Raro deslumbramento

Minas Gerais é um dos estados brasileiros mais ricos em grutas, lapas e cavernas. Permeando regiões e municípios de grande beleza, com cachoeiras, cerrado, campos rupestres ou montanhas — entre tantas outras paisagens naturais — estão cerca de duas mil cavernas. Esses ambientes são ainda pouco conhecidos pela população, mas continuam a despertar a atenção de turistas, pesquisadores e estudiosos, que buscam em suas entranhas um pouco da história da vida na Terra.

Reportagem Andréa Rocha
Fotos Henry Yu


Por sua formação geológica, de grande extensão calcária, denominada Província Bambuí, Minas Gerais concentra a maior parte das grutas e cavernas do país. Das 4.030 catalogadas pela Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), nada menos que 1.633 estão concentradas em Minas Gerais. Estados vizinhos como São Paulo, Goiás e Bahia também registram grandes incidências dessa formação geológica.

No município onde nasceu Guimarães Rosa, Cordisburgo, destaca-se uma das mais famosas grutas de Minas Gerais, a gruta de Maquiné. Localizada a menos de 100 quilômetros de distância de Belo Horizonte, na região central do Estado, foi a primeira gruta iluminada do Brasil. Mas muito antes disso, a gruta já era conhecida pelas importantes pesquisas paleontológicas promovidas pelo cientista Peter Wilhelm Lund, em meados do século passado.


Vale do Peruaçu

Mas é no noroeste de Minas, à margem esquerda do Rio São Francisco, no cânion rasgado pelo rio Peruaçu, que se encontra o mais espetacular conjunto de cavernas e sítios arqueológicos do Brasil. O Vale do Peruaçu (leia reportagem mais adiante) é uma  sucessão de arcos, torres, pontes naturais, paredões e centenas de cavernas. A mais fascinante delas é a Gruta do Janelão, com gigantescos espaços vazios, dolinas e espeleotemas. Está nesta gruta a maior estalactite do mundo, com 28 metros.

Segundo o Cadastro Nacional de Cavernas do Brasil (CNC), estão na Bahia as quatro maiores cavernas do país (em extensão), sendo a maior delas, a Toca da Boa Vista, em Campo Formoso, com 102.500 metros. Em Minas, a maior gruta, com 9.100 metros, é a de  Olhos D`água, localizada no município de Itacarambi. Mas estão em Minas as três maiores grutas do país, em profundidade: a do Centenário, em  Mariana, com 481 metros de altura; a da  Bocaina, na região de Mariana/Catas Altas, com 404 metros; e a Gruta  Alaouf, também em Mariana, com 294 metros de queda. 


Circuito das Grutas

A inesperada beleza e a aura de mistério que envolvem essas formações rochosas atraem cada vez mais a atenção dos turistas. Seja pela aventura de desbravar territórios pouco conhecidos e habitados; seja pelo deslumbramento provocado pelos labirintos, paredões, estalagmites e estalactites. Atenta a este crescente interesse, a Secretaria de Estado do Turismo de Minas Gerais oficializou recentemente o Circuito das Grutas, composto por 14 municípios mineiros.

O Circuito das Grutas foi o 23º, dos 52 circuitos turísticos, existentes em Minas, a receber o Certificado de Reconhecimento, pela Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais.  Com a certificação, os municípios podem captar recursos com os órgãos oficiais e empresas privadas de crédito para treinamento de mão-de-obra, implantação de equipamentos turísticos — pousadas, hotéis, restaurantes, lanchonetes —, além de facilitar os investimentos em divulgação, promoção e sinalização turística.


As fascinantes grutas do circuito
As grutas de Maquiné, Lapinha e Rei do Mato são as principais atrações.

Integram o Circuito das Grutas os municípios de Caetanópolis, Capim Branco, Confins, Cordisburgo, Funilândia, Inhaúma, Jequitibá, Lagoa Santa, Matozinhos, Paraopeba, Pedro Leopoldo, Prudente de Morais, Santana de Pirapama e Sete Lagoas.

Três das mais famosas grutas de Minas Gerais estão nesse circuito: Maquiné, em Cordisburgo; Lapinha, em Lagoa Santa; e a gruta do Rei do Mato, em Sete Lagoas, abertas à visitação pública. Devem ser citadas ainda as grutas Irmãos Piriás e Escadas, em Matozinhos; Morena, em Cordisburgo; Túneis e Pacas, em Lagoa  Santa; Baú e Jardineira, em Pedro Leopoldo.

Nessas grutas, as surpresas do subsolo revelam rios, cachoeiras, formações calcárias, inscrições e pinturas rupestres, ossadas de animais extintos, além das magníficas formações de estalactites e estalagmites. Ao optar por esse circuito, o visitante conta com  infra-estrutura hoteleira e está próximo de outros circuitos com grande potencial turístico, como o do Parque Nacional da Serra do Cipó e o Circuito dos Diamantes.


Gruta da Lapinha (Lagoa Santa)

A Gruta da Lapinha é um dos mais belos atrativos turísticos de Lagoa Santa, município com 45 mil habitantes, pertencente à Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Distante apenas  37 km da capital mineira, Lagoa Santa também fica muito próximo do Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, e das belezas naturais da Serra do Cipó.

A gruta da Lapinha, que fica a apenas 20 minutos de Lagoa Santa,  tem 40 metros de profundidade e 511 metros de extensão. Segundo contam, o cientista dinamarquês Peter Lund teria afirmado que nunca tinha visto “coisa tão bela e magnífica nos domínios da natureza e da arte”.

Para constatar, com os próprios olhos, um pouco do que o cientista teria visto na gruta da Lapinha, em meados do século passado, o turista hoje conta com infra-estrutura turística adequada e com o apoio de condutores capacitados para oferecer informações qualificadas e transmitir um pouco de conhecimento científico. Segundo a Prefeitura Municipal de Lagoa Santa, também foram intensificados os esforços de proteção ambiental, com a adoção de novas regras de visitação. 


900 milhões de anos

A gruta da Lapinha é composta de barro e resíduos do fundo do mar acumulados ao longo de 900 milhões de anos. Seus salões foram batizados de acordo com suas formações naturais: salão da Couve-Flor; Salão das Cortinas; dos Carneiros, entre outros.

O maior pesquisador das grutas e cavernas da região, morador da cidade por mais de 40 anos, foi Peter Lund, considerado o pai da paleontologia no Brasil. Seus estudos resultaram num catálogo composto por aproximadamente 120 espécies de fósseis e 94 de fauna somente das grutas. Sua coleção, com mais de 14 mil peças ósseas, foi enviada para a Dinamarca. E o bairro Lundicéia, onde o estudioso viveu, acabou virando ponto turístico de Lagoa Santa.

Além das grutas e dos registros históricos das descobertas científicas, a região guarda ainda outro tesouro. A 54 km de Lagoa Santa, fica o exuberante Parque Nacional da Serra do Cipó, repleto de riquezas arqueológicas e belezas naturais como o rio Cipó, cachoeiras, corredeiras e exemplares raros e endêmicos da fauna e flora, entre elas a Sempre-Viva.


Área de Proteção Ambiental Carste

Para preservar esse legado, foi criada em 1990 a  Área de Proteção Ambiental Carste de Lagoa Santa e áreas circunvizinhas. A APA engloba os territórios parciais de cinco municípios (Pedro Leopoldo, Matozinhos, Lagoa Santa, Confins e Funilândia) perfazendo um total de 363 km2. Como o próprio nome indica, a APA é uma área de carste, rica em dolinas, sumidouros e paredões. Na região foram descobertos vestígios de fósseis humanos e de animais pré-históricos que viveram há 25 mil anos, juntamente com sítios, cavernas e pinturas rupestres. A descoberta se deu em 1834, justamente pelo espeleólogo dinamarquês Peter Lund.

O carste de Lagoa Santa tem um significado especial para a história da ciência e da cultura do povo brasileiro. A região é considerada o berço da paleontologia, arqueologia e espeleologia. É a região do país onde atualmente se registra o maior número de cavernas por área. Essa aglomeração de grutas e abrigos guarda grande quantidade de fósseis pleistocênicos, entre eles a chamada megafauna extinta, e os vestígios mais importantes da ocupação humana pré-histórica no Brasil, que incluem painéis rupestres, utensílios e ossadas.


Gruta de Maquiné (Cordisburgo)


Localizada em Cordisburgo, a 121 quilômetros de Belo Horizonte, a gruta do Maquiné sempre foi muito procurada por turistas, mas somente em 1967 recebeu investimentos mais expressivos do governo do Estado para a implantação de uma infra-estrutura turística. Foi a primeira gruta brasileira a ser preparada para essa atividade. Em 1999, a Cemig implantou um moderno sistema de iluminação para realçar a beleza do seu interior e oferecer mais segurança aos seus visitantes, sem muita interferência no meio ambiente.

A Gruta do Maquiné tem cerca de 650 metros de galerias e salões, boa parte abertos à visitação pública. Os poucos locais não visitados pelos turistas apresentam algum tipo de dificuldade como teto baixo, pontos muito altos e locais de difícil acesso.

A Gruta possui sete salões explorados. As passarelas possibilitam aos visitantes vislumbrarem, com segurança, todo o percurso, que é conduzido por um guia local. Estão abertos à visitação os salões do Vestíbulo, das Colunas, do Trono, do Carneiro,  dos Lagos,  das Fadas e o Salão Dr. Lund. De todas as sete câmaras, a sexta, considerada “Salão das Fadas”, merece atenção especial.


Fósseis de animais pré-históricos

No “Salão das Fadas” o pesquisador Peter Lund encontrou grandes ossadas de animais, inclusive os restos de um megatério — a atual preguiça — que teria mudado os rumos dos seus estudos. O cientista foi o maior responsável pela exploração científica da Gruta do Maquiné, em 1834, onde foram encontrados vários fósseis de animais pré-históricos.

“E, mais do que tudo”, nas palavras do escritor Guimarães Rosa, “a Gruta do Maquiné — tão inesperadamente grande, com seus sete salões encobertos, diversos, seus enfeites de tantas cores e tantos formatos de sonho, rebrilhando risos de luz — ali dentro a gente se esquecia numa admiração esquisita, mais forte que o juízo de cada um, com mais glória resplandecente do que uma festa, do que uma igreja.”   


Gruta Rei do Mato (Sete Lagoas)

A gruta Rei do Mato está localizada no município de Sete Lagoas, a apenas 70 quilômetros de Belo Horizonte. A gruta possui quatro salões e uma extensão de 220 metros. No interior pode-se observar estalagmites, estalactites e cascatas de pedras calcárias. Algumas de suas belezas estão bem representadas no quarto salão, com 100 metros de comprimento, onde há formações raras, como duas colunas cilíndricas e esbeltas compostas por cristais de calcita. Esse tipo de formação é uma raridade no mundo. Inscrições rupestres, na grutinha, completam o conjunto da Rei do Mato. Acredita-se que a Gruta Rei do Mato tenha sido descoberta no final da década de 20, mas a abertura para visitação pública aconteceu apenas em  1988.  Para evitar variações térmicas que afetam o ecossistema a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) preparou um sistema de iluminação específica, que protege o meio ambiente.



O Vale do Peruaçu é uma sucessão de arcos, torres, pontes naturais, paredões e centenas de cavernas. (Foto Henry Yu)


A gruta de Maquiné, em Cordisburgo, já era conhecida pelas importantes pesquisas paleontológicas promovidas pelo cientista Peter Wilhelm Lund, em meados do século passado. (foto Henry Yu)

A gruta da Lapinha, que fica a apenas 20 minutos de Lagoa Santa, tem 40 metros de profundidade e 511 metros de extensão. Na foto, a formação cascata. (Foto Henry Yu)


O salão das colunas na gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas. A gruta possui quatro salões e uma extensão de 220 metros. (Foto Henry Yu)

› Vale do Peruaçu
O Carste é um tipo de paisagem comum em regiões onde ocorre muito calcário, que é uma rocha sedimentar encontrada em diversas regiões do Brasil, especialemente em Minas Gerais. (Foto Henry Yu)


As pinturas rupestres são tesouros arqueológicos existentes na província Cárstica de Arcos -Pains-Doresópolis. (Foto Henry Yu)

› Esculturas de calcário
Formação cortina na gruta de Balé, em Matozinhos. (Foto Henry Yu)


Carste
Formação pata de elefante na gruta de Maquiné. (Foto Henry Yu)

› Patrimônio Espeleológico
O carste é uma região de calcário de mais de 500 milhões de anos por terrenos posteriores. Na foto, a formação conhecida como dolina, no Vale do Peruaçu. (Foto Henry Yu)