10 anos em cartaz
 
Reportagem Maria Lutterbach
Fotos Leonardo Lara
 
A Mostra de Cinema de Tiradentes, que em janeiro de 2007 completou dez anos, provocou uma intensa movimentação cultural — que refletiu diretamente no crescimento do turismo — responsável pela redescoberta da pequena cidade histórica do Campo das Vertentes. Tiradentes é hoje uma referência no calendário cultural do país.


Aos pés do enorme paredão de pedra que é a Serra de São José, se espalham belezas como ruas de calçamento, casas coloniais coloridas, cavalos, pontezinhas e igrejas. Mesmo nascida assim, cidade pronta para aparecer nas telas, Tiradentes teve um encontro com a sétima arte que foi bem além do seu potencial cenográfico. Em janeiro, a Mostra de Cinema de Tiradentes completou dez anos de uma movimentação cultural que foi responsável pela redescoberta da pequena cidade histórica do Campo das Vertentes, hoje vista como referência no calendário cultural do país.

O clima de festival que desde 1997 invade o município nos primeiros dias do ano ficou conhecido Brasil afora e atrai, a cada edição da mostra, novos visitantes interessados não só na extensa programação, mas no burburinho que toma as ruas, bares e pousadas da região. Durante nove dias, só se fala em cinema por todos os cantos da cidade. Começando no café da manhã, quando os visitantes definem o roteiro do dia com a programação na mão, os filmes são assunto que não sai de foco — rendem comentários e polêmicas antes e depois das sessões e aparecem como vedetes nos debates e oficinas.


Retrospectiva sobre o cinema
 
Desde suas primeiras edições, época em que a produção do evento ainda driblava a falta de infra-estrtura de Tiradentes, até esta décima mostra, que lançou um olhar de retrospectiva sobre o cinema nacional feito nos últimos anos, o festival mostrou que é um painel fundamental para a divulgação do cinema brasileiro. Criado pela Universo Produções, de Raquel Hallak, como forma de pressionar a inauguração do Centro Cultural Yves Alves — que ainda hoje abriga parte da programação — a Mostra de Cinema de Tiradentes apareceu quando o cinema nacional finalmente ganhava novo impulso, depois de longos anos na berlinda. “Percebemos também que existia uma demanda no Estado por um festival de cinema e por isso resolvemos fazer, ao invés de um evento apenas inaugural, uma mostra de cinema de fato representativa de Minas”, lembra Raquel.

O festival, que estava marcado para outubro de 1996 acabou sendo adiado para janeiro do ano seguinte, o que acabou sendo ponto positivo para a abordagem turística do evento. Mês que atrai poucos turistas para Minas, janeiro começou a ser incluído no calendário de eventos culturais de porte nacional. Estrategicamente localizada próxima aos grandes centros do Sudeste, Tiradentes passou a receber um grande fluxo de turistas que conheceram a cidade por causa do festival e passaram a voltar à região em outras épocas do ano.


Perfil reflexivo
 
Depois de identificar as características de vários festivais que acontecem em outros estados brasileiros, a produção da Mostra de Cinema de Tiradentes entendeu que seu diferencial deveria estar além do cardápio de filmes. “Queríamos um evento não só para exibir cinema, mas para debater cinema. E desde a primeira edição, tínhamos por certo que seria um festival exclusivo de cinema brasileiro, apesar de todo mundo na época achar que era loucura sustentar um evento anual de cinema nacional, já que estávamos nos primeiros anos da retomada e ninguém sabia como seria a produção dali pra frente, ou o que existiria no mercado”, conta Raquel Hallak. Sempre abrangendo curtas, longas e vídeos, a programação gratuita da Mostra de Cinema de Tiradentes traz para a cidade, a cada ano, homenagens, seminários, debates e oficinas.

Abrindo a série de festivais audiovisuais, a mostra entrou para o circuito de pré-estréias, antecipando o que vai ser exibido durante o ano. “É hoje o maior evento hoje do cinema brasileiro, com nove dias de duração e, de três anos para cá, está se firmando também como um evento de debate sobre estética, linguagens e tendências. A gente apresenta o cinema contemporâneo, ao mesmo tempo em que discute o que está norteando essa produção”, aponta Raquel.

Ao colocar jovens e veteranos realizadores em contato direto com o público, sem a pressão característica dos festivais competitivos, a Mostra possibilita uma intensa troca de informações e impressões. Nesse sentido, contribui para a formação de público para o cinema nacional, que historicamente ocupa fatia irrisória das sessões nas salas comerciais do país.


Ativação do turismo
 
Mais preocupante do que irônico, o fato de Tiradentes, com 5 mil habitantes, até hoje não possuir sequer uma sala de cinema, indica limitações no acesso à cultura. A produção da mostra manteve um projetor de 35 mm no Centro Cultural Yves Alves, mas não vingaram projetos para fazer reverberar durante o ano o movimento cultural que o evento leva à cidade em janeiro. “É muito ruim ficar quase o ano inteiro sem formar o público da região. São mais de 20 cidades no Campo das Vertentes, sendo que São João del Rei é a única que tem uma sala de cinema”, lamenta Raquel. Administrado por um conselho deliberativo, o Centro Cultural pertence à Fundação Roberto Marinho, mas ainda não é auto-sustentável — faltam incentivadores que possam ajudar a manter o espaço.

Apesar de ainda não poder ver em pleno funcionamento o Centro Yves Alves, a produção da mostra aponta ganhos significativos no fluxo turístico da região, alavancados a cada edição do evento. Depois de seu Ciclo da Prata, Tiradentes há dez anos recebia poucos turistas, em sua maioria trazidos a reboque pela movimentação na vizinha São João del Rei. Hoje, a situação se inverteu. “A gente movimenta durante dez dias de evento mais de 2 milhões de reais, que é o equivalente ao orçamento anual da cidade, e geramos mais de mil empregos diretos e indiretos. Através do catálogo e do site da mostra, que serve como referência da região, a cidade fica em evidência o ano todo”, afirma Raquel Hallak.  

Assim como aconteceu com a cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul, Tiradentes cresceu junto com seu festival de cinema. Além da Estrada Real, destaque no turismo mineiro, ter tido seu marco inaugurado em Tiradentes, na cidade, também foi criado, depois da mostra, o Festival Internacional de Cultura e Gastronomia de Tiradentes que, por sua vez, completa uma década neste ano.

“Quando iniciamos o evento eram 700 leitos e hoje são mais de seis mil. Hoje, a gente trabalha com mais de 30 pousadas e mais de 10 restaurantes. Todo patrocínio que tivemos foi reinvestido na mostra porque a gente queria receber os turistas com condições de segurança e  conforto”, destaca Raquel. Com apoio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura e da Cemig, a Mostra de Cinema de Tiradentes também conta com verbas dos Ministérios da Cultura e do Turismo e é patrocinada pela Petrobrás desde sua quinta edição. Neste ano, o festival passou a receber patrocínio de continuidade da estatal, o que significa que não precisará mais participar de editais e poderá se planejar antecipadamente.


Balanço do Cinema Nacional
 
O reconhecimento desses dez anos de dedicação ao cinema nacional foi motivo de comemoração nesta edição comemorativa dos dez anos da Mostra de Cinema de Tiradentes, mas a celebração maior se deu em torno da rica produção cinematográfica nacional apresentada na última década. O festival foi participativo desde seu planejamento: 41 profissionais de todo o país — pensadores, teóricos e críticos — elegeram o diretor (Beto Brant), os atores (Lázaro Ramos e Matheus Nachtergaele) e três obras que marcaram a década (“Central do Brasil”, de Walter Salles, “O Invasor”, de Beto Brant, e “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles.

Também foram convidados 21 profissionais, entre acadêmicos e críticos de cinema, para participar do seminário realizado pelo nono ano consecutivo. Eles próprios elegeram algumas temáticas, como documentário, novas linguagens recorrentes no cinema brasileiro e mudanças na forma de produzir cinema no Brasil. Marcada por debates, a mostra pela primeira vez colocou em exibição, lado a lado, longas em digital e em película. “No Brasil a gente não pode mais fechar os olhos para o que a tecnologia está trazendo. Ao mesmo tempo que mostramos produções tradicionais e populares, exibimos produções arrojadas”, afirma Raquel Hallak. Desta vez, além de 13 oficinas com 444 alunos, foram exibidos 219 trabalhos de todos os formatos – documentário, ficção, curtas, longas e vídeo em 55 sessões que atraíram mais de 27 mil pessoas nos nove dias de mostra.


Números de uma década

• 1.289 produções em 398 sessões.
• 2.640 convidados
• 570 profissionais de 450 veículos da imprensa
• 66 apresentações musicais, 39 espetáculos de rua e 16 exposições
• 8 seminários, 9 encontros de entidades de classe do segmento audiovisual e 23 mesas redondas
• 101 oficinas ministradas para 3.129 alunos



Marcada por debates, a mostra pela primeira vez colocou em exibição, lado a lado, longas em digital e em película.


Tiradentes passou a receber um grande fluxo de turistas que voltam em outras épocas do ano.

Um evento não só para exibir cinema, mas para debater cinema.


O diretor Helvécio Ratton.

A atriz Maria Flor.


A Mostra de Cinema de Tiradentes apareceu quando o cinema nacional finalmente ganhava novo impulso.

Oficinas, como a de atores, também movimentam o evento.


Público faz fila para assistir os filmes.

Desde 1998 acontece a Mostra Quem Sou Eu?