Serra de todos os encantos

Reportagem Maria Lutterbach
Fotos Fernando Piancastelli, Miguel Aun e Roberto Murta
 
Pontilhada por corredeiras e cachoeiras que passam dos 200 metros de altura, a Serra da Canastra é berço de rios que ajudam a formar as bacias do São Francisco e do Paraná.  Dominada pelo cerrado, a Canastra abriga uma flora rara e espécies de animais ameaçados de extinção, como o tamanduá-bandeira, o lobo-guará, o tatu-canastra e o pato mergulhão. Apesar de abrigar a nascente e a primeira queda do Velho Chico, a Serra da Canastra, localizada no Sudoeste de Minas Gerais, só começou a ter seu potencial turístico revelado há poucos anos. Centrada na proteção das nascentes do rio São Francisco, a criação do Parque Nacional, em 1972, pelo IBAMA, foi iniciativa fundamental para a preservação da região e para o fomento ao turismo. Hoje é a grande referência para a prática do ecoturismo e turismo de aventura do Circuito da Canastra.
 
 
Já na estrada para São Roque, cidade que fica aos pés da Serra da Canastra, são muitos os indícios de que estamos à beira de uma região repleta de encantamento. A cada quilômetro vencido, diferentes cores e texturas vão construindo, juntas, um cenário irretocável. Se aproximar das riquezas naturais guardadas nessa serra em forma de arca — daí o nome, Canastra — é permitir um encontro com a beleza em sua porção mais original. Ao deixar os olhos percorrerem as formas exatas da serra e os ouvidos se acostumarem ao silêncio que abraça o ambiente, o visitante dá os primeiros passos para começar a desfrutar das preciosidades que a região tem preservadas.

Campos rupestres repletos de delicadas flores, cerrado típico e matas de galerias com vegetação atlântica são cercados pela água em abundância que nasce por todos os lados. Berço de rios que ajudam a formar as bacias do São Francisco e do Paraná, a Serra da Canastra é toda pontilhada por corredeiras e cachoeiras que passam dos 200 metros de altura e por uma fauna com espécies de animais ameaçados de extinção, como o tamanduá-bandeira, o lobo-guará, o tatu-canastra e o pato mergulhão.


Nascente do São Francisco
 
Apesar de apresentar uma paisagem única e abrigar a nascente e a primeira queda deste que é um dos mais importantes rios brasileiros — o São Francisco, a Serra da Canastra, localizada no Sudoeste de Minas Gerais, só começou a ter seu potencial turístico revelado há poucos anos. A região permaneceu isolada durante muito tempo por precárias estradas de terra, mas a cada ano ganha maior visibilidade entre os roteiros de viagem, tanto pela sua exuberância natural quanto por ser privilegiada para a prática de esportes de  aventura. Despertando a curiosidade de turistas de diferentes pontos do país, a serra surpreende, ainda, por guardar peculiaridades históricas e culturais que fazem da Canastra um destino imperdível.


Paisagem preservada
 
A diversidade biológica do lugar foi notada muito antes da movimentação turística começar a despontar por ali. O registro mais antigo foi feito pelo primeiro naturalista a visitar o Brasil: Auguste de Saint-Hilaire, que desenvolveu extensas pesquisas sobre a natureza de Minas Gerais e Goiás entre os anos de 1816 e 1819. No livro "Viagem às Nascentes do Rio São Francisco e pela Província de Goiás", publicado em Paris em 1847, o botânico descreveu com entusiasmo a flora e a fauna da região. Quase dois séculos depois, a linhas históricas de Saint-Hilaire ainda retratam com fidelidade a paisagem bem preservada da Canastra. "...Em toda a extensão do seu cume, a serra apresenta um vasto planalto irregular que os habitantes da região chamam de chapadão. Dali pude descortinar a mais vasta extensão de terras que os meus olhos já viram desde que nasci. Num lado, a serra de Piumhi limitava o horizonte, mas em todo o resto unicamente a fraqueza dos meus olhos restringia o meu campo de visão.”


Marco na colonização
 
Com mais de 200 mil hectares, a região ecoturística da Serra da Canastra abrange seis municípios: São Roque de Minas, Vargem Bonita, Delfinópolis, São João Batista do Glória, Capitólio e Sacramento —este último onde, de acordo com o  Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), surgiram os primeiros povoados, num local conhecido como Desemboque. No extremo oeste da Serra da Canastra, o vilarejo histórico que atualmente tem pouco mais de 20 casas e 100 moradores é a povoação mais antiga da região e também um marco na colonização do Brasil central.

Fundado em 1743 às margens do Rio das Velhas, o Desemboque chegou a ter cerca de 1.500 habitantes no auge do garimpo de ouro, época da construção das duas igrejas que ainda conserva, onde se reuniam a classe dominante e os escravos. Foi depois da rápida decadência da mineração que a região começou a construir sua identidade, nos meados do século 18, com os moradores se dedicando às atividades rurais, especialmente à criação de gado, principal fonte de renda local até hoje.


Imensidão de cenários
 
As vacas e pequenas casas coloniais espalhadas por montanhas da Serra da Canastra formam apenas um dos vários cenários que a região apresenta. Tendo como principais referências dois chapadões — o da Canastra e o das Sete Voltas — e o Vale dos Cândidos, formado entre eles, o visitante se depara com um grande número de ecossistemas e mananciais de águas limpas e cristalinas. Como a vegetação é em sua maior parte rasteira ou de pequeno porte, permite grandes vistas panorâmicas, em especial, da imponente serra em forma de baú, que tem impressionantes 60 quilômetros de extensão. Por trás dos muitos contrastes de relevo, esconde-se a presença de uma gama de diversificações litológicas. Nesta área, ocorrem rochas pré-cambrianas médias do Grupo Canastra com predominância, em alguns locais, de quartzitos e, em outros, de micaxistos.

Pelas estradas de terra e trilhas, ou fazendo um passeio pelo Parque Nacional da Serra da Canastra — maior atração do lugar, as surpresas presenteiam os visitantes a todo momento. Centrada na proteção das nascentes do rio São Francisco, a criação do Parque Nacional, em 1972, pelo IBAMA, foi iniciativa fundamental para a preservação da região e para o fomento ao turismo. O acesso do visitante às atrações principais do parque é simples e se dá através de uma estrada de 60 km que liga São Roque (cidade mais próxima do parque) a pontos como o Retiro de Pedras (área da primeira fazenda instalada na região), a parte alta da cachoeira dos Rolinhos, o cânion do rio São Francisco e a parte alta da Cachoeira Casca D’Anta.


71.525 hectares demarcados
 
Com 71.525 hectares demarcados, o enorme parque é parte do território de três municípios: São Roque de Minas, Sacramento e Delfinópolis, no sudoeste de Minas Gerais. A área originalmente prevista para o Parque Nacional ultrapassava 200 mil hectares e incluía toda a região da Serra da Babilônia. Agora, a área oficial está sendo atualmente objeto de revisão. Um Plano de Manejo publicado pelo IBAMA no início de 2005 prevê a desapropriação de cerca de 130 mil hectares. “A desapropriação é importante para a manutenção da biodiversidade do Parque Nacional, mas causa polêmica e, por isso, está sendo negociada em diversas reuniões promovidas pelo IBAMA junto às comunidades e lideranças da região”, explica a gestora do Circuito de Turismo da Canastra, Nayara Montandon.


Tapete de espécies
 
Coberto em sua maioria pela vegetação campestre que geralmente se desenvolve em solos ácidos e mal drenados, o Parque Nacional e seu entorno são caracterizados por campos limpos revestidos por gramíneas, principalmente as do gênero Aristida. Já os campos sujos, encontrados em menor quantidade, mostram árvores reduzidas a arbustos e bem distanciadas umas das outras.

Capaz de se desenvolver em altitudes superiores a 800 metros, o campo rupestre é outra formação característica, com uma flora em que predominam canelas-de-ema, arnica e arnica do campo (Chinolaena latifolia). Em menos de 1% da área do parque, surgem as florestas, geralmente às margens de cursos d'água ou em capões isolados. Ainda em menor porção, aparecem manchas isoladas de cerrado.

Segundo dados do Parque Nacional, a vegetação da região conta com mais de seis mil espécies, dentre as quais, 15 diferentes espécies de sempre-viva, 90 de quaresma, 20 de canela-de-ema e mais de 2 mil espécies de margaridas. Atravessando o parque, esses números se transformam, aos olhos do visitante, em extensos tapetes de flores e plantas das mais variadas cores e texturas.


Diversidade em alerta
 
É nessa vegetação variada que vivem as mais de oitocentas espécies de aves e quase duzentas espécies de mamíferos característicos da Serra da Canastra. Justamente por ser rasteira, a vegetação favorece a observação de animais selvagens, como o tamanduá-bandeira, o lobo-guará e o veado-campeiro, que estão em extinção, mas ainda são encontrados dentro do Parque Nacional da Serra da Canastra. Outros bichos também ameaçados que, com maior raridade, podem ser vistos no local, são a lontra, o macaco sauá, o tatu-canastra, a suçuarana e o pato-mergulhão, que figura entre os dez tipos de aves aquáticas com maior risco de desaparecer completamente do planeta. No começo ou no fim do dia, é mais provável avistar animais no parque - a ema, o carcará e o urubu-rei, por exemplo, existem em grande quantidade na região.

Essas espécies, assim como a preciosa vegetação da Canastra, têm o fogo como um de seus maiores agressores. As mesmas queimadas verificadas por Auguste de Saint-Hilaire no século XIX em sua visita às nascentes do rio São Francisco continuam a existir como ameaça. Segundo a gestora Nayara Montandon, o perigo de queimadas dentro do parque está atualmente controlado por uma brigada do Parque Nacional e também pelo projeto Prev Fogo, que cuida da prevenção de incêndios no parque e seu entorno. “O problema maior é a resistência dos fazendeiros do entorno em abandonar a prática da queimada para eliminar o capim velho”, afirma Nayara.


Casca D’Anta: beleza descomunal
 
Tucanuçus flagrados em repouso sobre as árvores perto da portaria principal do Parque Nacional apontam que a exuberância mora em cada canto da Canastra. O Centro de Visitantes, que fica na portaria 4 e recebe interessados em saber mais sobre a fauna, a flora e as águas da Serra da Canastra, tem sempre um monitor treinado para responder às curiosidades dos turistas e informar sobre as normas de visitação.

Além de ficar atento à presença de cobras nas trilhas, o visitante é instruído a não coletar nada do parque e a se afastar dos rios e córregos ao primeiro sinal de chuva, para evitar trombas d’água. Com temperaturas amenas que variam entre 17 graus no inverno e 23 no verão, a região tem índice pluviométrico anual entre 1.300 e 1.700, com a maior parte das chuvas concentrada no período de dezembro a fevereiro.

Depois de receber as orientações básicas, o turista já pode começar a caminhada em direção à Casca D’Anta, destino mais famoso de toda a Canastra. Andando cerca de 15 minutos por uma trilha sinalizada que em seu trecho final já recebe fortes respingos de água da cachoeira, avista-se, entre a vegetação, a queda descomunal que termina, embaixo, num grande poço com muita ondulação e vento, seguindo adiante na forma de uma corredeira de água límpida. Primeira queda do rio São Francisco e uma das mais altas do Brasil, com 186 metros de altura, ela foi batizada com o nome da árvore Casca D’Anta que, por sua vez, tem esse nome por suas propriedades medicinais. A árvore, antes muito comum na mata em torno da famosa cachoeira, serve como cicatrizante para antas que se esfregam em seu tronco para curar ferimentos.
 
O acesso à parte de baixo da Casca D’Anta se dá pela portaria 4 do Parque Nacional. Saindo de São Roque de Minas, uma estrada de terra passa pela cidade de Vargem Bonita e pelo povoado de São José do Barreiro (distrito de São Roque de Minas), num percurso total de 40 km. A parte alta da queda, outro espetáculo, fica a 38 quilômetros de São Roque de Minas, com acesso pela portaria 1, por onde se vê ainda o cânion que o rio São Francisco forma para descer a serra, a 14 quilômetros após a nascente.

Na parte alta, existe um mirante de onde é possível avistar a queda principal, além da fantástica piscina formada embaixo e o curso do Velho Chico até a primeira curva rumo ao Nordeste. Ali, a mais de 300 metros de altura, se tem uma das mais incríveis vistas panorâmicas da região. O refresco fica por conta das várias piscinas naturais ideais para banho que se formam tanto na parte baixa da Casca D’Anta quanto na alta.
 
 
Águas dos Gerais
 
A Casca D’Anta é uma entre as dezenas de quedas que a Serra da Canastra guarda em todas as suas direções. A Cachoeira do Fundão, que fica em área particular a 52 km de São Roque de Minas, a parte alta da Cachoeira dos Rolinhos — que tem cerca de 300 metros — e a Cachoeira do Cerradão são alguns exemplos da força das águas no maciço da Canastra.

Transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) em agosto de 2001, por ato do IBAMA, a área da Cachoeira do Cerradão, em São Roque de Minas, é a primeira reserva do gênero na região da serra que se encontra aberta ao ecoturismo, com atividades de caminhada e educação ambiental. Com cerrado, campos e mata ciliar preservados, a área também conta com nascentes.

A mais ilustre nascente da Serra é, sem dúvida, a do São Francisco, localizada a seis quilômetros da portaria 1 do Parque Nacional. Chega-se no local por meio da estrada que atravessa o parque.  Caminhar até lá para ver e escutar a força com que brota a água da terra formando depois a imensidão do rio é uma das emoções mais marcantes que a Serra da Canastra oferece. Num lindo vale a 1 300 metros, os escritos em uma pedra indicam o lugar onde o rio começa a longa viagem de quase 3 mil quilômetros até o litoral do Nordeste. Com uma pequena mata e uma ponte de madeira sobre o rio, o local tem uma trilha de pedras que leva até uma estátua de São Francisco de Assis. Foi no dia dedicado ao santo católico que se descobriu a foz do rio, por isso o nome.
 
A homenagem é mais que justa para a magnitude do São Francisco, cuja bacia possui uma área de 640.000 km²e um curso principal que começa na Serra da Canastra, banha seis estados brasileiros e segue até o Oceano Atlântico, com foz entre Sergipe e Alagoas. As Nascentes do São Francisco se espalham por uma extensa área alagada na parte mais alta do parque, que é denominado Chapadão do Zagaia. Os filetes d'água vão se juntando e, aos poucos, o rio ganha a sua configuração, seguindo para banhar uma região marcada pela seca.

Apesar de ser um rio do qual dependem milhares de vidas, o São Francisco continua a receber as poluídas águas do Rio das Velhas— inclusive o esgoto de Belo Horizonte. Depois da construção de hidroelétricas, destaque para Três Marias, em Minas, e Sobradinho e Itaparica, na Bahia, o rio continua sendo objeto de intensa polêmica. O projeto de sua transposição prevê retirar água das duas represas baianas e levá-la para duas outras bacias de rios menores, mas também importantes: a do rio Parnaíba e a dos rios Jaguaribe, Apodi e Piranhas-Açu.

O Velho Chico também enfrentou o garimpo que assolou o interior do Brasil e deixou marcas profundas no rio, sobretudo próximo à sua nascente. A caça aos diamantes na região, que está novamente presente bem perto do parque, arrancou a terra e a vegetação das margens, levando ao assoreamento do rio, perda de profundidade e, consequentemente, de água.

Plantada exatamente no divisor de duas bacias hidrográficas: a do rio Paraná e a do rio São Francisco, a Canastra também vê nascer, no chapadão, o rio Araguari – da bacia do Paraná e chamado de Rio das Velhas na parte inicial.




Serra da Canastra


A Casca D’Anta: exuberância da nascente do Rio São Francisco.

A amplidão da paisagem da Canastra.


O ainda cristalino São Francisco com o paredão na Canastra ao fundo.

Aves, répteis, flora rica e diversificada e animais ameaçados de extinção: a fantástica biodiversidade do cerrado.


Os muitos contrastes de relevo revelam as rochas pré-cambrianas médias do Grupo Canastra.

A criação de gado também é parte do cenário das vizinhanças do Parque Nacional da Serra da Canastra.


O belíssimo e florido campo rupestre é outra formação característica da Canstra.

O Circuito da Canastra surgiu da necessidade de se divulgar os diversos atrativos da região como as nascentes e cachoeiras.


Construção típica da região na zona rural de São João Batista do Glória.

Circuito Canastra:
Cinco roteiros turísticos do Circuito estão em fase de estruturação. O turista vai poder chegar aos mais belos recantos da região.