De onde primeiro se avista o sol

Conhecida por suas estâncias hidrominerais e sua produção de doces, terra dos índios ‘Arachás’ e de Dona Beja, a cidade do triângulo mineiro é um manancial turístico a ser desfrutado. A bacia do Barreiro é um dos maiores complexos termais do mundo, e é lá que fica o famoso Grande Hotel, que agora faz parte da Rede Ouro Minas de Hotéis. O resort é um dos mais completos do Brasil em termos de opções e, junto a ele, formando todo o complexo de atrações locais, estão a pista de vôo Horizonte Perdido, o artesanato local e a hospitalidade de uma cidade rica em cultura e história.

Reportagem Rúbia Piancastelli
Fotos Daniel Mansur

Hoje com cerca de 80 mil habitantes e um turismo em pleno desenvolvimento, a cidade de Araxá sempre foi um pólo de muitos atrativos. Os primeiros a chegarem na região foram os bandeirantes que incrementaram uma verdadeira corrida do ouro; com eles, vieram os tropeiros; com a decadência da mineração chegarm os fazendeiros, que transformaram a localidade em um entreposto comercial entre São Paulo, Goiás e Mato-Grosso e as demais regiões litorâneas do Sudeste. Terra dos índios Araxás, primeiros habitantes da região, o povoado começou a crescer e, em 1916, a cidade tinha um significativo número de habitantes, 18 mil. Na época, era um somatório que gerava inspiração para mudança e progresso.

Por trás do prestígio da cidade, marcada em sua história por ser um centro de importantes articulações políticas e intelectuais, estão grandes nomes de diversos campos do conhecimento.

O pesquisador alemão Von Eschwige, no início do século XIX, foi o responsável pelo primeiro registro científico das águas da bacia do Barreiro, manancial a cinco quilômetros da cidade de Araxá. Logo formou-se uma estância na borda de um vulcão extinto, e o lugar virou referência para tratamento de saúde. Estudos posteriores comprovaram as propriedades terapêuticas das águas do Barreiro. Por volta de 1890 é divulgado o primeiro tratamento crenoterápico (do grego krenen = fonte, e therapeia = tratamento) de Araxá. A partir daí a cidade nunca mais deixou de fazer uso das preciosas águas sulfurosas, magnesianas e radioativas.


Centro de política

O Balneário de Araxá, construído em 1912 pela Empresa das Águas, não tinha o porte do atual, mas suas fontes nunca deixaram de levar saúde aos visitantes, responsáveis também por vitalizar o comércio da cidade. Foi pela importância medicinal das águas que em 1935 foi lançada a idéia da construção do Grande Hotel do Barreiro, que teve as terras compradas pelo Estado. Iniciaram-se então as melhorias locais, com a proteção das fontes, construção de casas de banho e hotéis. O objetivo era incrementar o turismo e captar recursos para o município. Já com as terras desapropriadas, em 1944 o Balneário é inaugurado pelo presidente Getúlio Vargas; no ano seguinte o Grande Hotel abre suas portas.

Antes de tornar um complexo turístico totalmente dedicado ao lazer, tratamentos e negócios, o hotel era um grande centro de eventos políticos e encontros sociais. Sob a arquitetura italiana de Luiz Signorelli e o paisagismo de Burle Marx, circularam por lá quase todos os presidentes brasileiros e da América Latina na década de 70. Os reis do futebol também colocaram seus pés na terra de Dona Beja. Pelé, Didi, Garrincha e Zagalo e os outros craques da selação canarinho fizeram lá a preparação para Copa de 58, na Suécia.


Dona Beja, mítica heróina

A história de Araxá é marcada por uma mítica personagem: Anna Jachinta de São José, a Dona Beja. Tudo que se refere a ela é envolto em mistério. Não existem, por exemplo, provas documentais sobre sua infância e adolescência. Sabe-se que Beja nasceu em Formiga, em 1800, filha de Maria Bernarda dos Santos, e que teve um irmão, Francisco Antonio Rodrigues. Com pouca documentação que prove sua saga, mas cercada de histórias populares, Beja era dona de grande beleza e sensualidade.

O registro de batismo da primeira filha natural de Anna Jachinta foi a referência inicial de Beja em Araxá. Thereza Thomásia de Jesus foi batizada na Igreja Matriz de São Domingos em 1819. Em 1831, essa filha foi legitimada por Francisco José da Silva, conforme conforme escritura lavrada em cartório. Solteira, Beja teve outra filha, de nome Joana de Deus de São José, nascida e batizada em 1838.

Tudo indica que Anna Jachinta realmente alcançou uma posição de destaque na sociedade Araxaense, pois os casamentos das filhas são dados reveladores. As duas foram casadas com pessoas influentes da cidade.

Anna Jachinta construiu, por volta de 1830, o sobrado na Praça da Matriz, local das principais edificações da cidade. Em 1965 foi transformado em museu por Assis Chateaubriand e hoje é sede do Museu Dona Beja, um importante atrativo turístico da cidade. Há ainda o registro da legendária Chácara do Jatobá, localizada na sesmaria de Bebedouro, próxima à Vila de Araxá, onde a dama recebia como cortesã os poderosos da região. As histórias da influência política de Dona Beja são muitas. Mas a tão propalada influência da então adolescente Anna Jachinta na devolução do triângulo mineiro a Minas Gerais não se confirma. A verdade é que o ouvidor Inácio Mota, temendo ser destituído do cargo, conseguiu a assinatura do governador de Goiás, reitegrando a região a Minas.

Anna Jachinta mudou-se para Bagagem durante a corrida do diamante. Outras referências sobre ela aparecem em documentos importantes. Um é sobre o processo de reclamação de herança contra o Coronel Fortunato José da Silva, líder político de Araxá, por ocasião da morte de sua esposa, Theodora Fortunata da Silva, neta de Beja. O outro é uma solicitação de ressarcimento de dinheiro empregado por ela na construção de uma ponte sobre o Rio Bagagem, em 1873. Existem ainda uma escritura de compra e venda do sobrado de Araxá e da escrava Paulina (1864), a cópia de seu testamento (1869) e a certidão de seu inventário. Beja morreu em 1874, aos 74 anos, em Bagagem, hoje a cidade de Estrela do Sul.


Vocação para o turismo

Araxá, em tupi-guarani “a terra de onde primeiro se avista o sol”, tem grande vocação para o turismo, e aí inclui-se a valiosa ajuda da natureza e o investimento em infra-estrutura para a prática de esportes de aventura. Cercada por atrativos naturais como a Serra da Bocaína e a Serra da Canastra, a cidade localiza-se entre duas grandes bacias hidrográficas, a Bacia do Rio Grande e Bacia do Rio Paranaíba, ambas com grande potencial hidrelétrico. O município possui uma área de proteção especial para fins de preservação de seus mananciais e ainda um outro ponto turístico de onde se tem uma bela vista, o Parque do Cristo.


Esportes de aventura

Os ventos da Serra da Bocaína, belíssimo cenário a 1.359 metros, são excelentes para a prática de vôo livre — paraglider (parapente) e asa delta, modalidades que necessitam de altitude para serem praticadas. Do alto do lugar chamado Horizonte Perdido acontecem provas do Circuito Brasileiro de Parapente, que consegue reunir cerca de três mil pessoas entre competidores e público. Em seus vales, por onde correm as águas que banham a região, há uma densa mata, rica flora e fauna, onde vivem tatus, tamanduás, emas, perdizes e saracuras.

O Horizonte Perdido — dono de uma das melhores rampas de vôo livre, segundo os experts e freqüentadores — fica a 24 km do centro da cidade via a estrada Araxá-Tapira. Nas encostas da serra também pratica-se escalada e rapel, existem lindas trilhas ecológicas e belas cachoeiras. Dois restaurantes, cujas varandas se voltam para o vale, completam os atrativos. Há ainda playground, estacionamento coberto e instalações para portadores de necessidades especiais.


Passeios

Já o Parque do Cristo fica no alto de uma colina decorada pela imagem de Jesus Cristo com os braços abertos voltado para a Igreja da Matriz; um monumento a Nossa Senhora de Fátima, construído por Ruy Ohtake; a Casa do Caminho, obra humanitária desenvolvida por José Tadeu Silva. Além de cenário da religiosidade, o local é conhecido por ter uma das mais belas vistas de Araxá. Ainda conta com área de lazer e um restaurante com vista panorâmica.

O Parque Nacional da Serra da Canastra fica a poucas horas da cidade. É mais uma rica opção de passeio. É um ótimo programa percorrer as estradas que serpenteiam a serra, revelando suas espécies de fauna silvestre, flora e cachoeiras como a famosa Casca D’ anta. A Canastra é ideal para quem quer praticar trekking, mountain bike, rapel e cannyoning.



Vista Panorâmica do Grande Hotel.


O sobrado construído por Dona Beja, hoje o museu dedicado à heroína de Araxá.

Horizonte Perdido: vôo livre.


Araxá revela as mais lindas paisagens.

Fachada do Museu dedicado ao artista plástico Calmon Barreto.


Doce Araxá e outras artes:
› Leia reportagem

O imponente e belo Ouro Minas Grande Hotel e Termas de Araxá.


Eterno Grande Hotel:
› Leia reportagem