Canções para a Estrada Real

Por Andréa Rocha
Fotos Miguel Aun

O CD Estrada Real de Villa Rica, de Celso Adolfo, é composto de 16 composições inspiradas na diversidade rítmica, poética, melódica e harmônica da música produzida em Minas nos séculos 17, 18 e 19.


Desde que foi apresentado como um dos mais sólidos projetos turísticos de Minas dos últimos tempos, o Estrada Real motivou a criação de uma série de abordagens, eventos e publicações. A culinária, a cachaça, as fazendas, os trajetos, as cidades históricas, a natureza... Várias faces desses caminhos começaram a ser desvendados ao público.

No entanto, faltava uma produção musical que pudesse traduzir o universo cultural de Minas nos tempos áureos da Estrada Real.

Faltava. O músico Celso Adolfo prepara para o primeiro semestre de 2007 o lançamento de um CD, Estrada Real de Villa Rica, composto de 16 composições inspiradas na diversidade rítmica, poética, melódica e harmônica da música produzida em Minas nos séculos 17, 18 e 19.


Ciclo do ouro mineiro

A nova música de Celso Adolfo passeia por um período em que Portugal controlava com mãos de ferro os passos de mineiros e aventureiros que transitavam pela Estrada Real, antes e durante o ciclo do ouro mineiro.

Em Entradas e Bandeiras, o compositor nos faz reviver a aventura dos que atravessaram a Serra da Mantiqueira em busca de riquezas. “Gente, boi, carroça e montaria,/ pedregulho, pedra, cal e cantaria,/ tudo, um dia tudo sumiria./ Ouro que esse dia repartisse/ Motivara mais ganância e mais paixão/ Ouro da manhã de outro dia/ aumentara cada instante de ilusão”.

Todas as letras dos CDs fazem referência direta a passagens da Estrada Real, seja através de lembranças dos ambientes, dos negros, do ouro, poder e ilusão. Na canção, “Estrada Real de Villa Rica”, temos a medida do controle português pelos caminhos de Minas. “Vigiando o ouro, cercando a passagem/ soldado na serra não deixa passar... Em Batuque de Catas Altas, revela-se outra aventura, a dos negros que fugiam do jugo português. “Nego Congo esperando na noite/ esperando o dia acabar/ enfiado no meio do mato/ esperando a noite chegar.


Espírito interiorano

Esses temas, como a colonização portuguesa nas Minas Gerais, a aventura dos desbravadores e a luta pela liberdade, são inaugurais na discografia de Celso Adolfo. E distinguem-se, ainda mais, da música difundida pelas rádios. “As melodias têm espírito interiorano”, sintetiza Celso Adolfo. Segundo ele, os duetos, os jogos vocais e os acordes resultam numa audição confortável. “Mas sem o lugar comum, que não tem graça. Isso não está nesse CD”.

A motivação para a produção de um disco como esse — com temática e musicalidade situadas num determinado tempo e espaço — não foi apenas o projeto Estrada Real. A própria vivência do artista deu a ele memória afetiva e sensorial, além de instrumentos para realizar essa reconstrução musical.

Natural de São Domingos do Prata, localizado num raio de 60km de Mariana e Ouro Preto, e nas proximidades do Caraça, de Gongo Soco e Santa Bárbara, Celso Adolfo desde cedo ouviu nas igrejas a música sacra composta no período colonial mineiro. “Sou vizinho da história que motivou esse CD. E estar perto de Ouro Preto é o ponto de partida de tudo que me atraiu na história que se passou em Minas Gerais”, explica.

O CD, composto de 16 canções, começou com “Terras Altas da Mantiqueira”, com citações dos bandeirantes Fernão Dias e Borba Gato, que são personagens inaugurais da história de Sabará. Partindo desse ponto, o artista começou uma grande viagem musical ao passado, de onde buscou inspiração para todas as outras canções.

O CD Estrada Real de Villa Rica será lançado em 2007, mas somente depois do lançamento de outro CD, já finalizado, que se chama “Voz, violão e algumas dobras”. Já no primeiro semestre de 2007, Celso Adolfo partirá para uma turnê, primeiramente cumprindo parte do roteiro mineiro da Estrada Real, depois ampliando as apresentações para fora do Estado.