Tempos nômades

Por Euclides Guimarães


É curioso, dir-se-ia tragicômico, que as últimas etapas da saga humana remontem um nomadismo apenas comparável ao das primeiras. Desde o neolítico, lá pelos 7000 A.C., boa parte da humanidade, já então espalhada por todo o planeta, havia desenvolvido técnicas que possibilitaram a vida sedentária. E devemos considerar que isso foi uma grande conquista, na medida em que a vida nômade pressupõe o mundo como um grande caos e nos mantém sob a égide de uma incômoda incerteza. Para nossos mais remotos ancestrais a vida se resolvia em um eterno presente, alegria e tristeza podiam se suceder a qualquer momento, pois tudo dependia de como a mãe natureza nos provia de dádivas ou de privações. Perambulávamos entre o sucesso e o fracasso, entre aventuras e desventuras. Era, contudo, uma vida intensa.

Depois de 10000 anos de civilização, eis que nos vemos diante de nossos mais precários problemas. Todas as formas de controle sobre o futuro revelam-se precárias e, ainda que possamos nos apegar aos finos recursos da probabilidade, enobrecendo nossas incertezas com a premissa do risco calculado, do cálculo atuarial, das distribuições de probabilidade, das séries temporais e de outros que tais, somos, como nossos ancestrais, uma raça errante, incapaz de prever o dia de amanhã.

É certo que o futuro sempre foi incerto, mas em outros tempos pudemos contar com crenças e hábitos capazes de aplacar esse drama barroco. No que se refere às crenças, inventamos linhas, pêndulos e espirais para pensar o tempo. Com os hábitos demos operacionalidade a essas crenças e vimos gerações se sucederem em relações previsíveis, muitas vezes cruéis, mas previsíveis. Esses tempos passados têm profundas marcas fincadas no nosso, especialmente a modernidade com suas organizações pensadas, sua racionalidade cartesiana, seus saberes sofisticados e suas rígidas instituições disciplinares. No entanto, nem raízes podem manter sua solidez na fluidez generalizada da contemporaneidade.

Talvez o nosso tempo venha a ser reconhecido como aquele em que as imagens tomaram o lugar das coisas e as pessoas passaram a viver como personagens, oscilando tropegamente entre paisagens e cenários, vestindo avatares e se amando ou odiando por seu intermédio, incapazes de separar o que é real do que é fictício. Talvez seja lembrado apenas como o momento da constatação de que tais fronteiras nunca existiram.

Mais importante que o que sabemos ou o que sabemos não saber, é como agimos em face das orientações de conduta que essas ignorâncias nos indicam. Quando achamos que sabemos, seguimos ou questionamos valores e normas, criando nossos filhos de acordo com convicções, produzindo a própria vida como uma rotineira tarefa em que cada gesto se alinha aos comandos da “cartilha”. Quando sabemo-nos ignorantes, tendemos a proporcionar aos filhos não a ordem, mas o caos. Temos boas razões para considerar a juventude atual como os filhos do caos.

No caos contemporâneo somos livres e solitários, temos amparo, mas estamos órfãos.

Os jovens de hoje, bebês ou crianças no dia da queda do Muro de Berlim, cresceram nas inéditas condições do novo caos a que nos referimos. Criados menos pela escola que pelas mídias, em vez de cartilhas, tiveram canais. Em cada canal uma ética, em cada um uma estética, em cada site um insight, e apenas uma sintonia comum a todos, a propaganda. Com ela somos levados a agir não pela norma, não pela imposição, mas pela sedução. Também com ela atingimos a auge de uma sociedade voltada para o indivíduo. Os bem e os mal sucedidos distinguem-se, sobretudo, pela capacidade e oportunidade de satisfazer seus próprios desejos, ou talvez não tão próprios, uma vez que se consubstanciam em produtos prontos, ofertados pelos tais canais estetizados das mídias, das embalagens, dos territórios virtuais, dos ritos modelares, dos supermercados.

O indivíduo enfrenta então um desafio inédito: extrair ordem do caos. E se o caos está no mundo que o envolve, a ordem deve ser buscada no mundo interior. O nômade se olha, pois em si mesmo mora tudo o que de fixo lhe resta. Como o marinheiro, que era o único nômade em um mundo onde tudo o mais era fixo, ele se tatua. Tatuar é escrever no corpo com imagens que não podem ser apagadas, sua própria saga. O marinheiro tinha de fixo o seu corpo e nada mais. Em cada ancoragem uma história, um amor, uma trama. Não seria esta a sina do homem contemporâneo?

Desde os anos 60 o jovem se difere por vários aspectos comportamentais. É claro que a primeira juventude de atitude influencia as demais, mas há traços bem específicos no comportamento do jovem contemporâneo, como a tatuagem e demais adornos corporais, a vida na tela, as organizações tribais e os esportes radicais. Nesses últimos se revela a relação mais conspícua de nosso tempo: o indivíduo em diálogo consigo próprio.

Nos esportes tradicionais o jogador se depara com o talento de um adversário em iguais condições, nos esportes radicais, via de regra, o adversário está em si mesmo. É preciso vencer os próprios medos, superar suas limitações. Por esse caminho a adrenalina, até bem pouco tempo palavra adstrita ao jargão da medicina, vai se tornando uma meta, um gozo especial, ganhando sentidos para os quais devem se atentar os psicólogos, os sociólogos, ou quem mais se interesse por compreender esses estranhos caminhos da juventude. Na sistemática da navegação pelo caos, não é estranho que o estranho já não cause tanto estranhamento.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC - MG