Armaduras do sujeito

Por Euclides Guimarães


Quando o mundo moderno se estabeleceu nos grandes centros urbanos do Ocidente, entre o séc. XIX e a primeira metade do séc. XX, alimentou-se a crença de que os acontecimentos futuros seriam engendrados por projetos funcionais, alicerçados em simulações precisas, monitorados por escolhas racionais e produzidos segundo planos bem detalhados. Acontece que a limpidez dos planos sempre se viu atropelada pela opacidade do real, cujas imprevisibilidades faziam brotar presentes bem menos animadores que as promessas, de forma que a modernidade foi se esgotando no bojo de suas próprias frustrações.
 
Para a segunda metade do séc. XX os fatos expõem as feridas civilizatórias. Desde a bomba de Hiroshima e a constante ameaça de sua reincidência, a que se somam os primeiros sinais de esgotamento dos recursos naturais, os primeiros efeitos catastróficos da destruição ecológica e a revelação dos novos e imensos bolsões de miséria, vimo-nos estupefatos com o quanto nossa engenhosidade parece servir melhor aos propósitos destrutivos que aos construtivos.
 
A razão não desistiria de correr atrás de si própria, buscando uma precisão cada vez maior nos cálculos e uma sofisticação crescente em seus produtos mas, cada vez menos, nos sentiríamos seguros para contar com ela na procura de um mundo melhor. Digamos que a razão serviu muito bem às nossas demandas por eficiência, mas pouco pôde acrescentar aos nossos anseios por felicidade. Como a dependência tecnológica e a corrida pela eficiência mantêm-se fortemente vivas, também a razão prática permanece na ordem do dia.
 
Fora da tecnocracia a insegurança, a impotência, a ambigüidade e a contradição passaram a (des)nortear as reflexões do homem pós-moderno e, nesse contexto inédito de ausência de convicções, nascem e crescem as novas gerações. Pais sem convicções não são capazes de passar qualquer segurança aos filhos e assim, ao mesmo tempo em que se ganha uma grande liberdade, paga-se por ela o preço de uma triste orfandade.
 
Embora cheio de recursos, trajando armaduras high tech, cercado de sofisticados instrumentos de navegação, o jovem contemporâneo não pode escapar da deriva. Ele navega num imenso oceano de sentidos, fazendo assim as vezes de um Odisseu contemporâneo, sujeito às mais sedutoras armadilhas e aos percalços próprios de quem sai de uma para cair em outra.
 
Obviamente, aprender a viver nesse caos, é o desafio que a juventude atual tem a encarar. Não surpreende o boom editorial dos livros de auto-ajuda, a oferta indiscriminada de orientadores pessoais, e as coisas se complicam ainda mais quando constatamos que as águas desse oceano estão em grande tormenta e seus movimentos não podem ser previstos matematicamente, a não ser, em alguns casos, por complexas seqüências fractais. Talvez a Odisséia de Ulisses não pudesse ter sido tão incerta, já que seus desafios podiam ser vencidos pela astúcia e o cálculo racional. Para o Odisseu do séc. XXI as coisas não são tão simples assim: além da razão e da astúcia, é preciso contar com o inefável, com a sensibilidade, com a intuição, coisas a que os velhos gregos não davam muito valor. É o feeling que orienta o surfista na escolha da onda certa, o snowboarder na escolha do seu traçado pela montanha, o executivo na hora de especular, os amantes na busca de seus parceiros ideais. O feeling vem gradativamente tomando o lugar do cálculo linear. Se este funcionava como o mote das formas modernas de interpretar e agir e, talvez por isso, a modernidade pôde tão veementemente se inspirar nos velhos gregos, a pós-modernidade não nos permite o luxo de procedimentos tão simples e desencantados.
 
É a complexidade que cobra de cada um de nós uma sensibilidade que não se pode simplesmente aprender na escola, uma vez que não se pode apreender por fórmulas, nem compreender pelos tradicionais caminhos lógicos da dedução e da indução. Também não se pode prever pelo planejamento estratégico, pois o que se oferece à experiência não são dados de um passado que por sua regularidade, se projetam no futuro e sim dados imediatos de um presente que jamais se rearranjará da mesma forma.
 
A grande equação da vida para o Odisseu da pós-modernidade, reino da liberdade e da orfandade, passa a se pautar por dimensões antagônicas: a necessidade fluir agilmente e ao mesmo tempo de se ancorar. Pela fluidez ele quer ser livre e descompromissado, mas pela ancoragem, quer ter alguém em quem confiar, quer amar intensamente e busca no outro seu mais seguro porto. Pela fluidez quer uma vida intensa, de prazeres radicais e, para isso, se dispõe a enfrentar grandes perigos, mas pela fixidez está disposto a sacrifícios que atendam a promessa de uma vida longa. Pela fluidez está sempre a procurar novas aventuras, novas turmas e novas estéticas, pela fixidez está a procurar marcas perenes, registros inapagáveis de seu trajeto pela vida, como as tatuagens. Pela fluidez quer abraçar o mundo de uma vez, podendo estar sempre conectado, como promete seu celular, pela fixidez quer se isolar num canto, podendo sempre, mesmo quando acompanhado, contar com a possibilidade de se manter à parte. Isso também promete seu celular.
 
Visível e invisível, presente e ausente, indumentado e nu, experiente e ingênuo, amadurecendo rapidamente, mesmo que apegado ao projeto inexeqüível de se manter eternamente jovem. É assim que o sujeito se manifesta e se contra-manifesta no presente: oscilando entre o excesso e a falta, é ao mesmo tempo o risco e o agente de seguros de si mesmo.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC - MG