Belo Horizonte em espírito

Por Euclides Guimarães


A Rua da Bahia é publicamente reconhecida como guardiã da alma de Belo Horizonte.  Nem tanto nos planos, quanto na realidade histórica ali vivenciada, esta artéria se notabilizou por abrigar o espírito do cotidiano da cidade, razão porque tornou-se em verso e prosa o símbolo mesmo desse espírito.

"A vida é esta, descer Bahia, subir Floresta". A sutil corruptela do haikai de Rômulo Paes tonou-se um dito popular herdado dos tempos áureos em que amanuenses, operários, estudantes, bancários, poetas e vagabundos perambulavam por esta rua, fazendo de sua rotina parte substancial de suas vidas. Pela Bahia se passava, de bonde ou a pé, do trabalho para casa, mas a rua se impunha à sua condição de lugar de passagem, a de um logradouro equipado para a vida boêmia. Dos anos vinte aos sessenta, entre bares, cafés, escolas, salas de espetáculo, pátios de paróquias, varandas de casarões e repartições públicas construi-se ali uma atmosfera especial, sem a qual dificilmente encontraríamos elementos para falar de um espírito belo-horizontino. 

E em que consistiria basicamente esse espírito?

Penso que poderíamos situá-lo entre as peculiaridades do provincianismo mineiro, de uma cultura de muita escuta e pouca fala, que ecoa surdamente das paredes das montanhas e as universalidades de um cosmopolitismo que perpassa a efervescência humana de todas as grandes cidades. O lado provinciano é uma confluêcia de todas as Gerais, pois a cidade é um produto de migrações intensas, mas originárias, em sua grande maioria, de Minas mesmo. Há mais de cem anos as Gerais circulam e se encontram em Belo Horizonte, de forma que a cidade recebe toda essa carga cultural que vem dos interiores e nela se misturam. E são interiores de uma diversidade quase nacional, na medida em que recebem fortes influências das regiões fronteiriças, que abarcam os quatro cantos do Brasil. Os migrantes são predominantemente jovens, que vêm para estudar, procurar trabalho ou outras oportunidades próprias de uma grande cidade, mas trazem suas vivências, parte de seus hábitos, além de traços lingüísticos e sotaques para a moenda da complexidade metropolitana. Por essa diversidade e juventude é um provincianismo propenso a se deixar seduzir por universalidades urbanas e suas espetacularidades.
      
O lado cosmopolita é, por origem, forjado, mas também acentuado. Forjado por ser uma cidade grande que já nasceu grande, uma metrópole planejada, portanto isenta da espontaneidade sinuosa da longa história da formação da maioria das metrópoles. A modernidade — que normalmente se impunha de forma gradativa como tendência — em Belo Horizonte se colocou, desde o início, como regra. Portanto havia, de forma ora mais velada, ora mais explícita, uma certa obrigatoriedade de adotar hábitos modernos. Entre os hábitos modernos que fizeram tradição nessa cidade estava o da leitura e o do debate em lugares públicos. Além do livro, é decisiva a presença dos meios de comunicação. Primeiro a imprensa e sua associação direta com coisas como futebol e política, depois a rádio aumentando o repertório de ofertas simbólicas para novelas, programas de auditório, coberturas jornalísticas bombásticas e ao vivo e o cinema, com todo um star system já assustadoramente sedutor. Quando chegam as grandes mensagens da mídia de rua nos anos 40 e a TV nos 50, a cidade os abarca com naturalidade, pois é só a modernidade com mais alguns de seus trunfos.

A cultura belo-horizontina já esteve assim, desde o início, pautada por esse hibridismo que mistura raízes interioranas com elementos etéreos do mundo global. A Rua da Bahia foi o locus mais apropriado para a efervescência desse encontro. Foi em seus bares cinemas, casas de espetáculo, livrarias, que essa cultura híbrida encontrou espaço para acontecer. Foi lá, mais que em qualquer outro lugar que, sem deixar a quietude, o mineiro ganhou ansiedade, sem deixar a mansidão, se tornou ousado, sem deixar de ser turrão se fez cidadão do mundo, sem perder hábitos cultivados numa, por vezes, longa ancestralidade, aprendeu a lidar com a pressa, a cambialidade e o experimentalismo moderno. Já aquilo que a cidade tem hoje de pós-moderno passa ao largo do que a Rua da Bahia nos pôde ensinar.

Hoje, adaptada às exigências do tráfego no hipercentro motorizado, quase só restou à rua sua condição de lugar de passagem, afinal a exigência de ser moderna fez de Belo Horizonte uma cidade grande brasileira como outra qualquer, cheia de contrastes, espontaneísmos, crueldades e espaços privatizados. Resta, no entanto, uma aura, uma certa densidade nostálgica em certos pontos, como o Edifício Maleta, o Centro de Cultura e os teatros das imediações da esquina da Timbiras. Há que se considerar que a rua já não é tão decisiva para a manutenção do espírito que nela se origina, que hoje tenta se materializar em outros pontos, mais espalhados pela cidade. A Savassi talvez seja o local onde esse cosmo-provincianismo hoje se faz mais visível. Decisivo continua sendo seu papel de ligação entre importantes regiões da cidade. O usuário atual costuma subir de carro ou ônibus, na rua de mão única que despeja o tráfego em direção aos bairros da zona sul. Todavia, curiosamente, essa aura restante ainda faz da Rua da Bahia um logradouro diferente, capaz de representar a cidade e não os bairros por que passa. A Rua Espírito Santo, paralela à Bahia em toda a sua extensão, ganha a marca de cada bairro por onde passa. Já a Bahia não: em seu compromisso cosmopolita, mesmo que destituída da maior parte da função cultural que a consagra, ela ainda é a rua em que se respira o espírito da cidade. 

Isso quer dizer que esse espírito é tipicamente moderno e que, como tudo o que é moderno, está em constante risco de se diluir em pós-modernidade, em globalização pura, mas aí já estaríamos falando em coisas como megalópoles, condomínios e shoppings e na insanidade consumista do séc. XXI. Poderia ser o espírito da tradição moderna um suspiro de lucidez a ser recuperado? E se fosse o caso, não seria a rua o ponto de chegada? Pois não foi ela o ponto de partida?

Euclides Guimarães é sociólogo e professor da PUC-MG