Homem e natureza, uma nova relação

Por Euclides Guimarães

Foi preciso constatar que o ser humano tem mais poder destrutivo do que construtivo para que nascesse a consciência ecológica. Se muito, antes disso, a palavra tinha seu uso restrito ao campo da biologia. Esse antes pode vir de antes, mas os efeitos predatórios causados pelo progresso da civilização industrial só se fizeram notar nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Lá pelo final dos anos 50 aparecem os primeiros sinais do grande inconformismo que teria a juventude como protagonista, e que ficaria marcado por uma crítica radical à economia política e aos costumes vigentes. Em sua amplitude esta crítica também mirava a questão ecológica, anunciada como um conjunto de ameaças à manutenção da vida no planeta, causadas invariavelmente pela ganância característica do capitalismo industrial em seu estágio avançado de superprodução e superconsumo. 

Os anos 60, chamados “anos rebeldes”, não só viram brotar as mais radicais críticas às tradições e aos avanços da civilização industrial, como também viram se a afirmar seu protagonista definitivo, a juventude. Desde então a juventude deixou de ser apenas o que é inevitavelmente, uma faixa etária, convertendo-se em uma categoria social. Desde então a surpresa, a combatividade, as energias utópicas, as manifestações artísticas contraculturais, as ousadias estilísticas e tudo o que de alguma forma possa ser associado a atitudes radicais é coisa de jovem. Desde então o desejo de mudança, latente ou manifesto, tem na juventude seu esteio natural.

Muitos foram os caminhos trilhados pela combatividade jovem desde os 60 até nossos obscuros tempos de início do século XXI. Aquela juventude obviamente deu lugar a outras, assim como a ordem mundial contra a qual ela se rebelou, mas a questão ecológica manteve-se como pano de fundo o tempo todo. Muitos reflexos benéficos para o planeta derivam dessa consciência e de seu amadurecimento, mas nada pôde conter o avanço de uma civilização cada vez mais artificial, cada vez mais dependente da alta tecnologia e, embora de forma muitas vezes mais racionalizada, também predatória e gananciosa. A natureza, no entanto, nunca mais seria vista como uma mera fonte de recursos ou um conjunto de obstáculos a serem domesticados pela civilização. A própria artificialização crescente do cotidiano, á qual se soma toda uma parafernália imagética cenográfica por vezes denominada tele-realidade, produziu uma espécie de carência de real e de natural, de forma que a natureza se transforma cada vez mais em objeto de admiração e respeito. As ameaças à sobrevivência humana representadas pelo mundo selvagem cada vez mais se tornam desafios atraentes, sedutores convites à aventura, propostas irrecusáveis de visitação a um mundo real, simples, concreto e maravilhoso. Conseqüentemente a juventude de hoje encontra nesse contato uma colméia de sentidos que talvez nunca tenha sido experimentada antes.

Os “esportes de aventura” hoje tão em voga, para os quais as paisagens mineiras se mostram sobremaneira convidativas, são evidências de como o espírito alternativo da juventude vem sendo encaminhado para o contato com a natureza. A isso se acresce uma série de mudanças que a modernidade vem sofrendo nas últimas décadas. Embora tenha encontrado condições para desfraldar a bandeira da ecologia, nos anos 60 a questão central era social, talvez fundamentalmente moral. Aquela juventude tinha um inimigo muito bem perfilado para combater, valores que há muito vigoravam e que se apresentavam como verdades inquestionáveis, embora já houvessem sido antes questionadas.

O desfecho da Segunda Guerra representou de imediato uma volta da moral vitoriana, dessa feita na forma de um ufanismo puritano adornado por uma parafernália de bens de consumo. Era a apoteose do grande vencedor da guerra, que assim se prontificou a estender ao mundo o american way of life. A juventude underground intentou romper com tudo o que de alguma forma a isso se associava, mal sabendo que o principal vício dessa ordem já a havia contaminado irreversivelmente. É claro que esse modus vivendi ganhou características diferenciadas em cada região onde se implantou, mas não há dúvidas de que a contemporaneidade veio acentuar algumas das mais decisivas marcas dessa expansão: consumismo, individualismo, avidez por novidades, influência constante das mídias, sedução pela imagem, estetização da vida.

Os valores foram questionados e relativizados entre o tempo da Guerra Fria e o nosso, mas os costumes ali divulgados se fizeram cada vez mais arraigados. A primeira juventude radical deixou como herança a combatividade, a necessidade de o jovem se diferenciar da massa e a relativização dos valores puritanos que outrora controlavam nossas vidas, mas também, deixando de ser jovem, entregou-se quase por completo às delícias e perversidades do consumismo e do hiper-individualismo.

Desde os anos 80, sem a clareza sobre o que realmente oprime, sem saber exatamente quais inimigos enfrentar, a juventude perambula em busca de formas alternativas de vida, assumindo atitudes que têm um fundo inconformista, mas que revelam muito mais a necessidade de extrair ordem do caos que a de produzir o caos contra uma ordem sufocante. É nesse embalo que ela se depara com a natureza.

A fina ordem que perpassa o confronto das forças naturais, o fino equilíbrio ecológico que supõe uma sabedoria planetária, torna-se um dos atrativos mais incríveis e aprender a lidar com isso passa a ser de grande importância. O movimento dos ventos com suas térmicas, as seqüências fractais das ondas do mar, as protuberâncias irregulares das pedras que formam uma parede, ou das águas que despencam de uma cachoeira, essa incrível complexidade se apresenta como um convite à aventura de decifrar, enfrentar os medos mais primais, superar o medo cósmico, desfrutar dos perigos e da beleza de um mundo real e corpóreo que, quanto mais falta ao cotidiano da urbanidade e da alta tecnologia, mais exuberantemente se mostra no mundo natural.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC - MG