Arte sem concessões

Por Patrícia Castro
Fotos Fernando Grilo

Os quadros que estão nas paredes do ateliê ainda têm cheiro de tinta fresca. Os oratórios no canto da sala, assim como as telas, foram produzidos nos últimos cinco meses. Estas pinturas e objetos são do artista plástico mineiro Fernando Lucchesi e estarão expostos na galeria Referência, em Brasília, na segunda quinzena de agosto. O autor não esconde que os tons melancólicos do último trabalho refletem o seu estado de espírito. Lucchesi está decepcionado com a situação política do país e com os valores da sociedade contemporânea. “O homem só pensa em dinheiro”, lamenta.

O artista mora em Nova Lima, região Metropolitana de Belo Horizonte. O ateliê foi montado bem ao lado da casa. O lugar, emoldurado por montanhas, é espaçoso e quieto. Sete cachorros ajudam a amenizar a solidão. “A solidão é terrível, mas para se produzir tem que haver isolamento”, justifica. Sempre contrário às atitudes desonestas e gananciosas, Lucchesi nunca fez arte pensando em vender. “Eu me recuso a adequar as minhas obras ao mercado”, enfatiza.


Reter o mundo real

Hoje Lucchesi se dedica à pintura e cria objetos, que são os oratórios. Formas geométricas sobrepostas caracterizam as pinturas. Só olhando de perto para perceber o emaranhado de figuras e alguns pontos protuberantes de tinta. Os oratórios de agora trazem apenas ramalhetes de flores. Eles também já representaram o desejo do artista de reter o mundo real. Ele define essa época “como uma certa esquizofrenia de tentar ordenar as coisas a sua volta”. Nas caixas ele colocava objetos como ladrilhos da casa onde morou em Ouro Preto.

O artista também criava instalações, mas decidiu parar. “Não faço mais porque elas caíram no gosto do mercado. Ficaram populares”, explica. Mas no ateliê ainda existe uma delas. A obra é um astrolábio feito com esferas de ferro intrincadas. Elas simbolizam o movimento do sol em torno da terra, numa alusão ao período histórico em que o homem acreditava que o planeta era o centro do universo. Lucchesi também gosta de desenhar. Em sua casa existe uma mapoteca repleta de desenhos. A atividade, no entanto, ele define como um exercício apenas. Nunca desenhou com a intenção de expor.

A influência do barroco se faz presente nas obras. A convivência com a arte e arquitetura barroca de Ouro Preto, levou o artista a incorporar o estilo nos trabalhos. Ele considera seus mentores o artista autodidata suiço Paul Klee e o pintor brasileiro Alberto da Veiga Guignard. Também foi bastante influenciado pelo amigo, escultor e desenhista mineiro Amílcar de Castro. Lucchesi afirma que lida com o erro em suas obras e vai fazendo arte seguindo a máxima do pintor e escultor francês Marcel Duchamp: “Aperfeiçoe o erro que ele vira um estilo”.


Quintal do avô

Fernando Lucchesi é artista desde menino. Nasceu em 1955 e passou grande parte da infância e adolescência no quintal da casa do avô materno no bairro Carlos Prates, região Noroeste de Belo Horizonte. O avô era mestre de obras e tinha uma oficina com diversos materiais, como ferro velho e madeira. Lucchesi, então, por lá ficava combinando materiais e montando objetos. “O quintal do meu avô foi a minha escola de Belas Artes”, compara.  

Crítico ferrenho do meio acadêmico orgulha-se de ser autodidata. Ele jamais quis fazer um curso na área. “A universidade vê o artista como produto cultural, forma artistas com idéias prontas. A escola destrói qualquer poesia. A poesia está nas ruas”, acredita. E enfatiza que, para ele, a arte não é uma idéia, é o fazer.

O artista Trabalhou durante dois anos como desenhista técnico em uma multinacional. Ganhava bem, mas a convite do artista plástico Márcio Sampaio, abriu mão do emprego para montar exposições nas galerias do Palácio das Artes, um dos símbolos da efervescência artística de Belo Horizonte. O salário correspondia a 25% do que recebia como desenhista. Tinha 22 anos à época e contou com o apoio do pai.


Primeiro objeto

Em 1978, na exposição Paisagem Mineira realizada no seu então local de trabalho, incluiu, por conta própria, duas pinturas suas no fundo da grande galeria do Palácio das Artes. “Eram horrorosas, mas quase ninguém viu”, conta. Era a primeira exposição coletiva de que participava. Em 1979, montou um ateliê em Belo Horizonte.Foi a pintura que me colocou no mundo. Graças à pintura consegui comprar comida e viajar mais”, afirma. O primeiro objeto que fez foi uma caixa para guardar o presépio que herdou da avó. Construiu o retábulo há cerca de 25 anos para presentear o filho que acabara de nascer.

Logo consagrou-se como artista. Desde 77 integra diversas exposições coletivas e individuais no Brasil e exterior. Na década de 80 foi premiado no Salão do Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais e participou da XVIII Bienal de São Paulo. Apresentou trabalhos na exposição Modernidade em Paris no ano de 1987. O contato com o país desenvolvido lhe trouxe um alento: Lucchesi percebeu que o mundo oferece chances para o artista contemporâneo. Em 1997 fez um desenho na areia para a I Bienal de Artes Visuais do Mercosul. E atualmente existem três livros publicados sobre o artista.


Ouro Preto

Nos anos 90 mudou-se para Ouro Preto onde ficou por quase dez anos. A mudança para a cidade histórica foi uma escolha passional. “Suas ruas e becos me acolheram, meu trabalho cresceu e amadureci como pessoa”, conta. Com o passar do tempo, mudou de opinião sobre o local. “O lugar cresceu de maneira desorganizada, um trânsito caótico e aberrações de ordem arquitetônica se espalharam por todos os cantos”, revela. Decepcionado, isolou-se no casarão de Nova Lima onde vive há cinco anos. 

Avesso às badalações, faz da solidão uma ferramenta de trabalho. O telefone já não toca tanto. Doze anos de análise têm lhe ajudado a lidar com o paradoxo de artista renomado e do homem em busca de felicidade. “Nasci chorando e quero morrer rindo”, deseja.