A Oficina de experimentações

Por Maria Lutterbach
Fotos Jomar Bragança/Miguel Aun
 

O atelier de onde brotam as peças exatas do artista mineiro Máximo Soalheiro desvela um cenário onde as idéias são trabalhadas com total independência.


 
Num pedaço silencioso do bairro Santa Tereza, os carros são raros e meninos ainda brincam na rua sem susto. Quem olha de fora a construção discreta nessa esquina da rua Almandina não imagina que lá dentro, em contraste com a calmaria da região, a criação acontece em ritmo intenso. Desde a década de 70, é ali que Máximo Soalheiro inventa cores, formas e texturas em investigações constantes que fazem dele um dos principais nomes da cerâmica no Brasil. Em coerência com a vontade do artista de pesquisar diferentes linguagens, seu atelier funciona como um híbrido de olaria, núcleo de design e laboratório tipográfico. Assim, o mesmo espaço guarda fornos para a queima da argila, antigas máquinas tipográficas, uma preciosa coleção de vinis e uma sala onde o toca-discos convive com computadores Macintosh. Nos fundos, um pequeno bambuzal serve de casa para galinhas que confabulam durante a tarde, enquanto o atelier está em plena ebulição.
 

Experimentação
 
As peças de desenho enxuto que viraram marca de Máximo Soalheiro são apenas a fatia mais conhecida da trajetória de alguém que sempre soube cavar beleza a partir do simples. A forma geométrica básica do tijolo, primeiro objeto com que o artista mineiro autodidata trabalhou, ainda é, segundo ele, referência essencial para o trabalho realizado no atelier. A infância em Sardoá, que lhe trouxe a descoberta da percepção para o desenho, e a época de trabalho em olarias em Betim formam um universo sobre o qual Soalheiro ainda lança novos olhares. “Para continuar experimentando, sempre busco trazer informações desse passado para levar a outros suportes e momentos”, diz.

A experimentação tem sido, de fato, traço fundamental das pesquisas desenvolvidas por Soalheiro, que recentemente apresentou os resultados de um ousado estudo sobre o encontro entre campos bem distintos. Batizado “Tipografia/Cerâmica”, o trabalho — que culminou em exposição e também num elogiado livro de arte — é retrato da vontade do artista em estreitar a distância entre linguagens. Até junho de 2007 em cartaz no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, a mostra estreou no Palácio das Artes em junho de 2006 e passou também por Ipatinga e São Paulo, onde foi recebida no Museu da Casa Brasileira.
 

Tipografia e cerâmica

Enquanto ornamentos tipográficos apareceram impressos nos objetos de cerâmica expostos, tigelas foram repensadas como instalação, formando desenhos que remetem à precisão das máquinas de impressão. Já no livro, o capítulo “Azulejaria Tipográfica” traz as cores minerais de Soalheiro como base para a reprodução digital de detalhes geométricos. Em nuances como essas, ganhou vida uma conversa entre a tipografia e a cerâmica, sempre com a mediação do artista, que regeu os processos com conhecimento dos suportes e vontade de reinventá-los.

“Queria tirar da tipografia uma relação com o trabalho que já venho fazendo há muitos anos com a cerâmica. O livro é um objeto que reúne as possibilidades da tipografia, com seus limites e caracterizações, aos trabalhos que eu já vinha fazendo com minérios, cerâmicas e cores. Esse resultado só foi possível porque lancei mão de ferramentas atuais”, conta Soalheiro.  

 
Perspectiva inversa
 
Com grande repercussão nas três capitais, o mais recente trabalho, que também comemora 35 anos de carreira do ceramista, é um encontro importante com o público, já que fazia mais de dez anos desde a última grande exposição de Soalheiro. Mesmo com a necessidade de se recolher para desenvolver e executar projetos, ele percebe cada vez maior seu desejo de fazer do atelier um local de trocas. Atualmente acompanhado de uma pequena, mas competente equipe de artesãos e de dois estagiários de design — Artur Miglio e Vicente Pessoa — que participaram de todas as etapas do projeto “Tipografia/Cerâmica”, o artista conseguiu transformar o atelier em uma produtiva oficina de idéias.

Em uma via bem diferente da que segue o mercado publicitário — ou mesmo o de artes plásticas — dali saem desde as peças em cerâmica criadas por Soalheiro até embalagens com sofisticadas impressões, passando pela construção das mesas que compõem suas exposições.  Tudo pensado sob uma perspectiva inversa à da produção em série. “Sempre me interessei por várias coisas ao mesmo tempo: música, desenho, a construção de coisas. Acho que o atelier é imagem da minha própria pessoa. Produzimos pouco, sempre com um olhar artístico e tentando agregar valor a essa produção”, conta o artista.
 

Independência de produção

Dessa forma, Soalheiro mantém total independência de produção — mesmo quando trabalha atendendo pedidos de grandes empresas — como a FIAT, que costuma encomendar ao atelier peças de cerâmica para presentear clientes, ou a Vale do Rio Doce, que recentemente pediu ao artista a criação de um monumento. Além de se dedicar no momento à exposição (que já recebeu convite para ser levada para Recife e Buenos Aires), neste segundo semestre Soalheiro está envolvido na concepção e produção gráfica de um projeto apoiado pela Petrobrás que resgata a obra do violeiro baiano Elomar. Tudo isso ali na rua Almandina. Num lugar que, por fora, nem chama atenção, mas que arde por dentro — e enche os olhos de quem se permite conhecer.