História restaurada

Reprotagem
Carolina Godoi
Fotos
Henry Yu

O Palácio da Liberdade, sede do governo de Minas Gerais, um precioso tesouro cultural, histórico, arquitetônico e artístico, foi entregue à população de Belo Horizonte (e a todos os mineiros), totalmente recuperado e restaurado, no dia do aniversário da capital — 12 de dezembro de 2006.
 
 
Pela primeira vez o Palácio da Liberdade foi restaurado por completo, unindo os trabalhos de obras de arquitetura, engenharia civil e de recuperação de todos os elementos artísticos de cada um dos cômodos dos três pavimentos do edifício.  “Muito mais do que uma obra de restauração, talvez a mais importante já feita no Brasil nos últimos anos, nós estamos restabelecendo, com esses investimentos, um dos principais símbolos da República brasileira, e, muito em especial, das lutas pela liberdade e pela democracia”, afirmou o governador Aécio Neves.

Outra boa novidade da restauração é que o Palácio da Liberdade, além de preservar a história, entra numa nova era que exige o máximo em modernidade. Foi implantada a tecnologia wireless que elimina instalações e cabeamentos que podem danificar as paredes. O sistema permite transmissão de dados e voz sem fio. O prédio também ganhou moderno sistema de circuito fechado de TV.

O Palácio ganha ainda um circuito museográfico que será a base do Programa Educativo Restaurando a Liberdade. O percurso é formado por uma exposição sobre os 35 anos do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG), uma sala com a história de todas as intervenções ocorridas no prédio, o Espaço Liberdade — ambiente interativo e tecnológico, onde o visitante poderá viajar pela história da restauração do Palácio, pela vida das personalidades que moraram ali e pela história da construção da liberdade no Brasil.


Passo a Passo
 
A intervenção global no edifício começou há três anos e teve a parceria do setor privado — da Telemar em especial, que investiu 10 milhões de Reais no projeto. A coordenação é do IEPHA-MG, órgão que tombou o Palácio da Liberdade em 27 de janeiro de 1975.

Antes do projeto foi realizada uma prospecção, um levantamento de tudo o que precisava ser feito e onde. Depois de completado o trabalho de engenharia e arquitetura, a equipe de restauração de elementos artísticos começou recuperando as coberturas metálicas, pois o Palácio tinha um problema enorme de infiltração. “Outras reformas feitas no Palácio eram rapidamente danificadas justamente por causa disso. Então, desta vez, o trabalho começou sanando o problema básico. Foram seis meses para trocar todas as chapas, que já estavam apodrecendo”, explicou Maria Regina Reis Ramos, do Grupo Oficina de Restauro, coordenadora da restauração dos elementos artísticos do Palácio.


Redecoração da década de 20
 
Em seguida, os restauradores se dedicaram ao trabalho no interior do prédio. Tudo foi retrabalhado, do teto ao piso. Incluindo móveis, estofados, lustres, tapeçaria, esculturas, pinturas das paredes, telas, forros e portas. Maria Regina explica que além da questão estética existe um trabalho mais demorado que ninguém vê. “Você observa um forro e acha que existem apenas alguns probleminhas. Após uma análise mais atenta, a conclusão é que aquele forro está carcomido por cupins, apodrecido, faltando pedaços e com a estrutura comprometida. Fizemos então um trabalho silencioso, executado sem nenhum alarde. É o que chamados de ‘o grande’ trabalho”.

A reforma e o restauro privilegiaram os elementos executados na redecoração realizada na década de 20 quando da visita dos reis Belgas a Belo Horizonte. “Ela é mais harmônica com a fachada e mais rica esteticamente. Todavia, o trabalho original não foi ignorado, pois é muito bonito também”.


Achados e surpresas
 
Durante as obras, a equipe de restauração. fez incríveis descobertas. Verdadeiros tesouros artísticos estavam encobertos por algumas reformas realizadas em outros períodos. Não havia preocupação em se preservar os acervos históricos, artísticos e de conjunto do Palácio da Liberdade. Para Maria Regina, ocorreram surpresas muito especiais. No átrio da fachada foram descobertas as pinturas originais que estavam debaixo de várias camadas de tinta, que, em alguns locais, chegaram a 13 camadas até atingir a pintura original. Já na varanda do parlatório (a sacada com vista ampla para a Praça da Liberdade) está o verdadeiro achado do trabalho. “Sabíamos que existia uma pintura original nos tetos, mas não imaginávamos que era de tamanha riqueza e delicadeza, com motivos mitológicos da mais alta qualidade”, conta.


Elevador escondido
 
Durante as prospecções realizadas pelos técnicos do IEPHA, foram percebidos vestígios do antigo pátio central que servia de ventilação e iluminação da área interna do edifício. Neste pátio, inicialmente, foi instalado o elevador principal, e em outra época foram erguidas paredes e lajes ao seu redor. Estas  paredes e lajes geraram cômodos que se transformaram em banheiros e quartos fechados para depósito. A estrutura em art nouveau do elevador e o guarda-corpo estavam escondidas dentro destas estruturas de paredes. Depois de quebradas as paredes, o espaço foi reaberto, proporcionando ao centro da edificação uma luminosidade e uma espacialidade marcantes. Além disso, foi um presente para a equipe achar no lugar dos tetos rebaixados, que foram removidos, vitrais e pinturas originais de Frederico Steckel nas paredes.


Processo demorado e grandioso
 
Para Maria Regina o processo mais demorado e grandioso foi a restauração de um dos espaços mais bonitos do Palácio: o teto e as paredes do Hall Principal. Fazendo a intermediação entre o primeiro e o segundo pavimentos, ele é coroado por uma cúpula, que permite a iluminação natural do espaço. “O forro era o mais danificado de toda a edificação. Foram nove meses de um trabalho pesado, com estruturas enormes de andaimes, que necessitaram de proteção e suporte para não se danificar o mármore do piso do local”. As pinturas das paredes e da cúpula com alegorias à Ordem, Progresso, Liberdade e Fraternidade, de Frederico Steckel, foram restauradas, assim como o lustre de Bacarat em bronze dourado e cristais da Boêmia, instalado ali em 1951 a pedido do então governador Juscelino Kubitschek.

O Salão Nobre foi o primeiro cômodo a ser concluído. O trabalho do forro com as cinco telas de Antônio Parreiras, retratando o Deus Apollo cercado por 12 musas esvoaçantes entre guirlandas de flores e cavalos brancos com asas, foi precioso. As pinturas, datadas de 1925, estavam muito danificadas, rasgadas e mofadas. Chamam também a atenção o piso em parquet belga, que forma desenhos geométricos. Foi preciso um verdadeiro trabalho artesanal para restaurar uma a uma as pequenas peças de madeira do piso.


Missão cumprida
 
É também em parquet proveniente da Rússia os 100 metros quadrados de piso recuperados do Salão de Banquete. No local destacam-se também os trabalhos dos painéis alegóricos, os candelabros em bronze dourado — legítimos exemplares do estilo Luís XVI — e o lustre de cristal tcheco.

Tanto trabalho, sua dimensão, monumentalidade e o pouco tempo disponível não desanimaram Maria Regina e sua equipe. Agora, o sentimento é de missão cumprida. “O mais interessante do processo é o fator descoberta. A gente pega uma parede lisa e começa a remover e a beleza começa a aparecer bem devagar. Mas, o mais gratificante mesmo é ver tudo pronto, como está agora. O ofício da restauração tem esse aspecto gratificante. É algo que faz bem para a cabeça, é terapêutico. Respeitar o original, trabalhar com cuidado e vivenciar o limite da perda”, conclui.


Histórico e a estrutura do Palácio da Liberdade
 
O Palácio da Liberdade domina o conjunto arquitetônico da Praça da Liberdade, e é um palco de importantes acontecimentos da história de Minas Gerais. Sua construção foi iniciada em 1895 e a inauguração aconteceu em 1898. O projeto foi de José de Magalhães, com fachada principal e balaustradas das entradas laterais executadas por Antônio Teixeira Rodrigues, Conde de Santa Marinha.

O empreendimento revela nitidamente a influência francesa na arquitetura mineira, um traçado neoclássico que mescla os estilos Luís XVI ao mourisco. O requinte do projeto exigiu que grande parte dos materiais utilizados em sua construção fosse importado da Europa. Exemplos são as armações de ferro das escadarias e estruturas metálicas da cobertura, procedentes da Bélgica; as telhas de Marselha e o pinho de riga da Letônia. O restante veio do Rio de Janeiro. De Minas Gerais foram usados somente os tijolos, as pedras e a cal. Em 1920, o Palácio passou por uma grande reforma interna e externa, incluindo os seus jardins, para que pudesse receber os soberanos Belgas em visita a Belo Horizonte. O trabalho da época é considerado mais rico e mais harmônico do que o original.

A estrutura do prédio é constituída por três pavimentos que serviram de moradia aos governadores e suas famílias. Teve como hóspedes os ilustres Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves, assim como a presença marcante de Benedito Valadares e Milton Campos. Por volta dos anos 1960, o arquiteto Oscar Niemeyer propôs a demolição do Palácio para a construção de um moderno edifício vertical. A idéia, porém, foi vetada. Abandonado nos anos 1970 pelos governadores que preferiram trabalhar no Palácio dos Despachos, o Palácio da Liberdade voltou a ser prestigiado por Tancredo Neves que despachava de lá.




Palácio da Liberdade.


As escadarias do Palácio da Liberdade.

A estrutura em art nouveau do elevador.


Tudo foi retrabalhado, do teto ao piso: móveis, estofados, lustres, tapeçaria, esculturas, pinturas das paredes, telas, forros e portas.

A reforma e o restauro privilegiaram os elementos executados na redecoração realizada na década de 20 quando da visita dos rei e da rainha da Bélgica a Belo Horizonte.


É em parquet da Rússia os 100 metros m2 de piso do Salão de Banquete. Destacam-se também os trabalhos dos painéis alegóricos, os candelabros em bronze dourado - legítimos exemplares do estilo Luís XVI - e o lustre de cristal tcheco.

O processo mais demorado e grandioso foi a restauração de um dos espaços mais bonitos do Palácio: o teto e as paredes do Hall Principal.


Varanda do parlatório: pintura original nos tetos de imensa riqueza e delicadeza, com motivos mitológicos da mais alta qualidade.

Quarto de dormir: movies totalmente restaurados.