensão de tal façanha. Afinal, há vinte mil anos tudo aquilo que foi interpretado como arte voltava-se apenas para os sentidos da distância (visão e audição) e a partir daquele momento poder-se-ia experimentar da arte aquilo o que se experimenta da própria vida: a sensação de real que só a imersão proporciona.
 
No mundo da arte contemporânea com seus grandes eventos, com seus pavilhões gigantes e seus museus, a exemplo do espaço recém inaugurado do Inhotim na região metropolitana de Belo Horizonte, o visitante deve estar preparado para ver mais instalações do que quadros e deverá saber que isso significa uma grande revolução, pois não se trata apenas de uma forma de os lugares da arte se diferenciarem dos outros lugares para onde a arte pôde migrar desde a industrialização da cultura, mas também daquilo que tanto alegrou o artista brasileiro Hélio Oiticica em fins dos anos 60. Por ocasião da apresentação de uma de suas instalações intitulada Éden, onde o visitante tinha que tirar o sapato e experimentar pelo tato as sensações de pisar em diferentes tipos de chão, ele declarou: “penso que toda a arte tende a isso, transformar processos de arte em sensações de vida”.
 
Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC-MG.