Fabulosa biodiversidade ameaçada

O clima, o relevo, a abundância das águas e a vastidão do Estado de Minas Gerais promoveram o aparecimento de um conjunto de vegetação, considerado o mais diversificado do país. É o único estado do Brasil onde é possível encontrar três grandes biomas: a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga, que dividem espaço com suas inúmeras formações fitoecológicas, responsáveis por incontáveis tipos de paisagens. É por isso que a flora de Minas Gerais é tão rica, e conseqüentemente, a fauna. Riquezas tais que ainda estão fortemente ameaçadas.

Reportagem Carolina Godoi
Fotos Roberto Murta


Segundo a Fundação Biodiversitas, a situação brasileira, no que diz respeito à conservação de biodiversidade, é uma das mais graves do mundo. As ações da Biodiversitas abrangem pesquisas sobre espécies da fauna, flora e ecossistemas brasileiros; identificação de espécies ameaçadas de extinção e áreas prioritárias para conservação de biodiversidade; criação e manejo de unidades de conservação; planejamento ambiental; educação ambiental; e sistemas de informação geográfica. A Fundação explica que “em Minas Gerais, a ocupação territorial e a conseqüente pressão sobre as formações vegetais nativas foram influenciadas pela expansão das atividades agropecuárias, a produção de matérias-primas e de insumos de origem vegetal, a expansão urbana e a produção mineral.”


Drásticas transformações

O Secretário Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, José Carlos Carvalho, contudo, procura mostrar o que já foi alcançado nos dias de hoje. Segundo ele, Minas Gerais já conseguiu importantes mudanças como a modernização dos aparelhos de Estado responsáveis pela conservação e defesa do Patrimônio Natural. “Minas pode se orgulhar de ter um arcabouço legal e uma estrutura operacional invejável em termos nacionais voltados para a conservação da natureza, e continuamos batalhando para que os recursos humanos responsáveis pelo funcionamento dessas estruturas adquiram progressivamente uma competência exemplar”, diz. O maior desafio, de acordo com ele, é a conscientização de toda sociedade para que ela possa ser o principal agente da conservação do meio em que vive.

Apesar dos avanços atuais na legislação do Estado, no passado, a sua paisagem sofreu drásticas transformações. Isso porque adotou um modelo de desenvolvimento que não levou em conta as questões ambientais. De acordo com a Fundação SOS Mata Atlântica, no ano de 2002 foi verificado um desmatamento de aproximadamente 121.000 hectares, 2,8% somente no período de 1995 a 2000. A Fundação também avalia como crítica a situação da Caatinga e a dos campos rupestres.


Exploração desordenada

Essa exploração desordenada do território brasileiro ainda é uma das principais causas de extinção de nossas espécies. O desmatamento e degradação dos ambientes naturais, o avanço da fronteira agrícola, a caça de subsistência e a caça predatória, a venda de produtos e animais procedentes da caça ou captura ilegais na natureza, além da introdução de espécies exóticas em território nacional são fatores que participam de forma efetiva do processo de extinção. O Ministério do Meio Ambiente alerta que este processo vem crescendo nas últimas duas décadas à medida que a população cresce e os índices de pobreza aumentam. Uma forma de se perceber o efeito da exploração desordenada das áreas nativas sobre a fauna residente é o acréscimo significativo do número de espécies na lista oficial de fauna silvestre ameaçada de extinção. Essa lista foi revisada, pelo IBAMA e Ministério do Meio Ambiente, em parceria com a Fundação Biodiversitas e a Sociedade Brasileira de Zoologia, com o apoio da Conservation International e do Instituto Terra Brasilis. Em 2005 o “Biodiversidade em Minas Gerais – Um Atlas para sua Conservação” foi revisado e novas espécies e áreas ameaçadas foram incluídas. A lista assume, desta vez, características dinâmicas, orientando os programas de recuperação das espécies ameaçadas, as propostas de implantação de unidades de conservação, as medidas que atenuem os impactos ambientais e os programas de pesquisa. O Atlas assim se torna também um elemento de referência na aplicação da Lei de Crimes Ambientais.


Mamíferos

O Atlas para a conservação da biodiversidade em Minas Gerais coloca a fauna de mamíferos brasileira como líder do ranking mundial. 11% de todas as espécies existentes no mundo ocorrem no país. Em Minas Gerais são 243 espécies conhecidas, ou seja, 46% daquelas conhecidas no país. Dessas, 40 estão ameaçadas de extinção. O motivo da principal ameaça está nas constantes ações de desmatamento das nossas florestas.

Os grupos que estão com maior risco de extinção são aqueles de grande porte, como carnívoros e primatas. Entretanto, é importante citar que a revisão do Atlas registrou uma nova espécie, o Potos flavrus (jupará ou macaco-da-noite) na divisa do Estado do Rio de Janeiro, região de Tombos. Destaca-se também o primeiro registro confirmado de Chaetomys subspnosus (ouriço preto) na região de Bandeira e de Leontopithecus chrysomelas (mico-leão-da-cara-dourada) na região de Salto da Divisa.

No total foram 50 áreas indicadas como prioritárias para a conservação de espécies de mamíferos em Minas Gerais, 15 a mais do que o Atlas divulgou em 1998.


Aves

Mais uma vez, a diversidade de aves no Estado se explica pelo fato de que Minas Gerais engloba parte dos biomas do Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga. De acordo com Sick (1997), quase metade das 1.678 espécies brasileiras estão em Minas.

São 106 espécies na lista vermelha. As de maior porte, como alguns jacuns e mutuns, estão entre as mais afetadas por causa da fragmentação das florestas. Além disso, a caça predatória e a captura de animais pequenos, para criação em cativeiro, são consideradas duas das maiores razões do declínio populacional da avifauna mineira. Desde 1998, mais 32 espécies foram incluídas na lista de aves ameaçadas de extinção. Prova de que levar para casa o som e a música das nossas florestas, está custando caro demais para a natureza.

A região do Triângulo Mineiro teve mais da metade do seu habitat natural convertido em plantações ou pastagens. Isso explica o agravamento da situação, que inclui ainda espécies de grandes frugívoros – como papagaios, araras e araçaris – e pequenos passarinhos, como o Sporophila frontalis (pixoxó ou catatau) e o Oryzoborus maximiliani (bicudo).

As áreas prioritárias para a conservação somam um total de 111. Na Mata Atlântica, um complexo de áreas de Extrema Importância Biológica estão nos Parques Estaduais do Rio Doce e da Serra do Brigadeiro, além da região do Jequitinhonha. No Cerrado, o destaque vai para a região cárstica de Lagoa Santa e o centro-norte e oeste do Triângulo. Já na Caatinga, destacam-se a região do Jaíba, a bacia do Rio Peruaçu e as matas das margens do baixo rio São Francisco e a região de Janaúba.


Répteis e Anfíbios

Nada menos do que 750 espécies de anfíbios e 650 espécies de répteis. Assim o Brasil se coloca como representante da maior riqueza biológica do mundo. Os dados de hoje em Minas Gerais apontam 200 espécies entre anuros (sapos, rãs e pererecas) e cobras-cegas (anfíbios sem pernas), o que representa quase 1/3 das mais de 600 espécies existentes no país. Além disso, são 180 espécies de répteis (serpentes e lagartos).

É na Mata Atlântica que se encontram 70% das espécies de anfíbios do Estado. Essa riqueza pode ser explicada pela abundância da água, ambientes úmidos e diversidade de árvores.

Um estudo recém concluído sobre a biodiversidade de répteis no Cerrado mostra que a riqueza desses animais no bioma é muito superior aos últimos registros oficiais. As amostragens, obtidas ao longo de sete anos esquadrinhando dez diferentes áreas em seis estados e reunindo informações em museus e na literatura, chegou  a 236 espécies, 56 a mais do que o número até então conhecido no meio científico para o grupo de Squamata, que incluem lagartos, serpentes e anfisbenas. Entre os espécimes coletados, foram registradas 20 novas, e várias espécies raras, incluindo duas serpentes cujo último registro era de 1921, e que foram fotografadas em vida pela primeira vez.

O resultado do inventário, que recebeu apoio da Conservação Internacional (CI-Brasil), oferece informações fundamentais para a conservação de répteis no Cerrado. Segundo Cristiano Nogueira, analista em Biodiversidade da CI-Brasil e autor do estudo, ao contrário do que diziam interpretações anteriores, a fauna de lagartos e serpentes depende de micro-ambientes específicos, e poucas espécies são capazes de se manter em ambientes degradados. Além disso, quase metade dos lagartos, 45%, só ocorrem no Cerrado, tendo sua sobrevivência diretamente relacionada às ações de conservação específicas para esta região.


Peixes

Em Minas Gerais, as principais informações sobre a fauna de peixes têm sido obtidas or meio de inventários solicitados pelos órgãos ambientais durante o licenciamento para a construção de usinas hidrelétricas. Se por um lado isso amplia o conhecimento, por outro, é responsável pela principal causa de impacto para a ictiofauna, segundo a Fundação Biodiversitas.

O número de espécies em todas as quinze bacias do Estado diminuiu desde o último estudo em 1998. Estima-se um total de 354 espécies, o que representa quase 12% do total encontrado no Brasil. A Bacia do Rio São Francisco apresenta o maior número de espécies: 173, seguidas das bacias do Paranaíba: 103; Grande: 88; Doce: 64; Paraíba do Sul: 55; Mucuri: 51 e Jequitinhonha: 35.

Para a proteção dos nossos peixes devem participar todos os membros da sociedade, mas é urgente a implementação de medidas que eliminem ou reduzam a poluição nos ambientes aquáticos, regulamentem as atividades de pesca e estabeleçam critérios claros para o cultivo de peixes nas trinta e três áreas prioritárias para a sua conservação em Minas Gerais.


Invertebrados

Este é outro grupo muito rico e diversificado que ainda não possui estudos satisfatórios. O número de espécies é grande, mas a extensão das ocorrências e o tamanho de cada população dificulta a identificação das áreas onde esses animais devem ser protegidos.

A estimativa no Brasil é de 107.000 a 145.000 espécies diferentes de invertebrados. Dado que pode ser ainda maior (Lewinson & Prado, 2002). Em Minas Gerais não se sabe exatamente o número, mas imagina-se que é, sim, muito alto. A lista oficial de espécies com risco de desaparecimento é de 31 invertebrados no Estado, o que representa 18% da fauna ameaçada.

Borboletas, libélulas, abelhas, heterópteros aquáticos e coleópteros, além de aracnídeos, onicóforos e anelídeos. Esses grupos foram estudados num ecossistema bastante ameaçado, o interior de cavernas, local ainda pouco estudado pelos pesquisadores. De qualquer forma, o Atlas destaca a Área Cárstica do Circuito das Grutas e seu conjunto de 21 grutas como especial e de grande relevância biológica.

São 1600 espécies de borboletas em Minas Gerais, entre elas 20 estão ameaçadas, destacando-se a Nirodia belphegor, endêmica em Minas Gerais. O grande número de libélulas – 116 espécies – foi o motivo pelo qual se incluiu o Parque Nacional Serra da Canastra na lista das áreas prioritárias para a conservação no Estado.

Há evidências também de que, devido à diversidade biológica em Minas, o número de espécies de besouros seja alto, mas a única espécie catalogada em extinção foi em 1995, o iaiá-de-cintura (Hypocephalus armatus). O animal tem grande valor comercial, e é geralmente vendido para colecionadores, aparecendo entre as regiões de Botumirim e Almenara.


Espécies exóticas invasoras

Além de se conservar as espécies de animais naturais de uma certa região é preciso impedir que outras, estranhas àquele meio-ambiente, entrem de forma ilícita. Essa é a segunda causa mundial de perda biológica no planeta. Isso muitas vezes ocorre de forma acidental, mas mesmo assim, 80% das espécies invasoras foram introduzidas voluntariamente, sem uma análise das conseqüências para o meio ambiente e a sociedade.

A Convenção Internacional sobre Diversidade Biológica tem um regulamento que consiste em impedir a entrada de espécies exóticas em um ambiente ou local. Segundo a Convenção, a melhor estratégia é ainda a prevenção, e quanto mais rápido isso for feito, melhor. A segunda estratégia é identificar precocemente e agir. Uma espécie que não pertence a um ambiente deve ser eliminada antes que possa se tornar um problema.


Contra-ataque

O IBAMA formulou estratégias urgentes para a conservação das espécies ameaçadas de extinção, sejam elas de interesse comercial ou não. Para protegê-las é preciso reduzir as taxas de risco em níveis local e regional. Conscientizar a sociedade de que é livre escolha de cada um a aquisição de animais de forma legal e consciente. E, constantemente, combater o tráfico nacional e internacional de animais silvestres.

O IBAMA incentiva o manejo em cativeiro e na natureza através do desenvolvimento de tecnologias com o propósito de viabilizar a recuperação das espécies em desequilíbrio. É necessário ainda, disponibilizar alternativas para a sua utilização sustentável para comunidades consideradas carentes.

O Atlas da Biodiversidade propõe ainda uma série de programas ou ações estratégicas setoriais, a serem efetivadas pelo poder público para a conservação da biodiversidade no estado. Algumas delas são a revisão e aprimoramento dos instrumentos fiscais e financeiros existentes, aumentar a alíquota destinada à distribuição do ICMS Ecológico (Lei Estadual nº 12.040 de 1995), definir linhas de crédito específicas para projetos de proteção à biodiversidade, ações de recuperação ambiental e financiamento de negócios sustentáveis.


Conservação da flora nativa

As diversas paisagens do Estado são recobertas por vegetações muito características que são adaptadas a cada um dos ambientes específicos. São 95 áreas consideradas prioritárias para a conservação da flora em Minas Gerais, e seis são os corredores ecológicos que conectam as Unidades de Conservação: Corredor do Espinhaço; Corredor Cerrado Noroeste; Corredor Leste; Corredor Sudeste; Corredor Mucuri/Jucuruçu e o Corredor Jequitinhonha.

O número de espécies de angiospermas que ocorrem em Minas Gerais é incerto, mas talvez haja cerca de quinze mil. A lista oficial de plantas ameaçadas de extinção em Minas Gerais apresenta 537 espécies distribuídas em 77 famílias de briófitas, pteridófitas, gimnospermas e angiospermas. Aquelas presumivelmente ameaçadas constituíram uma lista à parte, chamada Lista 2, que inclui 450 espécies distribuídas em 55 famílias (Mendonça & Lins 2000).


Diversidade genética

Segundo Miriam Pimentel Mendonça, técnica da Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte, “a principal ameaça a que estão sujeitas as espécies de todos os grupos, não só em Minas Gerais como no Brasil, é a perda do hábitat causada por pressões antrópicas das mais diversas ordens. Por exemplo, a coleta seletiva de plantas com fins ornamentais (particularmente orquídeas, bromélias e sempre-vivas) e medicamentosas (plantas medicinais) podem acarretar diminuições populacionais a níveis críticos ou mesmo o desaparecimento de espécies.”

O grande número de espécies ameaçadas de extinção e com deficiência de dados revela, segundo Miriam Mendonça, a necessidade de fontes de fomento específicas que priorizem coleções botânicas vivas e de referência. Um programa de apoio às coleções botânicas deveria, entre outras ações, promover a informatização das coleções, estimular projetos de inventários e de revisões taxonômicas, apoiar a formação de recursos humanos e ampliar programas de proteção das espécies nativas em seus habitats originais. Além de elaborar projetos visando à recuperação e preservação dos remanescentes existentes. “Em Minas Gerais, poderíamos exemplificar o caso das sempre-vivas. A família Eriocaulaceae como um todo está ameaçada, pois, com exceção de poucas espécies, a quase totalidade ocorre nos campos rupestres do Estado, em regiões sem quaisquer cuidados de proteção e conservação. Minas Gerais é o centro de diversidade genética da família. A coleta de sempre-vivas baseia-se inteiramente no extrativismo, a partir de populações naturais, e é feita por pessoas da própria região, como meio de subsistência. Medidas urgentes de controle e manejo das populações são necessárias para a conservação e o uso sustentável das espécies”, conclui.



Jaguatirica, felino ameaçado de extinção. (Foto Roberto Murta)


Tatu-Canastra: espécie ameaçada. (Fotos Roberto Murta)

São 1600 espécies de borboletas existentes em Minas Gerais. (Foto Roberto Murta)


O veado é outro exemplo de espécie ameaçada de extinção (Foto Roberto Murta)

A lista oficial de espécies com risco de desaparecimento é de 31 invertebrados em Minas Gerais, 18% da fauna ameaçada. (Foto Roberto Murta)


Em Minas Gerais são 243 esécies de mamíferos conhecidas, ou seja, 46% daquelas conhecidas no país. (Foto Roberto Murta)

A coleta seletiva de plantas com fins ornamentais como orquídeas, bromélias e sempre-vivas e medicamentosas (plantas medicinais) podem acarretar o desaparecimento de espécies. (Foto Roberto Murta)


A observação de aves, ou birdwatching, é hoje um dos maiores segmentos do ecoturismo voltado para a conservação. (Foto Roberto Murta)

Os dados de hoje em Minas Gerais apontam 200 espécies entre anuros (sapos, rãs e pererecas) e cobras-cegas (anfíbios sem pernas), o que representa quase 1/3 das mais de 600 espécies existentes no país. (Fotos Roberto Murta)


Manancial para ecoturismo Minas Gerais é um dos Estados brasileiros mais procurados para o turismo ecológico, atividade que ainda pode registrar no futuro altos índices de crescimento, tornando-se uma importante fonte de renda.
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