Sobre caminhos e caminhantes

Tropeiros, bandeirantes, caminhantes e andarilhos se aventuraram em busca de realização e riquezas, construindo boa parte das vilas de muitos estados, dentre eles, Minas Gerais. Percorrer hoje esses caminhos e outros caminhos, como o da Estrada Real, é uma oportunidade de descobrir as riquezas naturais e culturais de cada lugar.

Por Rúbia Piancastelli
Fotos Fernando Piancastelli


Caminhar por dias ou meses pode ser uma viagem, um prazer e até um desafio. Além de ser uma experiência única relatada por aqueles que a vivem, a atividade requer preparo tanto do corpo quanto da mente. O primeiro é adquirido a partir de treinos e disciplina. Já o psicológico, que enfrenta desde solidão ao êxtase, precisa encontrar um equilíbrio, respeitar o ritmo do corpo.

São as descobertas ao longo do caminho que tem motivado andarilhos contemporâneos a se aventurar pelas trilhas. Percorrer esses caminhos é uma oportunidade ímpar de conhecer mais a terra por onde se passa, o povo de onde se vai, e o interior que se carrega. E assim, juntando histórias de caminhantes e de caminhos, surgiram dois relatos de novos andarilhos pela Estrada Real, cada qual com seu tempo, percurso, recursos e objetivos.


Andar para descobrir

Com uma bagagem de caminhada de mais de 6 000 km em rotas na Europa e outras tantas no Brasil, Cláudio Luis de Carvalho Leão, formado em relações públicas e consultor do Instituto Estrada Real, foi o primeiro a percorrer a pé todo o percurso da Estrada Real, cerca de 1 400 km.

Cláudio partiu com seu amigo e xará, Cláudio Gil dos Santos, em janeiro de 2002, para cumprir os três caminhos: dos Diamantes, Velho e Novo. Com o patrocínio do Instituto Estrada Real, Leão e Gil passaram por mais de 70 distritos de Minas, São Paulo e Rio, em 36 dias, sendo que 96% do trajeto foi feito pelas estradas de terra.

“Meu objetivo era fazer o marketing da Estrada, levei todo material que tínhamos e mostramos que é possível fazer caminho”, conta o consultor, que mostrou a possibilidade de se caminhar pela rota turística. Leão ressalta que ninguém faz uma jornada longa sem ter realmente o objetivo como meta, especialmente emocional: “é preciso haver um encontro do desejo com o objetivo. Fazer um caminho é algo mágico, intransferível”.


Pela aventura e vivência

“Descobri que era possível, e até divertido, andar em vários dias uma distância visível no mapa mundi. Que é uma sensação única avistar pela primeira vez seu destino, a cidade-meta do dia, ver na linha do horizonte o seu próximo obstáculo. Rir quando as pessoas param para oferecer carona e, de repente, fica difícil explicar que sua caminhada não é uma promessa, mas aventura e vivência...”.

Foi assim que Lucas de Castro Boechat, médico recém-formado, seguiu de Diamantina a Ouro Preto — percorrendo o Caminho dos Diamantes; e de Ouro Preto a Paraty — no Caminho Velho, através da Estrada Real. Em 29 dias, Lucas percorreu a pé as duas rotas, prestando atendimento às comunidades por onde passava, a mesma que o acolheu diversas vezes. “Minha entrada na carreira médica veio com o atendimento gratuito à população das comunidades mais carentes que eu encontrasse ao longo do caminho. Depois de seis anos de estudos em faculdade pública e uma vida de admiração pelo povo mineiro do campo, era hora de dar algo em retorno”, conta o caminhante.

No dia dois de janeiro de 2006, junto ao primo Raphael de Castro — que o acompanhou por cerca de 200 km, partiu em direção sul a partir da Praça do Mercado de Diamantina rumo a Ouro Preto, meta mínima da aventura. A vontade de continuar, o apego crescente pelas pessoas e belezas do caminho, fizeram com que a jornada se estendesse até findar em Paraty, com uma recepção organizada pelos familiares, banda local e da secretária de turismo da cidade, Leila Anunciação.

Deixando claro que o objetivo não é chegar, mas sim ir, o caminhante pretende passar para frente seus relatos e pensamentos: “O que me resta agora é passar para frente meus relatos e pensamentos, trazer mais consciência à população de como são belas as nossas histórias e cultura e do quando temos que lutar para preservá-las. Os turistas e aventureiros já estão aparecendo e a cada dia aumentam de número. Agora falta descobrir por nós mesmos o que ela esconde”, afirma Lucas.



A vontade de continuar, o apego crescente pelas pessoas e belezas do caminho. (fotos Fernando Piancastelli)

São as descobertas ao longo do caminho que tem motivado andarilhos contemporâneos a se aventurarem pelas trilhas. (foto Fernando Piancastelli)


Deixando claro que o objetivo não é chegar, mas sim ir, o caminhante pretende passar para frente seus relatos e pensamentos. (foto Fernando Piancastelli)

".. fica difícil explicar que sua caminhada não é uma promessa, mas aventura e vinvência..." (foto Fernando Piancastelli)


"É preciso haver um encontro do desejo com o objetivo. Fazer um caminho é algo mágico, instransferível. (foto Fernando Piancastelli)