Apoteose universal da música

Reportagem Marcela Vilas Boas
Fotos Eduardo Trópia

Ousadia. A idéia de levar o melhor do jazz para a cosmopolita e barroca Ouro Preto parecia absurda, mas a quinta edição do Festival Tudo é Jazz, que aconteceu entre os dias 21 a 24 de setembro, consagrou o evento no cenário musical do mundo.



Mais uma vez, a histórica cidade mineira foi cenário perfeito para acordes hipnotizantes e maravilhosas improvisações de grandes artistas nacionais e internacionais.

Nos quatro dias de festival Ouro Preto foi tomada pela alma do jazz. Foram montados três palcos que receberam 27 shows e mais de 120 músicos, entre expoentes internacionais e nomes brasileiros de grande expressão.

Grandes talentos da Áustria, Brasil, Estados Unidos, França, Inglaterra e Itália protagonizaram um inesquecível espetáculo na antiga Vila Rica.

E, naqueles quatro dias, podia-se jurar que o jazz nascera ali. As ruas estreitas e o casario antigo abriram passagem para o ritmo norte-americano que enchia a cidade. Público sofisticado e de ouvido apurado misturou-se com a gente simples das montanhas que também se rendeu às notas rápidas e dedos frenéticos que criavam sons quase inimagináveis.


Formação de público

Mais de 12 mil pessoas assistiram a apresentações no Parque Metalúrgico e no palco Preservation Hall, montado no Largo do Rosário (palco principal do “Jazz Paralelo”). Muitas pessoas também puderam participar das cinco oficinas oferecidas pelo Tudo é Jazz e de uma mesa-redonda sobre o novo jazz que atualmente ganha força na Europa.

De acordo com os curadores de Festival Tudo é Jazz, Maria Alice Martins, Ivan Monteiro e Túlio Mourão, o sucesso do evento está justamente no empenho de investir na formação do público do festival e possibilitar aos mineiros contato direto com a música internacional. Por isso mesmo, muitos espetáculos acontecem nas ruas e praças da cidade.

A idéia é aproximar a sofisticação do jazz à força da tradição histórica que brota em cada esquina de Ouro Preto. O pequeno largo do Rosário se transformou em palco e olhos atentos seguiram cada apresentação, desde o início das tardes até que o anoitecer fechasse o espetáculo.


Magistrais espetáculos

Era durante as noites que os pianos, clarinetes, trompetes, saxofones, baterias, guitarras e contrabaixos invadiam o Centro de Convenções de Ouro Preto. Apresentações emocionantes tomaram conta do antigo parque metalúrgico da cidade, espaço totalmente reformado e com estrutura perfeita para um evento do porte do Tudo é Jazz.

Geniais músicos revezavam em magistrais espetáculos que entraram pela madrugada.

É impossível não registrar também a impecável programação do Teatro Ouro Preto que começou no dia 21 de setembro com os vencedores do Prêmio BDMG Esdra “Neném” Ferreira, Mauro Rodrigues e Celso Moreira. No mesmo palco, músicos vindos de diferentes países levaram ao público amostras saborosas das várias tonalidades do jazz. Com o seu vigoroso e inovador jazz, o Garage à Trois, de New Orleans, foi o primeiro a encontrar e extasiar completamenteo o público no dia 22, quando também se apresentaram a banda francesa Magic Malik Orchestra, o pianista brasileiro André Mehmari e os americanos do grupo Zach Brock.


Shows inesquecíveis

No Salão Diamantina do Parque Metalúrgico a programação foi iniciada pelo pianista norte- americano Jason Moran, grande nome do jazz contemporâneo que, em companhia do The Bandwagons, fez um show arrasador apostando na tradição em sintonia perfeita com a experimentação tecnológica. Na seqüência veio o fantástico contrabaixista inglês Dave Holland liderando o seu quinteto formado por músicos do mais alto quilate. Eles misturaram livres improvisos com a mais tradicional pureza, marca registrada de Dave, dono de um aplaudido trabalho autoral e contemporâneo. Toninho Horta (luxuosamente acompanhado pelo baterista Robertinho Silva, pelo contrabaixista Yuri Popoff e pela flautista Lena Horta), com o conhecido brilhantismo, foi o responsável pelo encerramento da noite. O músico mineiro, aliás, foi citado várias vezes (sempre com reverência) durante o festival por diferentes músicos, tanto por brasileiros quanto pelos estrangeiros.


Noite gloriosa

A noite do dia 22 registrou um momento emocionante: a apresentação do saxofonista italiano Francesco Cafiso, de apenas 17 anos. O jovem brindou o público do Tudo é Jazz com maturidade musical e habilidade para improvisação. Em seguida, outro show esplendoroso: os franceses do Richard Galliano Tangaria Quartet, com os convidados brasileiros mais do que especiais Amoy Ribas e Hamilton de Holanda. O público foi ao delírio, principalmente com a performance do bandolinista Hamilton de Holanda, que fez um diálogo inesquecível com o acordeón de Richard Galliano.

A noite foi encerrada gloriosamente por Kurt Elling, considerado o maior cantor de jazz da atualidade. Elling interpretou grandes canções, verdadeiros hinos do jazz e clássicos da música americana. Destaque absoluto para o momento em que Kurt pediu licença ao público (como se pedisse desculpas) para cantar, maravilhosamente em bom portugês, “Morena Rosa”, de Dorival Caymmi.


Tempero brasileiro

A última noite, em 23 de setembro, para encerrar com todos os brilhos, o Tudo é Jazz começou eletrizante. O Trio da Paz, formado por Duduka da Fonseca, Romero Lubambo e Nilson Matta mostrou um lindíssimo repertório de composições próprias, releituras de clássicos ds MPB e alguns standarts. O Trio interpretou um jazz com completo tempero brasileiro que faz sucesso há mais de duas décadas no circuito de casas noturnas de Nova York.

A grande dama do jazz no Brasil, a fabulosa Leny Andrade, conquistou a platéia. Dona de uma voz inebriante e do título de melhor cantora de jazz do país, Leny foi ovacionada por suas brilhantes improvisações e após de cantar imortais clássicos da bossa nova. Raul de Souza, considerado um dos maiores trombonistas do mundo, encerrou o Tudo é Jazz ao lado do Claire Michael Group. Com a saxofonista francesa Claire Michael, Raul interpretou música elaborada e recheada de inovações tecnológicas. Ele apresentou ainda o Souzafone, trombone de quatro válvulas concebido pelo próprio músico.


Jazz Paralelo

Com uma programação diversificada entre a apresentação de geniais músicos e shows internacionais, o Jazz Paralelo — evento gratuito —, agitou o Largo do Rosário com o fino música. Passaram pelo palco Preservation Hall grandes representantes da música instrumental brasileira como Cléber Alves, Jairo de Lara, Chico Amaral, André Dequech, Juarez Moreira e Túlio Mourão, além da Preservation Hall Jazz Band, que fez dois shows inesquecíveis e protagonizou cenas das mais marcantes na história do festival. Outra atração foi o belo e delicado show da cantora Paula Santoro. O Preservation Hall Jazz Band de Nova Orleans — grupo que mantém a tradição das famosas bandas daquela cidade — é formado por músicos com idade entre 31 e 88 anos. A Jazz Band encantou o público com improvisações das mais surpreendentes. Na cena da música brasileira houve um momento antológico: Cléber Alves tocando com Chico Amaral, Juarez Moreira, André “Limão” Queiroz, Milton Ramos e André Dequech. Memorável!

No mesmo Largo do Rosário aconteceu o Dia de Umbria — uma parceria inaugural entre o Tudo é Jazz e o festival Umbria Jazz, um dos maiores festivais do gênero na Europa. Os shows, que marcaram o encerramento apoteótico desta edição do Tudo é Jazz foram do Danilo Rea Trio e de Francesco Cafiso.


Cortejo fúnebre e Jazz Tour

Tudo é Jazz. Ouro Preto seguiu a risca o nome do festival. Um dos mais encantadores momentos do evento desse ano foi a apresentação de um velório pelos paulistas do Original Jazz Band, seguindo as tradições de Nova Orleans, cidade norte-americana berço do ritmo musical. O elenco, munido de clarinete, trompete, trombone, tuba, banjo e wash board seguiu pelas ladeiras e ruelas calçadas de Ouro Preto. Logo em seguida, acompanhava a viúva, filhos, amigos e amantes do “morto”. Moradores e mais de uma centena de turistas da cidade acompanharam o espetáculo que misturou ares fúnebres e paletós negros com muita música, ironia e diversão.

Outra atração nas ruas de Ouro Preto é o Jazz Tour que misturou marchas, canções populares, ragtime e blues. A Russo Jazz Band foi a responsável pelo evento. O encontro começou na rua. Depois, o grupo embarcou no Trem da Vale, que liga Ouro Preto à vizinha Mariana. Ali, em vagões de madeira e paisagem bucólica como cenário, os músicos apresentaram clássicos como Hello Dolly, Ain’t She Sweet, When the Saint’s Go Marchin’in em apresentação divertida, recheada de situações inusitadas. Sem dúvidas, uma viagem incrível. Resta agora esperar pelas novidades do próximo Festival Internacional de Jazz de Ouro Preto – Tudo é Jazz 2007.



Show do saxofonista italiano Francesco Cafiso, de apenas 17 anos.


Richard Galliano.

Público lota o Largo do Rosário; mais de 12 mil pessoas assistiram aos espetáculo de música.


Lenny Andrade no seu antológico show.

O grande público vibra com o show do Preservation Hall Band.


Dave Holland, talento que emocionou o público.

Kurt Eliing, o melhor cantor de jazz da atualidade surpreendeu a todos quando cantou "Morena Rosa", de Dorival Caymmi.


O Tudo é Jazz soma desde seu início, em 2002, a presença de cerca de 101 músicos estrangeiros e 115 músicos brasileiros.

Música e preservação cultural na "capital do jazz brasileira"


O legendário trombonista Raul de Souza, show inesquecível.