Estrada Real (Parte I)
Pelas trilhas e marcos do caminho velho

Por Sivio Antônio Lourenço
Fotos Henry Yu

Dois ciclistas viajaram  pelo Caminho Velho da Estrada Real, de Belo Horizonte a Paraty, seguindo os marcos de orientação instalados pelo Instituto Estrada Real. Nesta reportagem, um dos ciclistas conta toda a história desta aventura: “O ciclismo favorece o alcance de áreas de difícil acesso a automóveis, permitindo o registro de paisagens e ocorrências sócios-culturais inusitadas. Desta forma, os ciclistas têm como identificar e registrar paisagens, riquezas naturais, arquitetura histórica e popular, pessoas, histórias de vida, hábitos, gastronomia e produtos regionais, enriquecendo o rol de apelos turísticos dessas regiões.
 

Estudos indicam que Fernão Dias foi o responsável pela expedição que resultou na abertura do hoje chamado Caminho Velho —via que ligava as antigas vilas paulistas do vale do rio Paraíba do Sul, aos primeiros núcleos mineradores do que se conhecia à época como “Sertão de Cataguás”.

Entre 1674 e 1681, a famosa bandeira de Fernão Dias fundou os primeiros arraiais da futura capitania e abriu caminhos fundamentais na história do povoamento e da colonização de vastas regiões do território brasileiro. Os caminhos reais adquiriram, já a partir da sua abertura, natureza oficial, por constituírem as únicas vias autorizadas de acesso à região de reservas de ouro e diamantes da capitania. A circulação de pessoas e mercadorias era obrigatoriamente feita por eles, considerando-se crime de lesa-majestada a abertura de novos caminhos.

Estrada Real referia-se, assim, às vias que, pela antiguidade, importância e natureza oficial, eram propriedade da Coroa metropolitana. Durante todo o século XVIII, e também  em parte do XIX, as estradas reais foram os troncos viários principais do centro-sul do território colonial, mesmo quando a mineração já se fora e os caminhos se tornaram livres e empobrecidos.

Hoje, reunidas sob o nome de Estrada Real, as vias tornaram-se verdadeiros eixos histórico–culturais, cujo valor vem sendo difundido por diversas entidades, governamentais e não governamentais, visando o incremento do turismo e o conseqüente desenvolvimento sócio-econômico.


Por quê de Bike?
 
O ciclismo favorece o alcance de áreas de difícil acesso a automóveis, permitindo o registro de paisagens e ocorrências sócios-culturais inusitadas. Desta forma, os ciclistas têm como identificar e registrar paisagens, riquezas naturais, arquitetura histórica e popular, pessoas, histórias de vida, hábitos, gastronomia e produtos regionais, enriquecendo o rol de apelos turísticos dessas regiões. O termo “bike” agrega atualidade a um evento histórico, despertando o interesse e a valorização por parte do público jovem. Demonstrando a viabilidade do roteiro para ciclistas atraímos os esportistas e amantes do turismo natural.

Viajando de bike você nunca está sozinho, pois por onde passa as bikes chamam a atenção e sempre alguém pára e pergunta: “Pra onde ocê tá indo”. E daí surge um papo e a gente faz mais uma amizade naquele lugar.


Minas, São Paulo e Rio de Janeiro
 
Depois de percorrer o caminho entre Belo Horizonte e Diamantina, eu, Silvio Antônio Lourenço, e meu amigo Amador Caiafa, resolvemos ir de bike até Paraty. Atravessamos três estados — Minas, São Paulo e Rio de Janeiro — passamos por cidades de valor histórico reconhecido mundialmente, como Congonhas, Tiradentes e São João del Rei, por municípios que compõem o maior complexo hidromineral do mundo, como Caxambu e São Lourenço, mas também passamos por inúmeros vilarejos que se vislumbram ao longo do caminho, cujas riquezas também serão exaltadas por esta expedição, que contou ainda com o apoio de carro de Márcia Perillo Lourenço e Ana Maria Caiafa. Quem faz o apoio tem um importante papel nestas viagens, pois além de levar toda a bagagem, ficam responsável por chegar nas cidades que vamos pernoitar e providenciar a pousada e, se possível, o lugar onde iremos almoçar ou jantar, dependendo da hora. E claro, ficar atentos a algum imprevisto, como uma queda ou alguma peça da bike que quebre e não haja conserto ali no meio da estrada, o que graças a Deus, em todas as nossas viagens não ocorreu.

Nossa viagem iniciou no dia 16 de julho de 2006, um domingo, as 8 horas, e o pessoal do apoio um pouco mais tarde. Confesso que ainda não tinha uma idéia do que viria, estava tão eufórico, passei tanto tempo correndo atrás de patrocínios,  que não vieram, a não ser uma ajuda do meu chefe, Hélio Bazzoni, do Célio Moreira, e de amigos e parentes, que esqueci o tamanho das distâncias que iríamos percorrer.


Começo de uma longa viagem
 
Mas são gostosas estas sensações, o encontro com seu parceiro, à saída, os primeiros metros. Como sempre fazemos em nossos passeios, saímos de bike da porta de casa, e escolhemos pegar a Estrada Real lá em Sabará, e dali seguir por Nova Lima. Descemos para Sabará, trajeto que minha bike já quase vai sozinha, e de lá pegamos uma estrada de terra que passa por trás da Serra do Curral, bonita e tranqüila, para Nova Lima. Aí senti que a viagem tava começando.

Cortamos Nova Lima, Honório Bicalho e seguimos para Rio Acima. Uma rápida parada na praça para um lance e vamos  para Acuruí, e como subimos. Foi na subida para Acuruí que o nosso apoio, Márcia e Aninha, nos alcançou e fizemos o nosso primeiro contato através dos Walk-Talkies que usamos nesta viagem para nos comunicar e que serviu de orientação, tanto para nós das bike, quanto para elas no carro.

A cada instante olhávamos para trás e podíamos avistar lá no fundo Belo Horizonte e aquela torre perto do BH Shopping. E como subimos a serra,  subimos tanto que achei que bateria na porta do céu. Mas é justamente nas subidas que temos a oportunidade apreciar melhor as paisagens. Já na descida, é com os olhos grudados no caminho, qualquer descuido e pode ser fatal. Quase chegando em Acuruí cruzamos com alguns cavaleiros que faziam o caminho de Itabirito a Rio Acima.

 
Consumo de calorias
 
Finalmente chegamos a um lugarejo, e eu pensava que Acuruí era uma cidade, é uma rua só e algumas casas, mas agradável e acolhedor. Como iríamos conseguir um lugar pra ficar. Fomos comer alguma coisa no Cantinho do Molho Pardo, e por sorte, a dona do bar, tia Eliana, era a única pessoa que tinha um barraco pra alugar. Ficamos lá. Abrimos a primeira tequila. E foi na Tia Eliane e sua filha Elianinha, que nos receberam tão bem, que voltamos para o jantar. Mas mortos pelas subidas, fomos dormir, pois no outro dia a jornada seria até Congonhas.

Levantamos cedo, e ainda deu tempo de dar um giro pelo lugarejo. No final da rua, a gente entra num condomínio fechado, e lá embaixo, sob uma neblina, tem um lago enorme. Lugar bonito aquele. Voltamos e tomamos nosso café da manhã com a tia Eliane. Finalmente estamos na estrada novamente, refeitos do primeiro dia, super animados. Tudo é novidade, já me dou por satisfeito e falo isto para o Amador. Só esta primeira parte, já valeu a pena. Neste primeiro dia percorremos 100 km, e um aparelho que simula o consumo de calorias, registrou o recorde de toda a viagem: 5.90.

 
Cidade fantasma - de Acuruí a Congonhas
 
Saímos com destino à cidade de Glaura, só estrada de terra, entre  Glaura e Cachoeira do Campo, que já  é por asfalto, tem uma subida tão forte que neste local acontece o campeonato Mineiro de Skate morro abaixo. Depois você volta a estrada de terra passando por Santo Antônio do Leite, Engenheiro Correia e a cidade fantasma de Miguel Burnier.

Entre estes dois lugarejos aconteceram algumas coisas interessantes. Nunca vi tanta poeira, acho que foi o trecho que ficamos mais sujos, completamente cobertos por uma camada de poeira e pó de minério. Terrível. Mas teve uma caminhonete que ao cruzar com a gente, quase parou. Eu fui chegando pra perto do cara, achando que ele iria nos perguntar algo, e ele me disse: “Diminuí a velocidade pra não levantar poeira em vocês”. Caramba! Que educação. Ao contrário, os motoristas daqueles monstros de caminhões, passavam voando, e na descida pra Miguel Burnier, faziam uma nuvem de pó, a gente perdia a visibilidade da estrada. Tínhamos de diminuir, deixar os caras irem embora, pra poder voltar a ver a estrada. Quando entramos em Miguel Burnier, com este nome tão imponente, achamos que seria um oásis naquele vale de poeira. Que nada... Mais parecia uma cidade fantasma. Com suas casas em ruínas, uns poucos moradores resistentes, esperando que os grandes dias voltem aquele cantinho esquecido por Deus. Adeus Burnier  vamos em frente.

Seguimos em direção a Lobo Leite e de lá até Congonhas, este último trecho percorrido por asfalto. Em Congonhas não conseguimos nenhuma pousada, e acabamos ficando num hotel, e para quem viaja de bike, as pousadas são sempre mais aconchegantes, tem mais calor humano, mas deu pra descansar. A partir de Congonhas, como era Julho, o Festival de Inverno já se encontrava presente e com várias oficinas pela cidade. À distância percorrida neste segundo dia foi de 83,5 km.
 

“Pinguela caída” - de Congonhas a Lagoa Dourada

Um dos trechos mais bonitos da viagem. Saindo de Congonhas seguimos em direção a Alto Maranhão. O caminho é tão bonito que nem me lembro se tinha muitas subidas, só sei que quando assustamos já estávamos chegando a este lugarejo. Mas também você passa de passagem, mesmo de bike não levamos mais que cinco minutos para atravessar o casario. Aí seguimos para Pequeri, outro ouro em pó. Passamos por algumas pontes, trilhas, estradinhas e lá do alto avistamos a cidadezinha. Mas fizemos uma confusão com as placas e entramos por outro caminho, 1,5 km depois chegamos a conclusão que deveríamos voltar e passar dentro do lugarejo. E lá, seguindo os marcos, fomos parar dentro de uma fazenda. Uai, e agora Amador? Acabou a estrada. Ficamos rodando num pátio imenso, sem entender direito pra onde seguir. Quando um peão sai de trás de um monte de lenha e nos informa: “vocês tem de seguir ali, beirando a cerca, só passa a pé, de moto ou de bicicleta”.  Fomos em frente e não vão acreditar, pedalamos dentro de uma mata fechada, só com uma trilha, maravilhoso....   Atravessamos pinguelas, riachos, brejos, descidas e subidas.... Eu e Amador nem acreditávamos no que víamos.... Numa destas descidas, Amador “o veloz”, entrou com tudo dentro de um brejo, claro, a bike atolou e ele enfiou o pé na lama. Eu vinha logo atrás e brequei. E ele, “vai, vai, passa direto”. Que isto cara, não quero sujar meu pé de barro. Escolhi o melhor local, carreguei a bike e pulei. Sai limpinho e gozando o Amador. Mas foi só montar na bike, seguir mais alguns metros e uma placa: “pinguela caída”. Desta vez não teve jeito. Bike nas costas e os pés e pernas na água. Barro pra todo lado. Molhamos e rimos um bocado. Era só diversão. No final desta trilha nós ainda pedalamos ao lado de um rio, com a mata a nossa esquerda. É indescritível.

 
Referências dos marcos  
 
Quando chegávamos no nosso destino o cansaço era grande, mas nosso apoio já tinha providenciado o local para o descanso. Saíamos sempre a noite e era muito divertido. Conversávamos sobre o percurso do dia e planejávamos o roteiro do dia seguinte. Sempre que possível, mandávamos uma mensagem ou um e-mail para meu cunhado Cláudio Perillo, que retransmitia para todos os amigos nosso paradeiro e as aventuras. Foi engraçado, pois as pessoas, que as vezes nem conhecíamos,  chegavam para trabalhar e queriam logo saber notícias da viagem e passavam a acompanhar a aventura.

Depois passamos  por Paraopeba e de lá para São Brás do Suaçuí. Aqui perdemos as referências dos marcos. E aproveito para explicar como funcionam os marcos da Estrada Real. Eles indicam sempre a direção que o turista deve seguir, se você se encontra diante de uma bifurcação, e o caminho correto for o da esquerda, eles vão colocar o marco daquele lado da estrada. E mesmo dentro das matas, quando é somente trilha, você não se perde, sempre encontrará o marco e aí é só seguir a direção que ele indica. Sempre seguir a estrada para o lado que ele de mostra.     

De São Brás  seguimos por asfalto até Entre Rios de Minas, Casa Grande e finalmente Lagoa Dourada, a cidade do Rocambole. Neste terceiro dia percorremos 70 km. Ficamos na Pousada das Vertentes, do seu Pedro, que largou seu Paraná e veio fincar raízes em Minas Gerais. O filho do seu Pedro também fabrica seus próprios instrumentos de corda, como violão e cavaquinho, é um artesão.

Este menino, quando viu o nosso estoque de bebidas, comentou: “cara vocês são os primeiros ciclistas que passam aqui e não ficam só no suco, água e frutas....”. O kit Primeiros Socorros é mesmo da pesada.


Sem estresse - de Lagoa Dourada a São João del Rei
 
 Resolvemos seguir a planilha que recebi do IRE, e nos demos mal. É muito confuso, andamos em círculo e aumentando em muito nosso percurso. Acredito que com a ajuda de um GPS fica mais fácil. Teríamos de sair direto em Prados, por terra, e saímos no trevo de Resende Costa (vale a pena uma visita nesta cidade das rendas). Eu e o Amador andamos em círculo. Mas sem estresse. Só disse a ele: cara, em algum lugar a gente vai chegar. Se tem estrada, tem algo no fim. E tome pedalada pra todo lado. Foi até bom, pois passamos em muitos lugares bonitos. Inclusive uma pousada, onde mãe e a filha nos receberam muito bem. Pena que ficamos só uns 30 minutos.

Seguimos em frente e começamos a ouvir o barulho de carros. Logo a gente voltaria ao asfalto. E  de lá pegamos o trevo para Prados, e aí sim, voltamos a ter os marcos como orientação, mas também é a região do governador de Minas, Aécio Neves. Passamos por Bichinho, Tiradentes, Santa Cruz de Minas e São João del Rei, que são praticamente emendadas uma a outra. No quarto dia percorremos 75.5 km, e pela planilha do IRE seria mais ou menos uns 43 km.

Quando passamos por Bichinho, parecia que era festa no arraial, carros e mais carros, mas era um velório, alguém importante do lugar havia morrido. Seguimos pra Tiradentes. Que cidade bonita.... pena que ficamos pouco tempo, nosso destino era S. J. Del Rei, onde ficamos numa pousada que funciona como clinica de repouso, Pousada das Andorinhas, a dona, uma psicóloga,  tem o consultório no mesmo lugar. Só tinha a gente no lugar. Uma paz. São João del Rei e Tiradentes merecem uma visita especial, guardam em suas ruas um pouco da história de Minas.


Fantasma da cachoeira - São João del Rei a Carrancas
 
Onde as atividades do Festival de Inverno também eram os atrativos das noites. Trecho todo feito através do asfalto, mas para chegar a Carrancas você sobe uma serra que não tem fim, um paredão. Passamos pelas seguintes cidades: São Sebastião da Vitória, Caquende, Nazareno, Itutinga e daí pra Carrancas. Perdemos a travessia da represa pela balsa em Capela do Saco, mas devido ao stress do atraso no dia anterior, não quisemos arriscar a mais um erro na leitura da planilha. Um detalhe importante, a maioria das pessoas da região do sul de Minas,  não tem a mínima noção do que é Estrada Real, onde ela passa ou coisa parecida.

Em Carrancas ficamos mais um dia para descansar as pernas. Hospedamos na Pousada do Senna, e aproveitamos para visitar suas cachoeiras  e apreciar o visual do alto da serra. Carrancas é um dos lugares mais bonitos de toda a viagem, e conta com ótima infra-estrutura de apoio ao turista, pois o potencial da região é o ecoturismo, e agências que atendem as suas variadas demandas, como visitas as cachoeiras, trilhas, rios, corredeiras.

Fomos até a Cachoeira da Zilda, e fizemos uma amizade com o dono do terreno, se não me falha a memória o nome dele é Adenilton. No final das contas, nós já estávamos bebendo pinga e provando tira-gosto com ele no balcão do bar, conversando sobre uma futura sociedade entre ele e o Amador. Olha o que ele nos contou: Reza a lenda que a Zilda aparece toda noite de lua cheia lá na cachoeira que leva o seu nome. Então um grupo de estudantes das Universidades de São João del Rei e Viçosa, foram passar uma noite lá para comprovar. O que o Adenilton fez. Combinou com um amigo que a meia-noite ele iria aparecer no alto de um barranco, vestindo um lençol branco e por baixo deste lençol acenderia uma lanterna. Dito e feito. Não ficou um estudante pra contar a história. Saíram numa carreira só, em desembalada, com os cabelos em pé e os pêlos eriçados.

A história tomou corpo e correu o mundo, levando mais estudantes curiosos a cachoeira. Ele vendo aquele movimento todo, contou a “armação” para os estudantes que não acreditaram e foram lá pra Zilda em outra noite de Lua Cheia. Pouco depois da meia-noite voltam os estudantes, todos apavorados, assustados e contando que viram a tal mulher. O Adenilton tentou convence-los que era mentira. Mas nada fazia com os que alunos mudassem de opinião. Então ele próprio foi lá. Pegou seu cachorro, uma lanterna e desceu até a cachoeira. Quando ele bate o olho lá embaixo, perto do poço, ele também viu a tal Zilda. O primeiro a picar a mula foi seu cachorro, e logo atrás ele também seguiu em desembalada carreira. Com os cabelos em pé, correu até sua casa, e nem olhou pra trás. A lenda ainda continua correndo o mundo. Eu é que não vou lá pra conferir..... Neste dia nós percorremos a distância de 84,5 KM.
 

Referência histórica – de Carrancas a Baependi


Até a cidade de Cruzília é praticamente toda por estrada de terra, passando pela fazenda Traituba, hoje um hotel-fazenda, que foi construída a mais de 200 anos para hospedar D. Pedro I, e hoje é uma referência histórica da arquitetura e hábitos da época, e de lá seguimos Cruzília. Vale a pena uma parada em Traituba, uma construção imponente, enorme. Realmente muito bonita. Paga-se uma taxa de R$ 3,00 (preço da época, julho de 2006) para entrar e visitar suas dependências. Bebemos uma água no filtro e seguimos em frente, rumo a cidade para Cruzília onde fizemos mais uma parada, pois um aro da minha bike, que eu tinha acabado de trocar justamente para a viagem, não agüentou aquelas famosas costeletas da estrada de terra, e trincou.

Em Cruzília paramos numa oficina e o Otto, um cara estranho, ele perdeu quase que toda a visão num acidente de moto, mas que trabalha melhor que muitos que enchegam normalmente. Ele fez o serviço pra mim e trocou o aro. Entre Cruzília e Baependi atravessamos um local denominado como “cavas”. As “cavas” são profundos barrancos chegando a termais de 5 metros de profundidade. São encontradas no alto das montanhas por onde passa a Estrada Real e são encobertas pelas árvores dando a impresão de uma passaram secreta.

Seguimos até Baependi, e ficamos na Pousada Cachoeirinha. Foi lá que eu quis dar uma de Tarzan, tentei atravessar um lago pendurado em uma corda e “cataplan” caí no lago, molhei todo e quase acabo com meu passeio, pois acabei me machucando um pouco. E como fazia muito frio, tomei umas 4 pingas, 3 pra mim e uma joguei no corte no tornozelo. Neste dia pedalamos uma distância  de 78,5 km.


Namorada de JK - de Baependi a Passa Quatro  
 
Passamos direto pelo trevo de Caxambu e seguimos em direção a Pouso Alto, uma rodovia que dá saída do sul de minas para o Rio e São Paulo, bem estreita. Passamos por São Sebastião do Rio Verde, Capivari, Itanhandu e finalmente Passa Quatro. Apesar da estrada super movimentada, até que foi bem tranqüila. Em Passa Quatro ficamos na Pousada Floradas da Serra, dia Tia Heloisa, que nos contou que sua mãe foi namorada de Juscelino Kubistchek, e mostrou um livro escrito por ele e com uma dedicatória de próprio punho a sua mãe. No dia seguinte, levantamos cedo para lavar as  bikes antes de seguir viagem. O Café da manhã da sua pousada foi uma delícia. Distância percorrida foi de 69 km.

Passa Quatro a Guaratinguetá — também seguimos direto no asfalto. Saído de Passa Quatro, percorremos a distância de 29 km, e entramos no território paulista. Paramos logo na divisa, onde você tem uma vista maravilhosa, e depois vem uns 8 km só de descida. Cruzamos com dois outros ciclistas, eles subindo, e nos avisaram que a estrada estava em obras. Deveríamos descer com o cuidado redobrado. Voamos estrada abaixo. Foi nosso percurso mais rápido, andamos quase 72 km em 3h30.


1.500 metros de altitude - de Guaratinguetá a Paraty
 
Guaratinguetá, que é uma cidade de porte médio, com muito movimento, ficamos no Hotel Café. Não gostei de nada lá, muito movimento pela proximidade de Aparecida do Norte. E lá todos com quem conversamos procurando informações para seguir viagem nos disseram que a subida até Cunha era terrível, então nosso plano era fazer mais um pernoite em Cunha. Mas quando chegamos na entrada de Cunha, nós ainda tínhamos muita lenha pra queimar e resolvemos ir direto até Paraty.

Cunha é um pedaço de paraíso no meio de tanto morro. Você sobe, sobe, e sobe..... não é pouco não, sai de uma altitude de 350 e chega a 1.500. Depois vem uma descida brava de mais ou menos uns 10 km dentro da Serra da Bocaina que é só pedras e buracos, a gente tem de parar pra descansar as mãos de tanto usar os freios. Mais um trecho sinuoso de asfalto, onde dá pra tirar o atraso, e finalmente chega-se a Paraty. Só quem faz este caminho pode imaginar como nos sentimos descendo aqueles últimos quilômetros, a bike ficou leve, o cansaço sumiu. Uma alegria, uma euforia tomava conta da gente. Na entrada de Paraty eu e o Amador nos abraçamos, e comemoramos mais uma viagem bem sucedida. Neste dia, apesar de andarmos quase 100 km, de muita subida, descida com pedras e buracos, e gastar mais de 6 horas pra vencer a distância, ainda tínhamos disposição de aproveitar a noite. Antes fomos para nossa última pousada, e para tanto, nada melhor que escolher a “The Best”. Ficamos num lugar maravilhoso que leva o nome de Bambu Bamboo, e cujo gerente e dono é o Neto. Um cara super educado, atencioso, e como lhe disse, ele é o diferencial da pousada. Um Lord.

Paraty é realmente muito bonita, uma Ouro Preto a beira-mar. Assim que deixamos as bikes descansando na Pousada, fomos comemorar com a nossa tradicional Havana. No outro dia fomos conhecer a praia de Trindade, outro paraíso perdido no meio de tantas descidas, subidas, florestas e montanhas.

Nossa viagem foi ótima, foi super legal, super tranqüila, fora alguns problemas com as bikes, um pneu furado na Via Dutra, o porta água que quebrou, coisas normais de acontecer numa viagem longa, tudo correu super bem. Trouxe várias lembranças, muitas estórias e muita coisa na bagagem.

Cruzamos montanhas, riachos, arraiais, cidades e vilas. Conhecemos paisagens naturais, monumentos, obras de arte e registros históricos, estradas e trilhas. Descobrimos olhares e sorrisos na simplicidade e hospitalidade do povo mineiro, na receptividade e calor humano dos paulistas e cariocas. Mais rico que o metal amarelo e diamantes, essas são na verdade nossas maiores riquezas e que a coroa portuguesa não teve como levar do nosso país.

Ao viajar pela Estrada Real, descobri também que viajamos por uma estrada de sonhos cheia de emoções e desafios, e que está à espera de que outros aventureiros venham descobri-la também.



Vista da agradável e acolhedora Acuruí.


São João del Rei, repleta de atrativos, uma das principais cidades do Caminho Velho.

Carrancas: muitas e belas cachoeiras.


Lambari, uma das estâncias do Circuito das Águas.

A magnífica Serra da Mantiqueira na região das Terras Altas.


Durante todo o século XVIII, e também em parte do XIX, as estradas reais foram os troncos viários principais do centro-sul do território colonial.

Paraty: destino final e início de todas as trilhas do Caminho Velho.