Metrópole das artes universais

A proximidade de Belo Horizonte a tanta riqueza cultural já sedimentada nas cidades históricas de Minas Gerais, desde o século XVIII, gerou desde a sua construção uma característica peculiar no campo das artes. A arquitetura se aliava à escultura, à pintura e também à música, à dança e à poesia. Esta síntese das artes proporcionou características próprias à arte mineira, uma independência e inovação que perdura até os dias de hoje.


Reportagem Carolina Godoi
Fotos Fernando Grilo, Henry Yu

Considerado um dos mestres da pintura moderna brasileira Alberto da Veiga Guignard, carioca de nascimento, mudou-se em 1944 para Belo Horizonte e fundou a Escola Municipal de Belas-Artes, primeira escola de arte moderna da capital, onde exerceu grande influência sobre as gerações mais novas. O mestre formou uma importante geração de artistas plásticos como Amílcar de Castro, Chanina, Sara Ávila, Yara Tupinambá, Wilde Lacerda e Maria Helena Andrés. Pintora, desenhista, ilustradora, escritora e professora hoje com 84 anos de idade e em plena produção no seu atelier, Maria Helena acha que “o campo das artes plásticas está se ampliando cada vez mais para uma forma de expressão universal que vem buscar inspiração no dia a dia, no cotidiano de cada um. Com os meios de comunicação atuais, principalmente com a Internet, o artista em qualquer parte do mundo poderá se comunicar com outros artistas de igual sensibilidade.”

Daqui dessas montanhas, afinal, só poderiam nascer artistas de renome internacional. Quem teve Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, como um dos seus primeiros mestres e exemplos, não foge ao chamado da arte; e se ainda fosse só Aleijadinho... Manoel da Costa Athayde, o Mestre Athayde também deixou preciosidades nessa terra; João Nepomuceno Correia e Castro, Joaquim Gonçalves da Rocha e muitos outros que permanecem no anonimato por falta de documentação que lhes ateste a autoria.

O presente em Minas parece ser tão assustadoramente inspirador quanto o passado. Prova disso são as obras únicas em beleza de Petrônio Bax, Carlos Bracher, Fernando Lucchesi, Paulo Laender, Jorge dos Anjos, Mario Zavagli, Marco Túlio Resende, Rosângela Rennó, Mônica Sartori, Isaura Pena, Orlando Castaño e tantos outros.

O artista soberano nasce de quem menos se espera. De um construtor de andaimes, um granjeiro, pintor de paredes ou um único homem que reúna todas as profissões num só gesto. Assim era Amadeu Lorenzato, que disse numa entrevista certa vez quando perguntado qual o seu estilo: “Eu nem sei que estilo que é. É pintura! Dizem que é primitivo, que é ingênua, que é surrealista, eu não sei... Eu pinto aquilo que vejo, que me interessa.”


Cinema é cachoeira

Se o cinema brasileiro teve um pai, ele era mineiro. Humberto Mauro nasceu numa fazenda, perto de Cataguases em 1897. Mauro já tinha 26 anos quando se interessou por cinema. Gostava dos seriados e dos filmes de aventura e imaginava que fazer cinema não era algo assim tão difícil. Nessa época, o Brasil vivia, simultaneamente, a expansão do mercado cinematográfico e a repercussão da Semana de Arte de 22, que em Cataguases se manifestava através das páginas da revista “Verde”.

O cineasta mineiro Rafael Conde, mestre em Artes e Cinema pela Universidade de São Paulo, diretor e produtor independente avalia assim o cinema em Minas: “Humberto Mauro realmente é o grande precursor do cinema brasileiro. Ele descobriu um “jeito” brasileiro de olhar e filmar. Os cineastas mineiros sempre desenvolveram uma leitura mais particular da sua paisagem, homem e cultura. Os realizadores buscam mais a experimentação e  a poesia.” Entre os trabalhos de Rafael Conde em cinema destacam-se o longa “Samba Canção” e os filmes “Uakti-Oficina Instrumental” (melhor filme e melhor montagem no 15º. Festival de Gramado,1987), “Musika” (melhor direção no 22o. Festival de Brasília,1989), “A Hora Vagabunda e “Françoise”.

Outro mineiro ilustre reconhecido internacionalmente, Helvécio Ratton, nasceu na bucólica Divinópolis. Formou-se como  psicólogo, mas tornou-se aclamado como cineasta. Seus filmes estão entre os nacionais mais premiados mundialmente. Alguns dos filmes que dirigiu foram o curta “Em Nome da Razão” (sobre a ética médica), e os longas “Dança dos Bonecos”, “Menino maluquinho”, “Amor &Cia” e “Uma Onda no Ar”.

O “Menino Maluquinho” vive aventuras com sua turma nas ruas do tradicional bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte. Entre as corridas de rolimã ladeira abaixo e as pequenas e cotidianas travessuras, o menino, criado por Ziraldo, mostra às telas do Brasil um pouco da pacata Belo Horizonte.

Sete anos depois, o mesmo diretor lança nos cinemas a história de uma das mais resistentes manifestações culturais de uma favela de Belo Horizonte. Um destacamento policial sobe as ruas estreitas do morro. Enquanto os traficantes se preparam para a guerra, uma rádio pirata orienta os moradores para se protegerem em suas casas. Mas o objetivo da polícia não é reprimir o tráfico de drogas e sim calar a rádio. É mais ou menos assim que “Uma Onda no Ar” retrata a realidade do Aglomerado da Serra, a maior favela de Belo Horizonte, a partir da trajetória da Rádio Favela, surgida nos anos 80.

As mulheres mineiras não ficam de fora desta lista de cineastas. Patrícia Moran e Elza Cataldo são exemplos de que o olhar feminino nas grandes telas vem agradando público e crítica. O recém-lançado “Vinho de Rosas”, projeto de sete anos de Elza Cataldo, rodado em Ouro Preto, nos mostra o papel da mulher na Inconfidência Mineira.

Tem ainda o “Indie – Mostra do Cinema Mundial”, que reúne cerca de 30 mil pessoas por evento nos vários cinemas de Belo Horizonte. O INDIE 2005, por exemplo, trouxe a Belo Horizonte 125 filmes, de 32 países, em 244 sessões de cinema.

Já a 7ª edição do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, em 2005, exibiu mais de 240 produções em curta-metragem, realizadas em vídeo e em película, produzidas no Brasil e em outros 25 países do mundo. Um total de 113 sessões reuniu um público de aproximadamente 15 mil pessoas. Para a Mostra Competitiva Brasileira foram selecionados 36 trabalhos, entre os 132 inscritos. Dos 288 curtas inscritos para a Competitiva Internacional, foram selecionados 36 títulos.


Inventando moda

Notícia quente da Revista Vogue do mês de março na sessão “Gente que Tem e Dá o Que Falar”: o mineiro Francisco Costa entrou para a história da moda americana ao dar novo fôlego à marca Calvin Klein.

Como a moda mineira, cujo pólo é Belo Horizonte, chegou tão longe? A resposta pode estar em um dos seus pioneiros, o belorizontino Renato Loureiro, um dos fundadores do Grupo Mineiro de Moda. A cooperativa tinha data marcada para mostrar o melhor da produção criada por estilistas de Minas Gerais. O estilista segue firme em seu conceito inicial – criar uma roupa confortável e moderna, sempre com um toque de trabalho manual, seja em técnicas de lavagem em tecidos criados em teares manuais ou patchworks bem mineiros.

Outra integrante do Grupo Mineiro de Moda, a Patachou de Teresinha Santos começou em 1978 com uma pequena produção de roupas. E já conquistou o mundo. Em 2001, a empresa iniciou as operações de exportação com a criação da etiqueta Tereza Santos, que foi aos poucos sendo colocada em lojas e butiques exclusivas do circuito internacional.

Sensualidade, praticidade e espírito esportivo são as características do trabalho de Victor Dzenk, que valoriza o uso da malha para traduzir a feminilidade da mulher contemporânea. Desde 1998 com marca própria o estilista admite que Minas se faz presente em suas peças. “Os estilistas mineiros têm uma grande influência do “hand made” em suas criações. Bordados e estampas, bem como o “artesanal”, são influências que sempre estão traduzidas em nossas coleções.”

O site www.martielotoledo.com.br todo escrito em inglês já diz tudo e avisa: “From London to Tókio – Made in Brazil”. Desde 2001, o misterioso estilista, que nunca gosta de mostrar o próprio rosto, lança suas coleções em Londres. Seu estilo desconstrutivista, streetwear e SCI-FI PUNK encontra referências no Rock ‘n’ Roll (adora Teds, Skins, Punks, Mods) misturadas com pesquisas em Bioastronomia (ciência que estuda a vida extra-terrestre). Esta obsessão sobre a conquista do espaço está sempre atual em suas criações tais como logos fictícios para os programas da NASA e da STARCITY. 

O tio-avô de um dos nomes de ponta da moda feminina de Minas Gerais foi o fundador da sua cidade natal, Teófilo Otoni. Graça Ottoni começou fazendo roupa de bonecas quando era criança e biquínis na adolescência. Sua história com a moda fez ‘uma curva’ pois ela se formou administradora de empresas. Em 1980, resolveu viver das peças em estilo hippie que confeccionava. Sem nunca abandonar seu estilo, a designer hoje aposta nas mulheres que acreditam que roupas “hippie-chic” nunca caem de moda.

Se o tricô é marca da cultura e da moda mineiras, a Coven soube bem explorar suas possibilidades. A quase  arquiteta e hoje estilista Liliane Rebehy, abusou das linhas e fios para criar uma trama inusitada. Com quase 20 anos de mercado, a marca se supera ao criar peças arrojadas, exclusivas e modernas, sem deixar de mixar criatividade e tendência. Nos últimos cinco anos exporta para o Japão, Canadá, Estados Unidos, Bélgica, Alemanha, Turquia, Itália, Inglaterra, Grécia, África do Sul, Austrália, Suíça, Áustria, Portugal, Líbano e Rússia, provando mais uma vez que quem é do mundo também é de Minas Gerais.

Eduardo Suppes é um dos expoentes da jovem geração de estilistas mineiros. Começou aos 17 anos na extinta Dee Jay's, loja alternativa de Belo Horizonte que fez sucesso na década de 80. Depois de passar por várias grifes, desenhando e prestando assessoria, Suppes lançou em 1998 sua própria marca, desenvolvendo uma moda que se equilibra sempre entre o básico e o sofisticado, o glamouroso e o moderno. É conhecido pelos vestidos de noite, mas a malharia e o jeanswear, tanto feminino como masculino, também estão presentes em suas coleções. Os anos 80 são uma referência recorrente.

A lista de sucessos do ‘mago’ das passarelas é grande. Sim, Ronaldo Fraga é o queridinho nacional. Graduado em estilismo pela Universidade Federal de Minas Gerais no início dos anos 90, passou os anos seguintes especializando-se no exterior.

Em Belo Horizonte, Fraga já começou sua carreira chocando a primeira edição do Phytoervas Fashion em 1996, com excesso, cor, humor e levantando questões humanas e sociais. Ele gosta de vestir personagens, e ainda assim atender ao mercado. É... A varinha de condão de Ronaldo Fraga ainda vai nos surpreender muito a cada coleção.


De tudo um pouco no palco

O teatro mineiro não tem só uma faceta, tem milhares. Desde os seus primórdios existem as mais variadas tendências nos palcos desta terra, e é bom que seja assim. Teatro comercial, de pesquisa, besteirol, teatro clássico. “O teatro, quanto mais diversificado, melhor fica. Acho que existe espaço para todos e isso é muito bom.”, assim disse Eduardo Moreira, um dos integrantes do maior e mais conceituado grupo mineiro, o Galpão. Agora com 25 anos de trajetória, o Grupo Galpão se renova a cada espetáculo. “Romeu e Julieta”, “Um Moliére Imaginário”, “Partido”, “Rua da Amargura”, “Um Trem Chamado Desejo”, “O Inspetor Geral” e o mais recente “Um Homem é um Homem”, dirigido por Paulo José deixam o público e a crítica encantados ano após ano. É um dos grupos brasileiros que mais viajam, não só pelo país como também pelo exterior, já tendo percorrido o território brasileiro de norte a sul e participado de vários festivais em dezessete países da América Latina, América do norte e Europa. Trata-se de um grupo formado exclusivamente por atores, sem a liderança de um diretor, que desenvolve cada trabalho com um encenador convidado ou com um elemento do próprio Grupo. Interessa-lhe sempre a pesquisa de variados elementos cênicos, com destaque para as linguagens do circo e das formas populares de teatro. A música comparece como um componente definidor do trabalho do Galpão. Executada pelos próprios atores, que se ocupam do canto e do instrumental, envolve temas eruditos e populares, sempre traduzidos para uma linguagem brasileira e universal.

O Grupo também é referência como pesquisa, formação e estímulo à criação teatral, através da criação do centro cultual Galpão Cine Horto. Em todos os projetos que realiza, está sempre em evidência a possibilidade de unir e reunir pessoas em torno do teatro. Desde quando foi fundado, em 1998, tem consolidado o perfil de espaço aberto à comunidade para o compartilhamento de idéias e de conhecimentos.

A história de Minas é marcada por inovações e revoluções no teatro. Outra prova disso é o Grupo Giramundo. Um dos mais antigos grupos brasileiros dedicados exclusivamente ao Teatro de Bonecos, foi fundado em 1970 por três artistas plásticos da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, Álvaro Apocalypse, Terezinha Veloso e Maria do Carmo Vivacqua Martins (Madu). Esmerou-se, ao longo das últimas três décadas, à pesquisa, preservação e produção do Teatro de Bonecos em suas variadas formas. Com a contribuição do Giramundo, o Teatro de Bonecos do Brasil supera a condição de campo exclusivamente infantil para ganhar formas e temas adultos, dialogando com questões formais, estéticas e políticas complexas.

Considerado mais como um centro de pesquisa e de criação do que um grupo convencional de teatro, acumulou como resultado da trajetória ininterrupta de seu trabalho, uma grande coleção de marionetes contando 850 bonecos. Tudo isso está hoje em um Museu no bairro Floresta em Belo Horizonte.

O Grupo Armatrux, formado na década de 90 também inovou e agradou integrando técnicas circenses, mímica, capoeira e teatro de bonecos.

O Centro de Produção Cultural Catibrum Teatro de Bonecos tem o interesse em pesquisar e divulgar a arte do Teatro de Animação através de montagens de espetáculos, oficinas de construção e manipulação e realização de festivais que integram público e titeriteiros do Brasil e de várias partes do Mundo. Desde a sua fundação, em 1991, a Companhia trabalha em diversas linhas de pesquisa do teatro de animação. Se falta algo a citar, lembremos da Cia. Luna Lunera, composta por atores graduados pela Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes. O espetáculo “Perdoa-me por me Traíres” dirigido por Kalluh Araújo recebeu nove prêmios e representou o Brasil no Chile em 2001.


Referência mundial na dança

Para criadores em todo o Brasil e nos principais centros mundiais, Minas Gerais também é referência na dança. Apesar de não ter o orçamento do eixo Rio-São Paulo, Minas não pára de criar. Os coreógrafos e bailarinos “rebolam” com o pouco dinheiro investido na dança e, talvez por isso, criem obras tão irreverentes e inovadoras que brotam de uma necessidade vital de manifestação artística. É nisso que Bete Arenque, bailarina e coreógrafa da Cia. SeráQ acredita. A história da SeráQ tem início em 1993, em Belo Horizonte, a partir do encontro de bailarinos, atores, músicos e poetas em torno de temas ligados a cultura de raízes africanas no contexto da cultura popular brasileira. Adotando a interrogação como filosofia e meta, e valendo-se de sua liberdade de trânsito entre dança, teatro e música, estes artistas incorporaram o material pesquisado e o transformaram em uma linguagem cênica, contemporânea e original, que revelou algumas interessantes facetas da identidade brasileira. “A Cia. é um núcleo artístico emergente, um espaço de criação artística e de formação que propicia profundas reflexões sobre a função da arte para a sociedade contemporânea. Rui Moreira, nosso diretor artístico, é um homem extremamente inconformado, preocupado com o sentido, a ética e a estética do movimento. Têm questionamentos importantes sobre o homem em seu contexto humano, social e político. Muito observador e generoso, utiliza os corpos e os gestos dos nossos intérpretes como matéria prima de suas criações. Isso torna o nosso trabalho inabitual e contemporâneo.” completa. 

Talvez da mesma maneira com que Minas é conhecida e identificada pelo pão-de-queijo, é pelo Grupo Corpo. Não há quem ainda não suspirou ao ver o grupo no palco, e esse arrebatamento já vem de longa data. Hoje, três décadas passadas da sua fundação, o Corpo está definitivamente inserido entre as melhores e mais requisitadas companhias de dança do planeta. Mantém em repertório sete dos 32 espetáculos já montados e passa grande parte de seu calendário anual em turnês e apresentações internacionais.

Coreógrafo residente da companhia desde 1981, Rodrigo Pederneiras ergueu um vasto vocabulário de movimentos, fundando uma escritura coreográfica própria e absolutamente singular. Reconhecido como um dos expoentes do cenário coreográfico contemporâneo, Rodrigo tem sido convidado com constância para trabalhar com companhias como a Deutsche Oper Berlin (Alemanha), Gulbenkian (Portugal), Les Ballets Jazz de Montréal (Canadá), Stadttheater Saint Gallen (Suíça) e Opéra du Rhin (França).

O primeiro espetáculo do grupo “Maria, Maria” foi um recorde de produção local: percorreu 14 países e foi apresentado no Brasil de 1976 a 1982. Coreografia do Argentino Oscar Araiz, “Maria, Maria” teve música de Milton Nascimento e roteiro do letrista Fernando Brant. Reduzindo a multiplicidade dos espetáculos que vieram em seguida, pode-se dizer que a carreira do grupo vem sendo marcada por sucessivas metamorfoses, mas sempre norteada por três preocupações: a definição de uma identidade vinculada a uma idéia de cultura nacional; a continuidade do trabalho e a integridade na sustentação de padrões de elaboração. Se você ainda não assistiu à “Parabelo”, “Benguelê” ou “Santagustin” não conhece parte da alma, do coração e do Corpo do brasileiro.
A dança mineira, porém, consegue ir além de um só grupo reconhecido. Buscar a síntese do movimento, trabalhando em função da dramaturgia do gesto. Dança feita para sentir e emocionar: isso é o Grupo de Dança Primeiro Ato, também um dos maiores da atualidade. Com vinte anos de trajetória, continua expandindo os limites da dança contemporânea. Já recebeu mais de 48 prêmios nacionais e se apresentou em países como Estados Unidos, Espanha, Portugal, Argentina, Alemanha, Uruguai, Bolívia e Colômbia, sempre com grande reconhecimento de público e de crítica.

Força visual e simbólica. Os espetáculos do Grupo de Dança Primeiro Ato proporcionam ao espectador momentos de puro encantamento. E esses momentos são fixados de forma inesquecível em suas memórias.

Se existe a palavra ecletismo na dança mineira, ela define a Companhia de Dança do Palácio das Artes. Fundada em 1971 pelo professor Carlos Leita, ao longo de sua história participou de montagens magníficas de óperas, cantatas e eventos que reúnem os corpos artísticos da Fundação Clóvis Salgado. E assim, com o estímulo da Fundação, a Cia mantém constantemente um processo de reflexão e pesquisa sobre sua linha de atuação.

As montagens independentes da Cia, dirigida por Cristina Machado circulam pelo interior de Minas Gerais e em quase 10 estados brasileiros. Os maiores sucessos do repertório são “Poderia Ser Rosa”, “Entre o Céu e as Serras” e “Sonho de Uma Noite de Verão (fragmentos amorosos)”.     

Quem conhece bem o povo mineiro sabe que não existe uma ‘arte menor’. Tudo se torna grandioso nas mãos dos seus criadores. Por isso, não se deve ter nenhum tipo de estranhamento se a dança de salão entrar também nesta lista. A Mimulus Cia. De Dança é uma forte referência no cenário nacional e foi a primeira companhia de dança de salão a conquistar prêmios nos principais Festivais de dança do Brasil.

A Mimulus partiu da mistura de samba, choro, salsa, fox e bolero. E conseguiu o que parecia improvável: transpôs os limites formais de cada estilo, fundiu técnicas clássicas e contemporâneas e ganhou elementos teatrais, o que resultou em uma linguagem própria, inovadora. O clima de cabaré, a luz vermelha e a atmosfera carregada ficaram propositadamente para trás. Em seu lugar, emergiu um estilo vibrante, onde se destacam a diversidade de ritmos, a técnica, a garra e a energia dos 12 jovens bailarinos que compõem o elenco, dirigido por Jomar Mesquita.


Na esquina da música universal

A tradição musical mineira vem de longa data. No século XVIII, Padre João de Deus é um dos mais importantes representantes da Música Colonial Mineira. Essencialmente sacra, composta para coro e orquestra, ela era encomendada pelas irmandades para abrilhantar seus cultos. Um dos traços marcantes da música feita em Minas no século 18 são as referências ao contexto religioso ibérico e às suas práticas paralitúrgicas, como procissões e ofícios.

O Coral Ars Nova da UFMG, fundado pelo Maestro Sérgio Magnani é hoje o coral brasileiro que mais obteve prêmios no país e no exterior. Com 47 anos dedicados à pesquisa e divulgação da Música Colonial Mineira, já viajou por mais de 20 países do mundo e é um dos grandes responsáveis pela sobrevivência das partituras oitocentistas e pela formação de um público cativo e sempre emocionado pela beleza da nossa música colonial.

Se a música precisava de uma revolução, teria que acontecer em Belo Horizonte. Tudo o que conhecemos como novidade na música mineira despontou com O Clube da Esquina. Época de grandes mudanças no cenário político brasileiro, a década de 60 revelou o Clube da Esquina com Milton Nascimento, Fernando Brant, Lô, Telo e Márcio Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Tavinho Moura, Flávio Venturini e Nelson Ângelo. Em 1971, a convite de Milton, Lô participou do hoje antológico LP “Cube da Esquina”, e daí não parou mais. Os rapazes de BH agradaram o público e a crítica nacional e internacional. Eles produziam um som que fundia as inovações trazidas pela Bossa Nova a elementos do jazz, do rock’n’roll – principalmente The Beatles –, de música folclórica dos negros mineiros e alguns recursos de música erudita e música hispânica.

O legado do Clube da Esquina permanece ainda hoje nos músicos mineiros que surgiram depois. O Grupo 14 Bis, Paulinho Pedra Azul, Tunai, Tadeu Franco, Marku Ribas, Maurício Tizumba, Pato Fu, Skank, Jota Quest, Sérgio Santos, Flávio Henrique, Vander Lee e Celso Adolfo, com suas marcas próprias e estilos diversos deram continuidade à história da rica música mineira. 

E se o papo é viola, estamos no berço deste instrumento. Nasceu aqui o virtuoso Renato Andrade e o maior divulgador da moda de viola, Chico Lobo.

O Belorizontino Affonsinho, um dos guitarristas mais conceituados do país, gosta de frisar que aqui também se faz o bom e velho rock and roll. “Quando fui para o Rio tocar no Hanoi Hanoi as pessoas de lá não sabiam que por aqui se fazia rock'n roll de qualidade também. Me lembro do Frejat e do Lobão perguntando ao Arnaldo Brandão se eu era mineiro mesmo porque sabia tocar rock !!! ... Engraçado, né ? Eu já conhecia tanta gente bacana por aqui ! Gente de primeiríssima linha que tocava rock, funk, fusion e jazz como poucos no mundo.” disse. E tem ainda o Sepultura, grupo de Deth Metal que se formou despretensiosamente na década de oitenta em BH conquistando o mundo.

Temos também nessas terras algumas das vozes femininas mais belas e marcantes do país. Marina Machado, Paula Santoro, Alda Resende, Babaya, Júlia Ribas, Patrícia Ahmaral, Selmma Carvalho, Titane, Regina Spósito, Ana Cristina, Ceumar, Ângela Evans, Trio Amaranto. De onde vem a fonte dessas vozes femininas tão marcantes? Metade dos músicos brasileiros ainda está, atordoada, a se perguntar.

Berço das tradições musicais brasileiras que mais se identificam com o jazz, Belo Horizonte está se transformando nas últimas décadas em uma verdadeira meca da música instrumental, na qual convivem pacificamente músicos de todo o planeta interessados em se aprofundar na harmonia mineira. A característica já rendeu até comparação com a Liverpool dos Beatles, na Inglaterra, feita pelo guitarrista americano Pat Matheny, que veio conhecer de perto a rica fonte do Clube da Esquina. Daí podemos enumerar uma série de músicos geniais: Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Chico Amaral, Gilvan de Oliveira, Marcus Viana, Neném, Weber Lopes, Kiko Continentino, Carlos Ernest, Juarez Moreira e tantos outros. “Nós todos sofremos influência de música brasileira e da boa música internacional. Acho que os mineiros conseguem introduzir um elemento  particular no meio de todas essa informações”, completa Juarez Moreira.  E ainda, o sucesso e a inovação do grupo Uakti e seus instrumentos construídos de formas e materiais inusitados deixam no ar as notas que ainda estão para serem compostas nos próximos anos pelos músicos mineiros.



Grupo Corpo: a dança de Belo Horizonte coreografada para o mundo. (Foto Divulgação Luiz Pederneiras)


Escultura de Amílcar de Castro: Arte lapidada em Belo Horizonte. (Foto Henry Yu)

Coven: tricô é símbolo da cultura e da moda mineiras; a marca se supera ao criar peças arrojadas, exclusivas e modernas, sem deixar de mixar criatividade e tendência. (Foto Márcio Rodrigues)


Grupo Galpão: Interessa-lhe sempre a pesquisa de variados elementos cênicos, com destaque para as linguagens do circo e das formas populares de teatro. A música comparece como um componente definidor do trabalho do Galpão. (Foto Fernando Grilo)

Se existe a palavra ecletismo na dança mineira, ela define a Companhia de Dança do Palácio das Artes. (Foto Fernando Grilo)


Giramundo: o Teatro de Bonecos do Brasil supera a condição de campo exclusivamente infantil para ganhar formas e temas adultos. (Foto Fernando Grilo)

Palco do Palácio das Artes: todas as expressões artísticas em cena. (Foto Henry Yu)


Toninho Horta: a rica fonte do Clube da Esquina; uma série de músicos geniais. (Foto Fernando Grilo)

O violonista e guitarrista Juarez Moreira: música universal. (Foto Divulgação)


A inovação do grupo Uakti e seus instrumentos construídos de formas e materiais inusitados. (Foto Fernando Grilo)