Simplesmente Juá

Próximo de completar 30 anos de carreira, o consagrado violonista e guitarrista Juarez Moreira lança o seu oitavo cd, o sexto trabalho independente.
 
Juarez Moreira é um músico, na essência da palavra, desde sempre. Todas as vezes em que é questionado sobre seu tempo de carreira ele nunca sabe bem o que responder. Talvez por viver desde menino numa família musical e ter verdadeira paixão por essa arte que aprendeu sozinho. Ou talvez pelo fato de fazer shows em bailes na cidade natal de Guanhães desde os 14 anos de idade.“Eu acabei definindo que eu tenho 29 anos de carreira porque foi em 1978 que eu larguei a faculdade de Engenharia civil no último semestre antes de me formar e fui integrar o grupo do Maestro Wagner Tiso”.

Juarez conta que além das crises existenciais de uma geração que vivia em plena ditadura, sabia que se chegasse a se formar engenheiro não poderia ir contra a pressão familiar para que arrumasse um emprego daqueles bem tradicionais. Preferiu não ter o diploma. Logo depois, já estava tocando ao lado de nomes como Maria Bethânia, Paulo Moura, Milton Nascimento, Nivaldo Ornelas, Lô Borges e Beto Guedes, entre outros.
 
Considerado hoje um dos mais importantes instrumentistas brasileiros, tem como influências o Jazz Americano e a síntese musical dos Beatles misturados com o chorinho, a bossa nova e a MPB das décadas de 60 e 70. Admira Toninho Horta grande incentivador de sua carreira, André Dequech e outros da nova geração como Aliéksey Vianna, Magno Alexandre, Cléber Alves, Weber Lopes e Beto Lopes.

Gosta de Tom Jobim com paixão e brinca que foi salvo pela música dele. “A música dee Tom me embriaga, representou um sinal de vida pra o Brasil pós-ditadura. Ele é o Brasil que deu certo e que ainda pode dar”, diz. A música do Maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim  foi uma referência que fez com que Juarez prosseguisse sempre se inspirando no lirismo, simplicidade e na modernidade dele.

Em 1994 lançou o cd “Nuvens Douradas”, umas das primeiras homenagens póstumas a Tom Jobim. No disco ele privilegiou temas poucos conhecidos do grande público, como “Antígua” e “Mojave”. Interferiu em algumas músicas, com arranjos mais contemporâneos e em outros foi bem fiel aos arranjos do mestre Tom.


Por uma vida simples
 
Este violonista, compositor e arranjador ainda mora em Belo Horizonte, cidade que escolheu para viver. Tem uma vida tranqüila e foge de qualquer estereótipo que possa ser criado a respeito do cotidiano de um músico. “Acordo cedo sempre, tomo meu café e faço minhas caminhadas diárias. Caminho 10 quilômetros por dia. Depois fico às voltas com minhas composições e ensaios em casa ou no estúdio com a banda, alem de tratar de todas as questões ligados à administração da de minha carreira”.

A verdade é que Juarez Moreira tem sim uma agenda atribulada como qualquer músico de sucesso, mas sem precisar estar em São Paulo ou no Rio de Janeiro.  É um dos responsáveis por um movimento forte e independente da música instrumental em Minas Gerais que ultrapassa as fronteiras brasileiras. “Eu faço muito show aqui em Minas, por todo o Brasil e no exterior. Não posso reclamar não! Estive na Itália e tenho para esse ano shows agendados nos Estados Unidos (em agosto em Boston) e na Argentina (Festival Internacional de Jazz em Buenos Aires). Há ainda a turnê do projeto Natura Musical pelo interior de Minas. Quem reclama que Belo Horizonte não tem espaço, projetos e público para a música instrumental não sabe o que está dizendo”, afirma.

Juarez diz que ser músico é escolher o ofício como se escolhe uma religião. “Uma vez um jovem aspirante me perguntou: ser músico dá dinheiro? Eu falei pra ele: não trabalhe com isso não! Ele ficou assustado com a minha resposta e eu completei: quem é realmente músico não faz uma pergunta dessas”, conta.


Juarez compositor
 
Acaba de sair do forno o oitavo cd da carreira de Juarez Moreira. Dessa vez ele toca guitarra e violão. Espécie de síntese dos seus últimos discos, “Juá” — título que ele escolheu por ser seu apelido de infância — foi concebido em apenas dois meses e meio de um árduo trabalho e é o seu terceiro trabalho totalmente autoral. “Adorei essa pressão criativa, foi ótimo ficar concentrado, completamente imerso”.

São 14 músicas próprias que tiveram participações especiais de músicos do calibre de Wagner Tiso, Paulo Sérgio Santos, André Dequech, Neném, Jorge Helder, o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo e o irmão Celso Moreira. Música instrumental contemporânea que abre espaço para o jazz, MPB, samba e música mineira.

O cd ainda vai ser lançado no segundo semestre deste ano, que promete ser agitado. Juarez conta que já tem um projeto aprovado na Lei Estadual de Incentivo à Cultura para colocar em prática, o “Violão das Alterosas”, no interior de Minas Gerais.  O projeto oferece shows em várias cidades e Master Classes para músicos locais. Além disso, vai ser um dos curadores do Terceiro Festival Internacional de Violões de Belo Horizonte em outubro, evento que cresce a cada edição. E já vai começar e produzir seu nono disco.


Globalização da música  
 
As fronteiras para a música já praticamente não existem. Ao falar de globalização, Juarez Moreira lembra-se de um projeto que caracteriza bem os novos rumos da música no mundo. O disco “A Lua Luará”, de Fernando Brant, teve a melodia assinada por Heikki Sarmanto da Finlândia, uma cantora de São Paulo, um produtor de Miami e o próprio Juarez de Belo Horizonte. Outro bom exemplo foi o Festival Música Le Boche na Itália. O instrumentista dividiu o palco com músicos italianos que não conhecia, e teve pouquíssimas horas para ensaiar. Essa mágica só foi possível porque já tinha enviado as partituras por e-mail antes de sair do Brasil. Quando chegou na Itália os músicos já estavam prontos.

Essa desenvoltura foi conquistada por Juarez a custo de muito trabalho e apuro técnico. “Hoje eu me orgulho de ter melhorado a técnica, saber mais o que quero, ter crescido e evoluído no que eu faço. Mas, continuo muito exigente. Aliás, a exigência só aumenta com os anos. A sorte é que a gente melhora também”, conclui.




Discografia:
• 1989: Bom Dia
• 1995: Nuvens Douradas
• 1997: Aquarelas
• 1997: Juarez & Badi Assad
• 1997: Samblues
• 2000: Quadros Modernos
• 2003: Solo
• 2007: Juá