Pelos cumes do Espinhaço

Maior travessia de montanha já realizada no Brasil revela detalhes do corredor de biodiversidade que liga o Quadrilátero Ferrífero à Chapada Diamantina.

Reportagem Raquel Coutinho
Fotos Marcelo André


O macuquinho-da-várzea (Scytalopus iraiensis) habita a Serra do Cipó. Este talvez seja o mais importante fato científico registrado pela Expedição Desafio do Espinhaço, que percorreu 416 quilômetros, entre as cidades de Ouro Preto e Diamantina. O que para alguns pode parecer uma informação irrelevante, para outros se apresenta como grande descoberta. O pássaro de cerca de 12 centímetros, descrito em 1998, no estado do Paraná, teve suas vocalizações gravadas pelo biólogo Marcelo Vasconcelos, em um brejo no alto da Serra do Cipó. Até então, a espécie só havia sido encontrada em pontos mais ao Sul do Brasil. O registro amplia a distribuição geográfica do macuquinho-da-várzea e demonstra porque a Serra do Espinhaço recebeu, em 2005, o título de Reserva da Biosfera da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Apesar de castigado pela ocupação humana, esse patrimônio natural brasileiro permanece farto de riquezas, conforme verificou a equipe de expedicionários.


500 km pela crista da serra

Sob fina garoa, dia 2 de setembro, às 9h05, quatro aventureiros partiram da Praça Tiradentes, em Ouro Preto, com dois propósitos específicos: caminhar pela crista da serra até a cidade de Diamantina e documentar a fauna e flora encontradas pelo caminho. De acordo com o projeto, 22 dias e 500 quilômetros separavam-nos do objetivo. O resultado é um material denso em conteúdo e imagens, que reúne fotos, gravações, textos, vídeos, ilustrações e memórias de uma experiência única. Ao longo do caminho, os peregrinos receberam a companhia de agregados, que pegavam carona na expedição pelo simples prazer de participar do grandioso feito.


Minucioso planejamento

Os montanhistas e consultores em turismo de aventura Hebert Pardini e Marcelo Andrê passaram oito anos amadurecendo a idéia. Aos poucos, neste período, percorreram quase todos os trechos do caminho. Quando decidiu concretizar o projeto, Hebert, líder da expedição, convidou também o biólogo Marcelo Vasconcelos, o desenhista Paulo Fiote, especialista em ilustrações científicas de plantas e animais, e o documentarista Bruno Costa. Ruslan Fernandes foi o sexto componente da equipe, cumprindo a importante função de apoio. Andrê e Pardini seriam os únicos a andar todo trajeto, de ponta a ponta, orientando-se por bússola, mapas e GPS. “Realizar algo inédito, produzir conhecimento e chamar a atenção para as ameaças que rondam o Espinhaço foram as principais motivações que me levaram investir no projeto”, conta Hebert, que por idealismo decidiu viabilizar a expedição, mesmo sem qualquer patrocínio de instituições públicas ou privadas. Minucioso planejamento antecedeu o desafio, com reconhecimento do terreno, abertura de trilhas, preparação física, nutricional e logística.


Reserva da Biosfera

Impossível evitar a comparação com os naturalistas Saint-Hilaire, Spix e Martius, que percorreram o interior do Brasil, no século 19, revelando ao mundo belezas tropicais intocadas. O cenário encontrado pelos naturalistas do século 21 foi bem diferente, mas ainda encanta pela harmonia com que reúne a mata atlântica, o cerrado e a caatinga. Subgrupo do cerrado, os campos rupestres são ecossistema predominante na cumeeira da serra, com plantas rasteiras e solos pedregosos.

Divisor de águas das bacias dos rios Doce e São Francisco, o Espinhaço é também grande berçário de espécies endêmicas, principalmente de aves e plantas. Em cerca de mil quilômetros de extensão, alterna altitudes de mil a 1.500 metros, com picos de até 2.017 metros. A latitude apresenta diferenças mínimas, variando de 50 a cem quilômetros de largura. O marco zero localiza-se na Serra de Ouro Branco, no Quadrilátero Ferrífero. Considerada a “espinha dorsal” de Minas, a cadeia de montanhas sobe cortando o estado, passa pela região do Alto Jequitinhonha, atinge o Sul da Bahia e se estende até o maciço da Chapada Diamantina.


Espécies registradas e ameaças à natureza

Segundo Marcelo Vasconcelos, especialista em ornitologia e botânica, todas as espécies de aves endêmicas dos topos de montanha do Sudeste do Brasil que ocorrem na região foram registradas nos primeiros três dias de caminhada. Dentre elas, destaca-se a presença do beija-flor-de-gravata-verde (Augastes scutatus), o papa-moscas-de-costas-cinzentas (Polystictus superciliaris) e o rabo-mole-da-serra (Embernagra longicauda). Ao todo, em apenas dois dias, 40 espécies da avefauna e duas de primatas foram identificadas. Tais belezas se alternaram às imagens de enormes cavas decorrentes da exploração mineral, maior ameaça encontrada entre os municípios de Ouro Preto, Itabirito e Rio Acima.

No quarto dia da travessia, a expedição chega a Caeté e se depara com outros problemas: a vegetação nativa tenta resistir à exploração da bauxita e ao avanço das carvoarias. “Depósitos de escória e rejeitos de mineração, árvores nativas fazem fila ao lado de eucaliptos para serem transformadas em carvão, nascentes preenchidas com brita”, documenta o diário de bordo. “É difícil aceitar esse tipo de visão. Tivemos tanta dificuldade para realizar um trabalho de pesquisa científica, enquanto é autorizada a destruição da mata atlântica, que hoje se restringe a apenas 7% da cobertura original”, diz Hebert, indignado, referindo-se ao fato de a equipe não ter conseguido obter licença para coletar amostras da flora para estudo em laboratório.


Incêndios e asfaltamento caótico

Despenhadeiros, picos, vales, paredões rochosos, escorregões, tropeços e torções desafiaram os andarilhos entre Barão de Cocais, Nova União, Bom Jesus do Amparo e os limites do Parque Nacional da Serra do Cipó. No 11º dia de expedição, a chegada ao velho conhecido Vale do Travessão compensou o desgaste das 12 horas de caminhada. Ao final da cada jornada, contabilizavam bolhas, feridas e escoriações. “Depois que abandonei as lembranças que me prendiam à rotina da cidade, só conseguia pensar nas diferenças do solo, flora e fauna dos lugares em que eu passava”, lembra Marcelo Andrê.

No dia seguinte, acordaram sem pressa. “O Travessão é um local especial. Curtimos a vista do cânion por onde escorrem as águas do Rio do Peixe e seguimos nosso caminho rumo à sede do Ibama. A estranha sensação de pisar o asfalto da rodovia MG-010 foi um marco simbólico da travessia, assim como o cruzamento da BR-381, quatro dias antes”, conta Pardini. Longos trechos de asfalto se sucederam pela rodovia MG-010, cujo caótico processo de pavimentação já se estende por mais de 16 anos.

Além do conturbado asfaltamento da estrada, incêndios provocados por criadores de gado tornam a paisagem desoladora. “Os campos rupestres deram lugar às pastagens. O gado podia ser visto por toda a região, disputando espaço entre as parcas áreas ainda não queimadas. Não só a fumaça preta denunciava os focos de incêndio, mas também os estalos e o cheiro adocicado das canelas de ema em chamas. A Serra do Breu ardia em labaredas tão altas que podiam ser vistas a quilômetros de distância”, relataram.


Relatório científico

À medida que se aproximavam do objetivo, era possível perceber a mudança climática e de vegetação, que assumia aspecto mais duro, árido. O cruzamento da BR-259, que liga Curvelo a Diamantina, no 17º dia de caminhada, indicava que a aventura estava chegando ao fim e um sentimento de nostalgia já contaminava equipe. A hospitalidade encontrada na cidade de Gouveia foi um convite a ficar mais um dia e a retornar em outra oportunidade. Ali, o cinegrafista Bruno Costa gravou cenas raras de aves difíceis de se observar em seu habitat natural: o joão-cipó (Asthenes luizae) e o papa-moscas-de-costas-cinzentas (Polystictus superciliaris).

Em uma feliz coincidência, a Expedição Desafio do Espinhaço foi concluída na data em que teve início a primavera, dia 23 de setembro. A emoção que tomou conta da equipe na chegada ao centro histórico de Diamantina foi compartilhada com toda a cidade, mais tarde, em uma apresentação no Mercado Municipal. Os passos dos 22 dias de expedição foram projetados e comentados pelos naturalistas, frente a uma platéia de mais de cem curiosos, entre crianças, jovens, adultos e idosos.

O relatório científico contendo as informações levantadas durante a expedição foi entregue às principais instituições ligadas à área de meio ambiente em Minas Gerais. O material reunido está sendo organizado para gerar também um vídeo-documentário e um livro. Próxima etapa: “concluir o percurso até a Chapada Diamantina”, antecipa Hebert Pardini.


O desafio em números

Quilômetros percorridos a pé: 416
Quilômetros percorridos pelo carro de apoio: 1.750
Tempo de caminhada: 98 horas e 31 minutos
Dias: 19 de caminhada e três de descanso
Distância diária média: 21,9 quilômetros por dia
Velocidade média: 4,2 quilômetros por hora
Municípios atravessados: 15
Vídeo: 22 horas de gravação
Fotografias em filme positivo (cromo): 25 rolos
Fotografias digitais: 1.780
Ilustrações científicas: 35
Espécies de aves identificadas: 202
Alimentação: 175 quilos de comida
Consumo de energia aproximado: 3.800 calorias por dia
Peso médio das mochilas: 25 quilos
Altitude da caminhada: de 915 a 1854 metros

Apoiaram a Expedição Desafio no Espinhaço:

WM Personal, academia Rio Sport Center, Bem Leve Nutrição, produtos alimentícios Banana Brasil, loja Das Pedras, Brasil Aventuras Expedições, Canela de Ema Complexo Ecoturístico e Movin’Project.

Mais informações:
http://desafiodoespinhaco.blogspot.com



Divisor de águas das bacias dos rios Doce e Rio São Francisco, o Espinhaço é também grande berçário de espécies endêmicas, principalmente de aves e plantas. Na foto, o Travessão, marco divisório das bacias.


O macuquinho-da-várzea (Scytalopus iraiensis), que habita a Serra do Cipó: importante fato científico registrado pela Expedição Desafio do Espinhaço.

Ilustração de mata canela, típica do maciço do Espinhaço.


Os aventureiros percorreram os pontos mais altos entre Ouro Preto e Diamantina.



Apesar de castigada pela ocupação humana, a Serra do Espinhaço - esse patrimônio natural brasileiro - permanece farto de riquezas como as águas abundantes.