Duas décadas de longos papos

Por Assad Abrahão
Foto Eugênio Sávio


Os 20 anos do Projeto Sempre Um Papo, segundo o jornalista Afonso Borges, representam uma vitória para Minas Gerais e para a literatura brasileira. Borges argumenta que o projeto se sustenta pela qualidade, além da quantidade: somente em 2006, foram realizados mais de 170 eventos em 16 cidades brasileiras. Nesta entrevista, Afonso Borges também fala sobre a potencialidade de Belo Horizonte para o turismo de eventos e diz que a “intensa” produção artística mineira precisa fazer parte das prateleiras das agências turísticas brasileiras.


— Após completar 20 anos no ofício de levar ao público obras literárias de grande importância e de receber e apresentar os mais consagrados escritores brasileiros e estrangeiros, quais os fatos que o senhor destacaria para sintetizar essas duas décadas de história do Projeto Sempre um Papo?

O Sempre Um Papo é o resultado de um sonho meu, mas que só deu certo graças aos amigos, pessoas aficionadas por literatura. Quando comecei o projeto, em 1986, o papo acontecia em um bar com 40 lugares. Era uma ação inédita na cidade, às segundas-feiras, coisa incomum também. Hoje, o Sempre Um Papo está consolidado. Temos quantidade e qualidade. Somente em 2006, fizemos mais de 170 eventos em 16 cidades brasileiras. Isso é uma vitória para Minas Gerais e para a literatura brasileira.


— Nesses 20 anos, o que aconteceu de mais relevante em se tratando de transformações e evoluções na cena literária mineira?

Creio que a internet. Hoje um autor pode ter sua home page, veicular e vender trabalhos por ela. E mais: pode segmentar seu público através dela. Existem autores que conhecem seus leitores por nome - ou por email. Quanto à briga por editar livros, nada mudou: continua como sempre, uma batalha. Mas isso não é característica da cena mineira. É normal em todo mundo. E grandes autores surgiram, como Lucas Figueiredo, Carlos Herculano Lopes, Maurício Lara, João Batista Mello, Antenor Pimenta, Marco Aurélio Baggio, Eduardo Murta, isso apenas para citar alguns, já me preparando para o rancor de quem esqueci de citar. E gente muito especial, como Luis Giffoni, um autor excepcional, com vários títulos, que decidiu tocar a sua carreira com suas próprias mãos. Constituiu um editora e ele mesmo publica e distribui.


— E na área da produção cultural?

As Leis de Incentivo à Cultura transformaram a produção cultural. Há 20 anos, eu levava um projeto de patrocínio a uma empresa e eles quase caíam na gargalhada quando percebiam que se tratava de debates e lançamentos de livros. Minas Gerais foi o primeiro Estado brasileiro a ter as Leis funcionando plenamente nos três âmbitos: Federal, Estadual e Municipal. Mas ainda falta, na minha opinião, alguém com coragem para tocar em um ponto fundamental: dar tratamento diferenciado a atividades com entrada gratuita e as que cobram ingressos na porta. Na minha opinião, esta deve ser a divisão estrutural para o funcionamento das Leis. Quem trabalha com eventos gratuitos deve ter um tratamento totalmente diferenciado nas Leis. E isso não acontece.


— Baseando-se na experiência adquirida com o Sempre um Papo, como o senhor analisa as possibilidades de Belo Horizonte vir a se tornar uma cidade referência no segmento de turismo de negócios e eventos?

Acredito muito no potencial de Belo Horizonte para o turismo de eventos e negócios. Somos exportadores de mão-de-obra na área de produção cultural há muito tempo, mas ficávamos em silêncio. Assim como o Sempre Um Papo, outros projetos que nasceram aqui estão em expansão para outros estados, como é o caso do Comida di Buteco. E são super prestigiados. Temos é que fazer mais barulho para a nossa terra, mostrar que BH sabe receber tão bem como produz. Um belo trabalho já é feito para os eventos de negócios pelas entidades de turismo, em especial o Belo Horizonte Convention & Visitors Bureau, na captação de eventos de negócios. A cada ano cresce o número de visitantes de outros estados e de outros países. Mas ainda pecamos na atração de turistas para as nossas atividades culturais. Falta colocarmos nas prateleiras das grandes agências de viagens tudo o que temos de bom para oferecer a quem visitar BH.


— Para o senhor, o que pode ser feito para que as diferentes áreas da produção cultural mineira — da literatura à música, da dança, ao teatro, além das artes plásticas e artesanato — possam se integrar ao setor de turismo como importantes e fundamentais atrativos turísticos?


Qualidade, Minas Gerais e, em especial, Belo Horizonte, tem de sobra. A intensa produção artística mineira precisa fazer parte das prateleiras das agências turísticas fora do nosso Estado. São elas que vendem os pacotes e que apresentam aos visitantes os atrativos de cada região. Se elas não falam, como as pessoas vão descobrir? Precisamos também estar mais presentes nos grandes centros econômicos nacionais. Outra possibilidade é um plano de comunicação forte, que envolva os principais órgãos e entidades de turismo local e os grandes “produtos” turísticos (culturais, gastronômicos, ecológicos, etc) do Estado. Nesse plano precisam estar inclusos campanhas de TV e rádio em rede nacional, anúncios nos principais sites turísticos e informativos do país, outdoors, mídia de aeroporto, enfim, temos que cercar todos os locais onde as pessoas buscam informações quando querem viajar. E hoje, não é só praia que interessa aos turistas: eles querem entretenimento, cultura, história, aventura. E nós temos tudo isso, e sobrando.


— Como o senhor vê projetos de incremento ao turismo em Minas Gerais c como, por exemplo, o da Estrada Real?

Projetos como a Estrada Real são estruturantes, fomentam outras iniciativas em prol do desenvolvimento turístico do Estado. É um grande passo para o crescimento de Minas Gerais em um dos setores mais promissores da economia. Temos um potencial enorme para o turismo cultural, de aventura e histórico. E a Estrada Real consegue reunir os melhores atrativos do país dos três segmentos. Acredito que, em três, quatro anos, a Estrada Real será um dos maiores roteiros turísticos do país. Mas há muito o que fazer ainda. Veja, por exemplo, os projetos da Vale do Rio Doce que incrementam a produção dos artistas do Vale do Jequitinhonha? E os projetos da MBR – Minerações Brasileiras Reunidas – que, além de estimular o turismo, por meio de Feiras do Livros e intensa programação cultural em Itabirito e Nova Lima, desenvolvem iniciativas voltadas para a formação do cidadão. Em Ipatinga, a Usiminas fez uma verdadeira revolução criativa com a implantação do Centro Cultural Usiminas, que produz uma programação cultural, como o projeto Teatro em Movimento, da Rubim Produção, que já levou àquela cidade atores do quilate de Paulo Autran. Ou seja, neste aspecto, turismo e cultura estão vocacionadas para se entrelaçar, e gerar ótimo frutos.


— Como um bom mineiro, quais as sugestões de viagem a Minas Gerais que o senhor faria a um turista?

Primeiro, para quem deseja conhecer a capital do Estado. Belo Horizonte é a porta de entrada de Minas Gerais e oferece o que há de melhor em cultura, gastronomia, artesanato e as mais diversas áreas de serviços. Quem quer conhecer Minas precisa primeiro admirar a vista panorâmica que se tem da Praça do Papa, encher os olhos com a arquitetura da Praça da Liberdade e do Conjunto Arquitetônico da Pampulha, se deliciar com o Mercado Central, assistir a um espetáculo no Palácio das Artes. Conhecer também a moderna arquitetura mineira, em expoentes como Gustavo Penna e muitos outros. Depois traçar o circuito das cidades históricas, uma a uma, tendo Ouro Preto como eixo, cidade que voltou ao seu melhor momento depois do retorno de Ângelo Oswaldo à Prefeitura. Sem esquecer do Serro, Conceição do Mato Dentro e, especialmente, Diamantina, cidade dos meus sonhos. Mas não há como deixar de lado o Triângulo Mineiro, em especial, o Grande Hotel de Araxá que, enfim, atravessa um belíssimo momento sob a administração do Ouro Minas Hotel.