A arte em seu éden

Em um jardim de 300 mil m², que tem Burle Marx como um dos mentores do projeto paisagístico, um dos mais ousados projetos artísticos já desenvolvidos no Brasil ganha forma e nome: Centro de Arte Contemporânea Inhotim (Caci),  que revoluciona o cenário nacional de arte contemporânea, além de se transformar em um fantástico atrativo turístico de Minas Gerais. São 450 obras de 60 artistas brasileiros e estrangeiros harmoniosamente adaptados a uma paisagem montanhosa com mais de 900 espécies de plantas nativas e exóticas.


Reportagem Marina Rattes
Fotos Daniel Mansur

O Centro de Arte Contemporânea Inhotim (Caci), localizado a 60 quilômetros de Belo Horizonte, no município de Brumadinho, está em fase final de implantação e se propõe a democratizar o acesso a obras de artistas conhecidos mundialmente, como Hélio Oiticica, Tunga, Vik Muniz, Amílcar de Castro, Cildo Meireles e Franz Ackermann.

Especialistas do universo das artes são unânimes em festejar a iniciativa e destacam o valor das obras e a forma como foram reunidas no Caci.  O museólogo Paulo Rossi considera que o acervo do Caci é extremamente expressivo e comparável ao dos principais museus do mundo. “O conjunto é muito representativo. Ele nos dá um panorama da arte internacional. Não é possível, no entanto, falar em completude quando tratamos de arte contemporânea, porque a cada dia novas coisas são criadas, não é como um acervo barroco, por exemplo”, analisa. Na mesma linha de raciocínio, o artista plástico e ex-diretor do Museu Mineiro Luís Augusto de Lima observa que o conjunto de obras exposto é de altíssimo nível e acrescenta que alguns dos artistas representados no Caci “nunca estiveram tão bem instalados”, opina. O artista afirma ainda que o intercâmbio com artistas de outros países, proporcionado pelo Caci, é valioso.


Natureza e arte integradas

Um dos diferenciais do museu, segundo Rossi, é a integração entre natureza e arte, “principalmente se pensarmos que um dos mentores do projeto paisagístico foi Burle Marx”. O museólogo acredita que o Caci possui uma forma contemporânea de apresentação da natureza. “É um museu contemporâneo de história natural. Espécies nativas e exóticas dialogam em perfeita harmonia. Nada é estranho ao meio”, diz.

“Como nenhum outro equipamento no país, o Caci tem a chance de exibir obras de grande escala, graças ao espaço físico e a integração com a natureza. Nesse sentido, é radicalmente diferente de um museu urbano”, explica Rodrigo Moura que juntamente com Jochen Volz e Allan Schwartzman, é responsável pela curadoria das exposições. Para se ter uma idéia, as medidas da escultura Inmensa, de Cildo Meireles, foram ampliadas antes que a obra fosse recebida no Caci. Inmensa, feita em aço oxidado, é formada por cadeiras e mesas de diferentes tamanhos, equilibradas umas às outras. A instalação tem quatro metros de altura, oito metros de base e 1,7m de profundidade. Está posicionada ao lado de um dos 13 exemplares da exótica palmeira-africana Raphia Farinifera. 


Sete pavilhões

Outra criação que chama atenção é o iglu de fibra de vidro, do dinamarquês Olafur Eliasson. O contraste entre o verde intenso do jardim e o objeto branco é no mínimo curioso e convidativo. Dentro da instalação, efeitos de luz e uma fonte d´água oferecem ao visitante uma experiência multisensorial.

As esculturas estão por toda parte. Completam o cenário de forma tão suave que parecem pertencer à natureza. Os traços de Amílcar de Castro, com sua Gigante Dobrada, de cinco metros de altura e quatro metros de base, podem ser apreciados no jardim. Mais adiante, cercada por eucaliptos e palmeiras, está a escultura Bronze Blockhead, do norte-americano Paul McCarthy. Em meio à vegetação, um corpo sem cabeça, de Edgard de Souza, ganha destaque. Ainda na parte externa, as obras de Thomas Shütte e Saint Clair Cemin complementam o rico acervo de esculturas.

Para abrigar todos os trabalhos, foram construídos sete pavilhões dispostos em diferentes partes da propriedade. “Devido à forma como o centro foi concebido, o visitante tem a oportunidade de visitar galerias e ao mesmo tempo andar pelo jardim. Nesse sentido, os projetos site-specific e ambientais são de especial importância para o programa expositivo do museu e um traço distintivo em termos nacionais e internacionais”, explica Rodrigo Moura. São pinturas, fotografias, instalações e esculturas de arte contemporânea expostas coletivamente ou em salas individuais, de acordo com as características das obras. 


Tunga

O artista pernambucano Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, o Tunga, está representado em dois prédios e no jardim. Formado em arquitetura, Tunga  trabalha frequentemente com o excesso. A pesquisa em outros campos de conhecimento – entre eles a literatura, filosofia, psicanálise e o teatro – ajuda o artista em suas criações. Materiais pesados, como ferro e cobre, ou objetos comuns, como agulhas gigantes e pentes, são transformados em obras de arte. Exemplo de sua técnica e de seus traços peculiares é a instalação True Rouge alocada em um pavilhão que parece flutuar sobre um lago. A obra, que ocupa todo o espaço do prédio, é vermelha, composta por uma rede de telas, fios, esponjas e garrafas. Em Palíndromo Incesto, exposta em uma das galerias mistas, Tunga utilizou fios de cobre, ímã, aço e termômetros de vidro.


Cildo Meireles

Outro nome de destaque no acervo do Caci é Cildo Meireles, cuja obra exposta também ocupa um pavilhão individual. Pintor, desenhista, cenógrafo, figurinista, gravador e escultor, Meireles é um dos mais bem conceituados artistas contemporâneos do país. Já participou de importantes mostras no mundo todo, entre elas as bienais de Veneza, em1976;  de Paris, em 1977; e Internacional de São Paulo, em 1981, 1982 e 1998. Sua obra é caracterizada pela diversidade de técnicas e suportes. Por meio de pinturas, desenhos, performances, esculturas, instalações e fotografias, Cildo Meireles discute questões sociais e políticas. A conjugação de múltiplas linguagens e a apropriação de objetos não artísticos são freqüentes em seus trabalhos. Sua primeira instalação foi Desvio para o Vermelho, apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), em 1967. No Caci, o público poderá conferir Através, montada pela primeira vez no Brasil.


Helio Oiticica

Conhecido pelo teor polêmico de seus trabalhos, Hélio Oiticica está representado pela instalação CC5 / Hendrix War, da série “Cosmococa – Programa in Progress”, criada por ele em parceria com o cineasta Neville D’Almeida, há cerca de 30 anos em Nova Iorque. A série é baseada no conceito de Quasi-cinema, que altera a idéia de cinema e remete à “projeção das imagens fixas dos slides em movimento e o movimento da platéia ao ver essas imagens”, explicou Neville. Em Cosmococa, fotografias de ícones da contracultura são superpostas por desenhos feitos com cocaína. Salas climatizadas, com redes coloridas, colchonetes e almofadas completam as instalações da série.

CC 5 / Hendrix War foi montada em uma das galerias do Caci. Em um espaço individual, cortado por redes de cores fortes e vibrantes, 34 slides são projetados, nas paredes e no teto, ao som de Jimi Hendrix.

Podem ser apreciadas ainda, no mesmo pavilhão, fotografias dos slides das outras quatro instalações da série de Hélio Oiticica e Neville D’Almeida. Cosmococa 1(CC 1) Trashiscapes exibe 32 slides do cineasta espanhol Luis Buñuel embalados por músicas populares do nordeste brasileiro mescladas com sons de rua e vozes masculinas.     

CC2 / Onobject mistura imagens de Yoko Ono com uma trilha sonora que funde gritos com ruídos. Marilyn Monroe é o tema de CC3 / Maileryn. Projeções da atriz maquiada com fileiras de cocaína são exibidas simultaneamente nas paredes e no teto. O público, deitado no chão coberto de vinil, rola sobre dunas de areia, enquanto assopra balões e apitos. A última instalação retratada nas fotos é CC4 / Nocagions, dedicada aos poetas concretistas Augusto e Haroldo de Campos. Com músicas de John Cage e uma iluminação bastante detalhada, o ambiente de “Nocagions” é uma piscina.


Miguel Rio Branco

As obras de Miguel Rio Branco foram sintetizadas por uma grande seleção de fotografias e pela montagem da instalação Gritos Surdos II. Pintor, fotógrafo, diretor de cinema e criador de instalações multimídia, o artista – nascido na Espanha e radicado no Brasil –  iniciou sua carreira em 1964. No começo dos anos 70, escolheu a fotografia como veículo de pesquisa artística. Desde então, sua obra foi exposta em museus e galerias de diversos países, como México, Estados Unidos, Itália, Espanha, Suíça e Brasil. Atualmente, integra os mais importantes acervos internacionais.


Vik Muniz

Outro destaque é a série de 11 fotografias de Vik Muniz, comissionada pela coleção. Entre 2002 e 2003, o artista tirou fotos aéreas de desenhos gigantes feitos por ele no solo da região. Nascido em São Paulo em 1961, Muniz também morou, há 20 anos, em Nova York. O artista plástico já realizou, desde 1989, cerca de 70 exposições individuais e 150 coletivas em quase 90 cidades pelo mundo. Já teve seu trabalho apresentando em importantes espaços como o Metropolitan Museum e o Whitney Museum, em Nova York, na Fundação Miro, em Barcelona, e nos museus de arte moderna (MAM) do Rio de Janeiro e São Paulo.


Arte para todos

O Caci nasceu da vontade do empresário mineiro Bernardo Paz de tornar disponível ao grande público o seu acervo particular de arte contemporânea. Paz iniciou sua coleção em 1998, com trabalhos de Tunga, Cildo Meireles, Miguel Rio Branco e José Damasceno e hoje já conta com cerca de 450 obras de artistas nacionais e internacionais, criadas prioritariamente a partir dos anos de 1960.  “A arte só faz sentido quando pode ser apreciada por todos. Não há razão para restringir o acesso à arte contemporânea a uns poucos colecionadores. Foi esse propósito que norteou a criação do Caci”, conta o empresário.

Em 2000, o colecionador passou a contar com o aconselhamento de curadores para realizar as aquisições e, em setembro de 2004, um primeiro recorte da coleção foi apresentado. “A mostra teve como objetivo introduzir a um público, a principio restrito, um pouco da história da coleção, de suas vocações e de seus objetivos futuros. Foram apresentadas salas monográficas de Miguel Rio Branco, Vik Muniz, Tunga, Helio Oiticica e Neville D`Almeida, Cildo Meireles, Jarbas Lopes, Albert Oehlen, Franz Ackermann, Janet Cardiff e Iran do Espírito Santo”, lembra o curador Rodrigo Moura.


Impacto avassalador

Atualmente, o centro de arte está se preparando para abrir suas portas ao público em geral, o que deve acontecer no final do mês de setembro. Visitas pré-agendadas já vêm sendo realizadas. “Existem solicitações de todo o Brasil e estamos gradualmente trabalhando para aumentar a nossa capacidade de recebimento de público. Estamos priorizando escolas e outras entidades culturais no momento”, explica.

As expectativas em relação ao desenvolvimento do projeto são bastante otimistas, mas as dificuldades em se manter uma proposta desse porte já são encaradas como um grande desafio. “Por ser uma iniciativa ainda muito jovem, os maiores desafios para a instituição estão no futuro, no sentido de manter a formação de uma coleção de forma consistente e relevante em escala mundial e continuar contribuindo com os artistas no sentido de desafiá-los com novos contextos para suas obras”, diz o curador.

Apesar de julgar importante a iniciativa do Caci, o artista plástico Luís Augusto de Lima defende a criação de instituições públicas de preservação da arte. “O panorama museológico de Minas Gerais está muito aquém do que nós gostaríamos. Uma iniciativa como esta, totalmente individual, desvinculada do poder público é surpreendente. Resta saber em que medida um projeto ousado como esse vai durar”.

Para o museólogo Paulo Rossi, no entanto, as contribuições que a instituição vai dar à população são indiscutíveis.  “A realização desse projeto é absurdamente transformadora. Os resultados só poderão ser avaliados daqui a alguns anos, de tão avassalador que é o impacto, principalmente para a comunidade de Brumadinho e do entorno”, avalia Rossi.


Público diversificado

Segundo Rodrigo Moura, a idéia dos responsáveis pelo projeto é receber um público diversificado e não se restringir apenas à comunidade artística. “As pessoas que têm pouca intimidade com artes são as que mais nos interessam. As artes visuais, como todas as artes, dão importantes contribuições à produção de conhecimento, e nós compreendemos que a nossa instituição esta iniciando um processo de encontrar sua missão civilizatória, educativa e cultural. Portanto, a formação de público, ancorada em grandes ações educativas, será um objetivo permanente da instituição. Não existe museu que só funciona para a comunidade artística”, afirma o curador.


Diretriz educativa e oficinas

A diretriz educativa do Caci é apontada por Paulo Rossi como uma contribuição fundamental para a sociedade. “O Caci possui um agente transformador na área da educação importantíssimo”. Rossi sustenta que “a cultura, independente de como chega à população, tem a capacidade de transformar e acrescentar conhecimento”.

Exemplo do compromisso do centro com a formação artística da comunidade de Brumadinho é o “Projeto Laboratório de Experiências e Vivências Estético-sensoriais no âmbito da Arte-educação”, iniciado em junho de 2005. “Nosso objetivo é promover uma aproximação entre a comunidade e a instituição. Queremos que eles percebam o Caci como um espaço dedicado à população, não como um lugar elitizado e distante”, explica a coordenadora do projeto Laboratório, Elisa Campos.  O trabalho consiste em oferecer atividades para alunos de escolas públicas da região que demonstram interesse pelo campo das artes. Foram selecionados 30 estudantes, entre 16 e 22 anos, para participar de oficinas de desenho, máscara e história da arte. Duas vezes por semana, nas segundas e sextas-feiras, os jovens passam algumas horas no Caci, quando aprendem novas técnicas de produção.

A coordenadora explica que a idéia não é transformar as oficinas em cursos de treinamento. “Muita gente tinha a expectativa de que pudessem trabalhar no Caci, mas nós esclarecemos que o objetivo não era esse. No entanto, as oficinas promovem a capacitação dos meninos e acabam sendo uma preparação para o mercado de trabalho. Há chances de chamarmos alguns deles para trabalharem no centro”, diz.

Ainda não está garantida a extensão do projeto. “Há uma expectativa de continuação do projeto e formação de novas turmas neste ano de 2006. Mas antes precisamos saber como vai ser o desenvolvimento das atividades até lá. Depois de março, vamos passar por um período de avaliação dos resultados alcançados”. Ela revela que outra idéia é levar a produção dos alunos até a comunidade. “Não queremos que o trabalho fique restrito ao espaço do Caci, queremos levar o que for produzido para dentro da comunidade, talvez por meio  de uma exposição no Centro Cultural de Brumadinho”.



Cildo Meireles. Inmensa, 1982-2001. (Foto Daniel Mansur)


Natureza e arte integradas (foto Daniel Mansur)

Thomas Shütte: Bronze Woman no.10, 2003. (Foto Daniel Mansur)


Pavilhão 1:
- Sala Albert Oehlen
- Sala Janet Cardiff
(Fotos Daniel Mansur)

Saint Clair Cemin Chimera Cogitans, 1998. Mármore. (Foto Daniel Mansur)


Valeska Soares (primeiro plano). Sem título, 1999. Estrutura de ferro, espelho e lustre de crystal. (Foto Daniel Mansur)

Vista paradisíaca com o Pavilhão de Tunga ao fundo  e a obra de Amílcar de Castro à esquerda. (Foto Daniel Mansur)


› Recortes Particulares, por Raquel Coutinho. (Foto Daniel Mansur)