As muitas Minas e a vastidão dos Gerais (Parte 1)

Texto Andréa Rocha
Fotos Henry Yu


...Ninguém sabe Minas. A pedra, o buriti, a carranca, o nevoeiro, o raio selam a verdade primeira, sepultada em eras geológicas de sonho...

As imagens evocadas pela poesia de Carlos Drummond de Andrade enunciam a natureza de uma extensa e diversa região, situada no coração do Brasil. E anunciam um outro universo a ser desvendado, seja através de sua riqueza natural, na expressão de seu povo, na força de suas memórias.

Minas Gerais é plural. No nome, na composição. Com pouco mais de 586,5 mil quilômetros quadrados, ou 7% do território brasileiro, o Estado dialoga com estados vizinhos, integrando culturas distintas como as da Bahia, no Nordeste; de Goiás, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal, no Centro-Oeste, e com as dos demais estados do Sudeste, como Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. De um lado, uma região de grande desenvolvimento econômico, urbanização e densidade demográfica. De outro, a cultura sertaneja, a relação com o meio ambiente, com manifestações religiosas e populares ainda vivas em regiões mais distantes dos grandes centros urbanos.

Diferentes tempos convivem no mesmo espaço, conferindo à Minas, como unidade da Federação, singularidade. Vivem no território mineiro, entre as zonas urbana e rural, cerca de 19.237 milhões de pessoas. São descendentes de portugueses que viveram o sonho eldorado; de bandeirantes que desbravaram suas terras em busca de aventuras e riquezas; de negros trabalhadores que lutaram por liberdade e dignidade; de índios como os caiapós, habitantes nativos por mais de 11 mil anos, que resistiram à ocupação e à exploração, além de tantos outros imigrantes de diversas partes do mundo e do país que chegaram em busca de novas e melhores oportunidades de vida.

Minas é essa mistura de gente e de histórias, que se revelam em sua inigualável culinária, em sua intraduzível musicalidade, em manifestações populares como a cavalhada e o congado, no artesanato produzido com os recursos naturais de cada localidade.

Uma região sabidamente rica por suas artes e arquitetura, por sua produção mineral e pelo desenvolvimento de atividades com forte representação na economia brasileira, como o café e a pecuária. Mas privilegiada também pela exuberância e riqueza de seus recursos naturais.

Minas Gerais não tem mar, mas guarda o mais caro recurso não renovável do planeta. De seu imenso território, 30% é ocupado por lagos e rios. São dezesseis bacias fluviais que cortam o seu território, gerando energia e riquezas e povoando o imaginário das populações ribeirinhas.

Entre os grandes rios destaca-se o São Francisco - ou Velho Chico, na tradução popular - que drena 40% de Minas. Mas vários outros são também de grande importância social e econômica, como o Jequitinhonha, o Rio Doce, o Grande, o Paranaíba, o Mucuri e o Pardo. São 1.252 quilômetros quadrados de áreas de preservação ambiental, entre parques estaduais e federais, que abrigam três grandes ecossistemas: a mata atlântica, a caatinga e o cerrado, ricos em biodiversidade.

O olhar de cada um, como revela o poema, oferece diferentes perspectivas e possibilidades sobre Minas, estado aberto a novas descobertas e construções.



_Arquitetura mineira


Cultura barroca


O território das Minas Gerais começou a ser descoberto e ocupado a partir do último quartel do século dezessete. Naquela época surgiram os primeiros núcleos urbanos. Os colonizadores — portugueses, paulistas e nordestinos — que enfrentaram a carência de alimentos e a presença de índios canibais como os aimorés e botocudos, construíram suas casas com materiais duradouros, formando as primeiras povoações nos caminhos da mineração e do comércio.
A pesquisadora Adalgisa Arantes Campos, em seu livro “Introdução ao Barroco Mineiro: cultura barroca e manifestações do rococó em Minas Gerais”, explica que as edificações surgidas em Minas desde as primeiras ocupações até meados do século dezenove receberam a denominação de casario colonial, e não casario barroco, pois seguem um padrão de construções domésticas, sem grande apuro em sua concepção e produção.

Segundo ela, existem algumas características que constituem um autêntico casario colonial, como se vê em algumas cidades históricas, especialmente Ouro Preto. As casas foram edificadas lado a lado, aproveitando as paredes laterais. São semelhantes nos volumes — com um máximo de dois andares —, e no ritmo das janelas e portas. Não havia jardins fronteiriços ou laterais e as janelas não deviam invadir a privacidade alheia. As águas dos telhados também não deveriam lançar água na casa vizinha. Como havia animais domésticos, as casas tinham quintais ou até pequeno pasto. O zelo com as mulheres deu origem a um quarto sem janelas — a alcova, ligado ao aposento dos pais. Para abrigar os escravos, as senzalas.

No século dezoito, as construções do poder público eram feitas de pedra e constituídas por Casa de Câmara e Cadeia; Palácio do Governador; Pelourinho; casas de Fundição; chafarizes e pontes. Em Ouro Preto, antiga sede da Capitania das Minas, a praça principal — hoje denominada Tiradentes — reúne os mais importantes prédios do poder público da época: a Casa de Câmara e Cadeia (hoje Museu da Inconfidência) e o Palácio do Governador (Escola de Minas).

A praça era o espaço por excelência dos grandes eventos, denominados saimentos e ajuntamentos: procissões, cortejos militares, pregões. O pelourinho, símbolo da repressão nos tempos do Brasil Colonial, era construído quase sempre próximo à Casa de Câmara e Cadeia. A partir da segunda metade do século XIX, os pelourinhos foram destruídos pelas populações, restando apenas poucos exemplares, como o de Mariana, no largo da Câmara.
No primeiro quartel do século XVIII, as antigas capelas, que serviam de abrigo para o santo de devoção, foram ampliadas e cobertas com telhas de barro. De forma geral, os exemplares da arquitetura religiosa mineira são formados por uma nave (para os fiéis); a capela-mor (reservada ao capelão); a sacristia (para guarda dos objetos do culto); e uma torre isolada ou acoplada ao templo, onde ficavam os sinos para comunicação com os fiéis.

Até meados dos setecentos, os templos religiosos tinham forma retangular, retilínea, em conformidade com a tradição do mundo ibérico. No entanto, a partir da segunda metade do século dezoito, algumas plantas ganharam formas arredondadas nos cantos, com torres laterais recuadas,como se vê na arquitetura de rosário de Ouro Preto. Aos poucos formas levemente curvilíneas foram introduzidas, com torres arredondadas e recuadas, de inspiração rococó.

Algumas construções demandaram cerca de um século para serem concluídas. Por esta razão, em alguns templos é possível perceber influências arquitetônicas diversas como o barroco português (primeiramente retilínea e, depois, chanfrada nos cantos); o barroco italiano (circular) e o rococó (levemente curvilínea). Desta maneira, pode-se entender que a arquitetura de cidades históricas como Ouro Preto não se resume apenas ao barroco, incluindo também o rococó.

Em meados do século dezoito as fachadas dos templos, antes lisas, começaram a ganhar adornos feitos de pedra sabão. Uma pedra macia, que permitia facilidade de entalhe, era perfeita para a produção de frontispícios curvilíneos, portadas com blocos escultórios, tarjas e medalhões.


Turbilhão modernista

Em Minas, há pelo menos dois grandes estilos artísticos e arquitetônicos: o barroco, ainda presente em diversos municípios mineiros, entre eles Ouro Preta, Mariana, Sabará, São João del Rei, Tiradentes e Congonhas; e o modernismo, exemplarmente representado pelo conjunto da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, e pelo município de Cataguases.

Mas entre o barroco e o moderno houve um momento de transição. Na passagem do século XIX para o século XX, a capital das Minas Gerais era transferida de Ouro Preto para Belo Horizonte, fazendo surgir uma arquitetura imponente, com exemplares neoclássicos, neogótico e de composição eclética que simbolizasse os novos ventos do Brasil-República. Assim, em 12 de dezembro de 1897, nascia a primeira cidade planejada do Brasil que, décadas mais tarde, acolheria um novo movimento artístico e arquitetônico que já tomava conta do país: o modernismo.

O movimento moderno baseou-se na idéia de que era preciso romper com as formas tradicionais das artes plásticas, arquitetura, literatura, design e da vida cotidiana e criar uma nova cultura. A partir de uma revisão filosófica, as antigas marcas deveriam ser substituídas por novas formas de se chegar ao progresso.


Conjunto Arquitetônico da Pampulha

Foi a partir desse impulso progressista que o modernismo se consolidou em Minas Gerais, nos anos 40, pelas mãos do então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, que viria a ser o idealizador, anos mais tarde, do monumental projeto arquitetônico e urbanístico de Brasília, capital federal. O objetivo de Kubitschek era fazer da capital mineira uma metrópole moderna, capaz de dialogar com os maiores centros econômicos e culturais do país e do mundo. Para isso, expandiu a cidade, alargou avenidas, criou novos bairros e visões de mundo, entre elas, a Pampulha.

Além de espelhar beleza, o conjunto arquitetônico da Pampulha deveria ser um espaço de efervescência cultural, refletindo o que havia de bom na vida moderna. Em pontos estratégicos, acompanhando o contorno da lagoa, na então periferia da cidade, foram construídos o Cassino, a Casa do Baile, a igreja de São Francisco de Assis e a sede do Iate Clube.

Para conduzir a grande obra, foi convidado um dos mais proeminentes arquitetos do país, Oscar Niemeyer. A ele vieram se juntar o paisagista Burle Marx, integrando magistralmente o verde ao concreto, e os artistas plásticos Portinari, Ceschiatti, José Pedrosa, August Zamoisky e Paulo Osir Rossi, que deram ainda mais valor e sentido às construções com suas pinturas e esculturas.

Projeto monumental, o conjunto arquitetônico da Pampulha foi uma referência artística e arquitetônica não apenas para Belo Horizonte ou para o Brasil. Foi o início de uma nova linguagem traduzida em curvas, que se expandiu para o mundo todo.


Cataguases

A arquitetura modernista definia seus contornos nas casas, edifícios públicos e praças de Cataguases nas décadas de 40 e 50, praticamente ao mesmo tempo em que delineava a paisagem de Belo Horizonte, a capital do Estado, com o audacioso conjunto da Lagoa da Pampulha.

Cataguases e Belo Horizonte, cada uma a sua maneira, logo deram vazão à inquietude de um grupo de profissionais modernos do Rio de Janeiro, notadamente influenciados por Le Corbusier, que em 1936 visitava o país pela segunda vez. Entre estes emergentes arquitetos estavam Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, anos mais tarde incumbidos de representar em Brasília, a nova capital do país, os arrojados projetos políticos e os anseios de modernidade do então presidente Juscelino Kubitschek.

Mas, ao contrário de Belo Horizonte e Brasília, que dependeram do apoio oficial para adotar a arquitetura e a arte modernistas, Cataguases foi beneficiada pela presença e ação de uma nova e progressista elite, cujos valores culturais e sociais em muito se distanciavam da antiga prática de dominação política e econômica que até hoje marcam profundamente a história do Brasil.

O abastado industrial e escritor Francisco Inácio Peixoto foi um grande mecenas das artes e arquitetura de Cataguases.



_O barroco mineiro


Arte universal

O termo barroco, que dá nome à mais conhecida manifestação artística e cultural de Minas Gerais, foi cunhado, originalmente, para classificar a produção européia dos fins do século dezessete até o primeiro quartel do século dezoito.

Assim como na Europa, também em Minas o barroco não é apenas um estilo artístico. É, para além da forma, uma visão de mundo. Surgido após as grandes navegações, tornou-se universal graças ao processo de colonização empreendido pelos países ibéricos. A linguagem barroca variou conforme a cultura de cada país ou região, como se vê em Minas Gerais, com estilo e características próprias.

Mas, de forma geral, e inclusive em Minas Gerais, o barroco manteve determinados signos e meios peculiares de expressão. Entre eles, merece atenção a visão em profundidade; a movimentação geral da composição, diagonais, curvas e contra-curvas, contrastes entre claro-escuro e, ainda, a prevalência da escultura. No barroco, tudo era feito para encher os olhos, para preencher todos os vazios.

Por influência de Portugal, a temática barroca em Minas também é predominantemente eclesiástica. Suas imagens confirmam os sacramentos, como o batismo, o matrimônio ou a extrema-unção; dão ênfase a passagens da vida de Cristo, como o nascimento, sua infância, paixão, morte e ressurreição; demonstram exaltação à Virgem Maria, à Sagrada Família. Santos, aparições divinas e figuras angélicas reforçam os valores religiosos, ao lado de princípios como a caridade, e de alegorias com valores edificantes como a paz, a verdade, a justiça.


Arte Barroca

A arte barroca encontrada em Minas sofreu várias influências, do erudito ao popular. Até a primeira metade do século XVIII as obras eram feitas, em sua maioria, por artistas portugueses. Mas a partir de 1770 começa a despontar a produção regional, com características próprias. Alguns estudiosos atribuem forte conteúdo ideológico na arte produzida em Minas, especialmente aquelas cunhadas pelo mestre Aleijadinho. Suas formas, peculiares, demonstrariam uma certa dose de indignação e revolta contra a tirania portuguesa. É uma tese bastante aceita entre os estudiosos.

As imagens barrocas tinham em comum a temática religiosa e apresentavam algumas características comuns quanto à forma. De maneira geral, as esculturas de santos apresentavam teatralidade, ressaltando as emoções através dos gestos e de movimentação nos cabelos. Eram produzidos em policromia, com tons fortes como o marrom, verde, vermelho e azul, além do dourado. A composição privilegiava o uso de diagonais e havia sugestão de movimento das roupas, como pode ser visto na imagem de São Miguel e Almas, na Matriz de Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto.

Nas primeiras décadas do século dezoito, as imagens eram confeccionadas dentro de um padrão barroco mais rígido. Em meados daquele século, ganhou contornos mais leves, dando a impressão de maior movimento. E já período de 1760 às primeiras décadas do século dezenove, as imagens começaram a sofrer influência do rococó. Nas imagens das virgens, apareceram querubins de forma desordenada. O dourado, fartamente utilizado até então, passa a ficar mais escasso. E o colorido fica mais vibrante. As linhas diagonais aparecem com mais rigor. As cabeleiras ganham tranças e laços.

As imagens eram produzidas em madeira. A maior parte delas, encontradas em Sabará, Santa Luzia, Catas Altas, Ouro Preto, Mariana e Tiradentes, era feita de cedro, embora também tenham sido identificadas peças em cambará, jequitibá, canela, marinheiro, cangalheiro, catueiro, louro, pinho do paraná e até em castanho – espécie típica da Europa que não existia no Brasil. A maior parte das imagens do início do século 18 era feita em poucos blocos, geralmente em dois. A partir da segunda metade do século, sobretudo no período rococó, as imagens deixaram de ser tão rígidas, ganhando movimentação com indumentárias que se desprendiam da figura, uma complementação que exigia outros blocos de madeira.


Pintura

Durante o período colonial, a pintura foi quase um complemento da arquitetura religiosa. Entre 1700 e 1735 eram comuns os caixotões – divisão dos forros em quadros com moldura dourada, que poderiam prosseguir pelas laterais. As cores das pinturas eram predominantemente em vermelho, azul, marrom, ocre e preto. As composições dos quadros eram autônomas, como se pode ver na Capela do Ó e Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Sabará (Região Metropolitana de Belo Horizonte).

Entre 1735 e 1760, começou a ser desenvolvida uma pintura em perspectiva barroca. Elementos arquitetônicos como colunas, arcos e balcões eram representados em perspectiva vertical, circundando uma visão celestial. Este recurso também foi utilizado no período rococó, entre 1760-1840, distinguindo-se, no entanto, pelo predomínio do vazio e pelo uso de cores claras como o branco, o azul, o vermelho, o rosa. Obras encomendadas pelos devotos, denominadas ex-votos, também eram muito comuns entre os séculos dezoito e dezenove.

Entre os pintores que mais se destacaram no período é Manoel da Costa Ataíde. Nascido em 1762 e morto em 1830, o pintor executou obras em diversas cidades e localidades mineiras, entre as quais merece destaque a Santa Ceia, no Santuário do Caraça. Em Ouro Preto, executou pinturas na Capela da Ordem Terceira de São Francisco de Assis; Nossa Senhora do Carmo; Capela de São Miguel, Sagrados Corações e Senhor do Bom Jesus. Em Santa Bárbara, pintou o forro da Matriz de Santo Antônio.
Além da temática religiosa, algumas igrejas apresentavam temas que representavam o cotidiano das pessoas como casais de mãos dadas, homens caçando, animais exóticos. Essas pinturas, inspiradas em tapeçarias e louça orientais, são conhecidas como chinesices. Um exemplo dessa pintura está na Capela do Ó, em Sabará.



_Artesanato


Vigorosa cultura popular

A cultura popular mineira se expressa também com bastante vigor, riqueza e diversidade através do seu artesanato – arte popular intuitiva e ingênua, que reflete o modo de vida do artesão, seus valores e visão de mundo. Utilitário ou figurativo, o artesanato mineiro varia conforme os recursos naturais existentes na região.


Central

Na região Central de Minas, são comuns os objetos e peças trabalhadas em metal. De sucata de ferro são produzidas belas fruteiras e imagens de violeiros, cesteiros, tribos africanas, cenas de aragem da terra e objetos do mundo moderno, como uma antiga máquina fotográfica, por exemplo. De papel reciclado, são produzidos álbuns, cadernos, cartões. O artesanato regional também produz almofadas em algodão feito em tear, com bordados em linha e lã, e belos xales de lã e adornos em crochê. Em couro, os artesãos se dedicam especialmente à produção de bolsas de diversos tamanhos e cores.


Leste

No Leste, é comum o uso de massa de amido na produção de peças divertidas como lápis enfeitados com personagens de histórias infantis. De fibras vegetais, especialmente palha de indaiá e algodão, são feitas luminárias e utilitários para a mesa, além de bolsas femininas com muitos enfeites. Madeiras diversas são empregadas na produção de caixas de muito apuro e beleza. E em tecidos são feitos brinquedos para crianças, como pequenos fantoches de dedo e teatro de fantoches, confeccionado também em madeira.


Sul

No Sul, peças ornamentais como frutas, fruteiras e imagens de animas e santos são produzidos em argila. Junto com arame, o material também é usado na produção de utilitários como descansos de mesa e luminárias. Associado ao couro, dá origem a pequenos cachepôs e botijas. Na região, também é comum o uso associado do vidro e da madeira, na produção de porta-retratos. Com o ferro,o vidro dá forma à luminárias e caixas de bijuterias. A massa de amido aparece com freqüência nas peças produzidas no sul do Estado, seja em bonecas divertidas, em móbiles ou peças inspiradas em animais domésticos como as galinhas pintadas.

As fibras vegetais são muito utilizadas também na confecção de adornos, em misturas originais de papel machê com samambaia.

A região Sul também apresenta rica produção artesanal em madeira. São instrumentos musicais como violão e guitarra; caixas para diferentes usos e muitos adornos em formas de animais, especialmente bois, vacas e touros. Com a madeira do café, produto típico da região, são feitos cachepôs e fruteiras.

O ferro também é bastante empregado pelos artesãos do sul de Minas, que se dedicam, especialmente, à produção de candelabros e fruteiras de diferentes formatos e tamanhos. Tolhas e cortinas em algodão, lisos ou bordados em linhas sintetizam a produção artesanal do Sul do Estado em tecidos.


Oeste

Na região Oeste, são produzidas imagens em argila de santos e peças utilitárias como castiçais e saboneteiras, além de pratos com resinas e adornos como bolas produzidas com sementes, resinas e fibras. O couro também está muito presente no artesanato regional, especialmente na produção de bolsas. Com fibras vegetais, especialmente bagaço de cana misturado com papel machê, são confeccionados belíssimos vasilhames e adornos.

De buriti, planta típica das veredas do cerrado mineiro, são feitas caixas e produtos ornamentais. Vários tipos de madeira são talhados para compor objetos feitos em fibras vegetais e para a produção de brinquedos infantis, como carrinhos e casinhas de bonecas.


Norte

No Norte, uma das maiores expressões do artesanato regional é produzida em argila. Com este material são formadas imagens de homens, mulheres, animais, anjos e santos. Potes, vasos e vasilhames também são encontrados em matéria pura, pintados ou adornados com sisal.


Carrancas do São Francisco

Carranca, na definição dos dicionários, pode ser a expressão de cara-feia, de mau humor. Pode ser também máscara, caraça e, durante muito tempo, foi também a figura que ornava a proa das embarcações que navegavam pelo rio São Francisco em Minas e no nordeste brasileiro.

Segundo a Fundação Joaquim Nabuco, associada ao Ministério da Educação, essas esculturas surgiram por volta de 1880, na cultura nordestina, mais propriamente na civilização ribeirinha do Médio São Francisco. O compartilhamento do velho Chico pelas comunidades de Minas e do Nordeste gerou a migração, pelo rio, da cultura e da mística das carrancas.

Alguns historiadores atribuem a origem das carrancas a interesses eminentemente comerciais. Seriam símbolo de prestígio daquelas embarcações que transportavam suprimentos para as populações ribeirinhas. Em 1940, quando se encerrou o ciclo das embarcações no Brasil, as carrancas passaram a ter nova destinação, desta vez artística, artesanal e comercial, sempre associada ao poder místico de espantar maus espíritos e influências. De ornamento das barcas, ganhou a função totêmica de proteção.

As carrancas do São Francisco, geradas por uma cultura e região isoladas dos centros mais desenvolvidos do país, constituem uma manifestação artística coletiva de elevado conteúdo artístico e emocional. Com traços e soluções plásticas próprias, revelam as individualidades de cada artista.

Em Pirapora, os carranqueiros perpetuam, através da arte de entalhar a madeira com facão, machado e formão, a história e a cultura dos povos ribeirinhos. Segundo a Prefeitura Municipal, os maiores nomes na produção de carrancas na região são Davi José Miranda Filho, o Mestre Davi, Dona Lurdes Barroso e Expedito Viana Rodrigues, que confeccionou uma estátua de São Francisco de Assis, com 3,5 metros de altura.