Preservar a biodiversidade da Terra

Por Cézar Félix
Foto Fernando Grilo


A ONG Conservation International, que atua em 40 países, é uma das mais importantes e conhecidas organizações que trabalham pela conservação da biodiversidade em escala global. A Conservação Internacional Brasil é sediada em Belo Horizonte, atua em quase todas as regiões brasileiras e tem escritórios em outras quatro capitais: Salvador, Belém, Campo Grande, além de Brasília. Há 12 anos na CI Brasil, o biólogo Luiz Paulo de Souza Pinto — formado na UFMG com mestrado em ecologia, conservação e manejo de vida silvestre —, Diretor do Programa Mata Atlântica, fala sobre o trabalho da Conservação Internacional e detalha projetos como os corredores de biodiversidade da Mata Atlântica e do Cerrado.

— Como é trabalhar numa organização tão importante como a Conservação Internacional Brasil?

Do ponto de vista pessoal trabalhar numa ONG é algo muito gratificante, é uma experiência fantástica, um aprendizado a cada dia. O trabalho na área ambiental me leva a lidar com todos os setores da sociedade e com todos os temas possíveis: economia, ecologia, antropologia, biologia, engenharia e alguns outros. Trabalha-se também com pessoas bem diferentes e de atividades distintas como pescadores, empresários, políticos, índios e profissionais de outras ONGs. Do ponto de vista profissional, apesar de a área ambiental não ser, infelizmente, ainda uma prioridade para os governos, só tenho a repetir que é uma experiência extraordinária.


— Qual é a metodologia de trabalho da CI Brasil?

A Conservation International Brasil (Conservação Internacional) atua no país inteiro. Nós temos uma estratégia de atuar que chamamos de ‘Hotspots’, que são áreas donas de grande diversidade biológica, mas que, ao mesmo tempo, já perderam grande parte da cobertura de seleção. ‘Hotspot’ é, portanto, toda área prioritária para conservação, isto é, de rica biodiversidade e ameaçada no mais alto grau. É considerada ‘hotspot’ uma área com pelo menos 1.500 espécies endêmicas de plantas e que tenha perdido mais de 3/4 de sua vegetação original. São os casos da Mata Atlântica e do Cerrado. Esses são os dois ‘hotspots’ terrestres. O marinho, que também trabalhamos, é o Complexo de Abrolhos, litoral sul da Bahia, área com a maior biodiversidade marinha conhecida no Atlântico Sul. No outro extremo, trabalhamos aquelas grandes regiões naturais praticamente ainda intactas, com integridade maior de seus ecossistemas, caso da Amazônia e o caso do Pantanal e também, em parte, a Caatinga.


— Estas regiões podem ser consideradas como prioritárias para a CI?

Sim, sem dúvida. Estabelecemos estas regiões como prioritárias nas ações da CI. Dentro delas, nós atuamos no que a gente chama de corredores de biodiversidade: são grandes regiões que possuem extrema importância biológica e que podem ser trabalhadas conjuntamente em um espaço territorial definido. Por exemplo: nós definimos a área de biodiversidade central da Mata Atlântica — uma região entre o sul da Bahia e o Espírito Santo — como um corredor de biodiversidade. Então, lá trabalhamos em parcerias com o Ministério do Meio Ambiente, com os governos da Bahia e do Espírito Santo, com outras ONGs e com empresas no desenvolvimento de ações de conservação. O essencial é a região ser reconhecida, por meio de vários estudos, como uma área de grande importância biológica. Ela ganha um planejamento integrado das ações de conservação que pode garantir a sobrevivência do maior número de espécies e o equilíbrio dos ecossistemas. É o caso daquele trecho da Mata Atlântica. O corredor é uma forma de se trabalhar a conservação da biodiversidade em uma escala maior, em milhões de hectares. Este corredor da Mata Atlântica, por exemplo, tem 12 milhões de hectares. Nós atuamos de forma integrada a todos setores da sociedade que queiram potencializar e trabalhar conosco nas ações de conservação destas grandes regiões.


— As parcerias são fundamentais para o êxito do trabalho conduzido pela CI?

Sim, muito importantes. A partir das parcerias os resultados tornan-se interessantes porque as pessoas e as instuições percebem nas suas atividades formas de contribuições bem maiores nas ações de conservação. Isso resulta em uma mudança de visão sobre como trabalhar conjuntamente, como integrar esforços e experiências e assim mudar realmente a escala de conservação no Brasil.

Nós atuamos em diferentes escalas de conservação. A CI Brasil faz parte de uma rede mundial que é a CI global. Estamos trabalhando em 40 países. Nesta atuação global existem várias ações voltadas para divulgar informações sobre biodiversidade e conservação como as estratégias dos hotspots, a definição das grandes regiões naturais e os corredores de biodiversidade. Inicialmente, a Conservation International começou a trabalhar numa escala global, depois é que a organização foi se adentrando em cada país. Nos países, a CI define os grandes corredores e dentro deles as áreas focais para atuar de forma mais intensiva, mais urgente. Dentro destas áreas focais, existem aquelas unidades de conservação e aqueles sítios de maior importância. Então nós vamos atuando desde a ponta de uma área específica até a escala global. Atuamos, como no corredor da Mata Atlântica, sempre estabelecendo amplas parcerias com os governos estaduais e federal, com prefeituras, com outras ONGs, com empresas públicas e privadas e com as comunidades locais. Trabalhamos de forma multidisciplinar e multiinstitucional, englobando desde aspectos relacionados à biologia como a realização de inventários biológicos ou fazendo extensão rural — junto com proprietários rurais — ou ainda na formulação de políticas públicas e na busca de alternativas econômicas para os proprietários rurais, além de buscar as melhores práticas para as empresas.


— Como o senhor avalia os resultados deste trabalho no corredor de biodiversidade da Mata Atlântica?

O projeto corredores de biodiversidade procura fortalecer as redes de unidades de conservação com ações importantes: suporte na elaboração e implementação de planos de manejo; fornecimento de equipamentos; treinamento de pessoal; melhoria da infra-estrutura e criação de estrutura para visitantes. É também muito importante, como já disse, a articulação institucional com todos os níveis de governo, empresas públicas e privadas, proprietários de terras, trabalhadores rurais e ONGs. Todos passam a se sentir parte do processo, as pessoas passam a ter maior interesse, ficam mais participativas. Tal nível de articulação talvez seja um dos maiores ganhos dentro do projeto. Nesses primeiros cinco anos, assistimos um progresso muito grande, muitos frutos foram colhidos. Hoje, a gente já vê as empresas sentando na mesa e discutindo, negociando. O empresariado, principalmente da indústria do papel e celulose — dona de uma parcela significativa dos remanescentes florestais — é um segmento essencial para a implementação dos corredores ligando as unidades de conservação. Esse mosaico de plantio de eucalipto e remanescente florestal existente entre as unidades de conservação, se for bem manejado, pode servir de elo de ligação entre os espaços protegidos que são exatamente as unidades de conservação. Estamos discutindo com essas empresas sobre como fazer o ordenamento territorial nos corredores, de como manejar melhor os remanecentes florestais. Agora estamos mudando de fato a escala de conservação; pensando e agindo de forma a integrar todas estas ações numa escala ampla de conservação. Como a pressão sobre os recursos naturais é enorme, nós precisamos ganhar tempo, agilidade e assim potencializar as ações.


— Como está a situação do desmatamento na Mata Atlântica?

Na Mata Atlântica, pelos dados recentemente lançados, houve uma redução de 70% do desmatamento nos últimos cinco anos. Esse é o lado positivo. O lado que precisamos ficar atentos é que esses dados estão mostrando apenas uma parcela da realidade. As análises dos dados do desmatamento só cobrem remanescentes florestais acima de cinco hectares. Percebemos que o desamatamento na Mata Atlântica está ocorrendo é numa micro escala. É como se fosse um trabalho de formiguinha executado pelos pequenos e médios proprietários. É um desmatamento muito dificil de ser detectado pelo sistema de margeamento por satélite. Esta informação é muito importante para se estruturar o sistema de fiscalização. É uma questão que está sendo muito discutida e envolve instuições como o Ministério Público e a Receita Federal, além de todas as instuições ligadas ao meio ambiente. Os projetos dos corredores também estão procurando fortalecer essa fiscalização integrada.


— E quanto ao ‘hotspot’ Cerrado, qual é a avaliação da CI Brasil?

A situação do Cerrado é semelhante à Mata Atlântica. São dois hotspots em situação semelhante. O ambiente natural está sendo fragmentado rapidamente e são dois biomas extremamente ricos em biodiversidade. Estamos numa fase crítica: ou fazemos coisas consistentes, efetivas, eficazes agora ou nós vamos ter extinções de espécies e perda de biodiversidade a curto e médio prazos. Como na Mata Atlântica, trabalhamos também no Cerrado com corredores de biodiversidade, no conceito de conservação em larga escala. Em Minas Gerais, estamos tentando estabelecer um processo de instituir um corredor de biodiversidade do Espinhaço, declarado recentemente reserva da biofesra. A nossa intenção é fortalecer e desenhar um corredor específico para o Espinhaço. É uma das regiões mais ricas do mundo em biodiversidade, principalmente em termos de flora. Atuamos também fortalecendo algumas unidades de conservação como o Parque Nacional Grande Sertão Veredas; estamos iniciando uma parceria com o Parque Nacional das Sempre-Vivas; temos uma parcertia como o Parque Nacional da Serra do Cipó.


— Até que ponto a atividade turística pode colaborar para a conservação da biodiversidade?

O turismo é um grande aliado, um setor essencial como um contribuidor da conservação da biodiversidade. Os vários segmentos do turismo — principalmente o ecoturismo, turismo de aventura e turismo rural — estão associados à preservação do ambiente natural. O turista quer ver coisas bonitas, o rio limpo, a cachoeira limpa, a floresta intacta e fica feliz em saber que os animais estão livres e protegidos. Existem muitas discussões entre os ambientalistas e o trade turístico em torno de uma maior interação na proposição de projetos conjuntos, no desenvolvimento de normas, processos de certificação, capacitação dos diversos segmentos no sentido de tornar o meio ambiente um excelente negócio. É também uma forma de mostrar que se acredita na preservação de um valor econômico, além de se preservar um valor biológico. O turismo pode determinar claramente essa nova ordem de pensamento.


— Por que a sede da CI é em Belo Horizonte?

A CI nasceu aqui no Brasil por meio de pessoas ligadas à Universidade Federal de Minas Gerais, especificamente ao departamento de Zoologia da UFMG. Este departamento tem, desde a década de 70, um departamento de primatas, com os professores Sérgio Vale, Ângelo Machado e Gustavo Fonseca, dentre outros. O departamento de Zoologia e o Centro Mineiro de Biodiversidade, uma das primeiras ONGs do Brasil, começaram campanhas e ações de conservação no Brasil e em Minas. Daí, estes grupos foram se estruturando e surgiram as ONGs como a CI e a Fundação Biodiversitas. Atualmente, inclusive, estão aqui na CI muitos ex-alunos da UFMG. Só na minha equipe, do programa da Mata Atlântica, tem cinco ex-alunos da UFMG. Essa relação, portanto, permanence até hoje. O nosso vice-presidente da CI global, o professor Gustavo Fonseca, é ainda ligado ao departamento de Zoologia da UFMG. O presidente atual, Russel Mittermeier, primatólogo, tinha ligação com o departamento de Zoologia neste trabalho de pesquisa e conservação de primatas, principalmente do Muriqui, símbolo da Mata Atlântica. Assim, Mittermeier trouxe a sede da CI para Belo Horizonte. Desde então, a Conservação Internacional Brasil cresceu muito.


— Como se deu este crescimento?

Antes, nós éramos seis pessoas atuando de uma forma muito mais pontual, muito mais de apoio, praticamente um repassador de recursos. Nós apurávamos recursos lá fora e repassávamos para parceiros estratégicos daqui. Mas era tudo em pequena escala. Na medida em que a organização ia crescendo, que os projetos iam aumentando em complexidade, nós passamos a atuar em grandes extensões, assumindo um papel de de articulador de redes institucionais. A CI tem hoje uma grande rede de parceiros, mais de 100, parceiros de qualidade técnica. Saímos de uma situação tímida para uma atuação muito intensa em grandes extensões como os corredores de biodiversidade, trabalhando em praticamente todo país. Só não atuamos nos campos sulinos, os pampas. Saímos de um pequeno grupo, de cinco ou seis pessoas para chegar a 50 profissionais e cinco escritórios no país — Brasília, Campo Grande, Belém e Salvador, além de Belo Horizonte. Somos uma organização, eu diria, muito bem estruturada, com profissionais qualificados. Quase 60% da nossa equipe tem uma pós-graduação, mestrado ou doutorado. Isso nos dá a chance de trabalhar muito no fortalecimento de parceiros de médio a grande porte. Temos um programa dentro da CI Brasil de capacitação e fortalecimento institucional de parceiros. Junto aos 100 parceiros que eu mencionei, temos um acompanhamento rotineiro de visitação, tanto do ponto de vista administrativo-financeiro quanto do técnico. Com relação ao primeiro, fazemos um trabalho de fortalecimento desta área desde a formulação de estatutos adequados até os aspectos tributários de uma forma geral e a contratação de pessoal. No técnico, nós desenvolvemos projetos: é compartilhar estratégias, informações, buscar mais parceiros. Tem todo um processo estruturado de apoio as esses parceiros para que eles possam crescer e atuar de forma independente da CI Brasil para que eles possam assumir responsabilidades e ações sem depender financeiramente ou até admistrativamente da CI. A nossa intenção é não crescer mais, nós queremos é consagrar realmente um processo de acompanhamento, de facilitação e de articulação dessas redes. Queremos contribuir com informações e análises da biodiversidade e subsidiar os trabalhos dos nossos parceiros que estão lá no campo atuando regionalmente. Trata-se de uma questão de fortalecimento de quem está trabalhando lá na ponta.


— Minas Gerais é um estado ainda rico em biodiversidade?

Minas Gerais é um estado muito interessante porque tem três biomas — Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga — e vários ecossosistemas de transição, além de outros ecossistemas dentro destes biomas, que proprocionam uma imensa e riquíssima biodiversidade. O Cerrado, por exemplo, tem os campos rupestres na Serra do Espinhaço, o cerradão e as veredas. A Mata Atlântica tem os campos de altitude, tem a mata das montanhas, a mata mais baixa, a mata do cipó (transição com a Caatinga), a mata seca (entre a Caatingta e o Cerrado), as lagoas naturais da bacia do Rio Doce com características únicas. Os hotspots como a Mata Atlântica e o Cerrado são donos de riquezas enormes, não perdem em absolutamente nada para outras regiões do planeta como, por exemplo, a bacia Amazônica. O Espinhaço, onde a cada metro quadrado pode-se encontrar dezenas de espécies diferentes, é comparável a ambientes riquíssimos da África do Sul.


— E como está esta biodiversidade em termos de conservação?

Em Minas Gerais, temos o Atlas de Biodiversidade do estado, que nos dá uma visão estratégica de como está a situação da nossa biodiversidade, sobre como está distribuída, mostra quais são as áreas prioritárias mais urgentes para a conservação e quais são as áreas únicas, que só acontecem aqui em Minas Gerais, necessitadas de imediata, urgentíssima atenção. O importante disso tudo é que Minas Gerais tem hoje uma base de informações extremamente rica, pronta para subsidiar estratégias e políticas voltadas às àreas prioritárias para conservação. Aliás, nós temos uma boa política, Minas tem sido pioneiro em vários temas dentro da área de conservação, inclusive na utilização de mecanismos que o novo código florestal proporciona como a permuta de reserva legal, a utilização de recursos de compensação ambiental e negociações com empresas. Porém, é necessário ser mais agressivo, é trabalhar no sentido de ampliar as parcerias e se antecipar aos problemas. Também é fundamental melhor estruturar os orgãos ambientais e proporcionar melhores condições de trabalho aos seus profissionais.