Um caminho que nunca termina

Por Fernando Grilo, texto e fotos

No alto das montanhas do Retiro das Pedras, em Brumadinho, vive a belorizontina Maria Helena Andrés, antiga aluna de Guignard, e uma das mais importantes artistas plásticas do Brasil. No fundo de sua casa, descendo uma pequena escada no meio de flores e muito verde, fica seu ateliê. Entre quadros, tintas, cavaletes e pincéis, Maria Helena, hoje com 84 anos, continua pintando e desenhando, atividades que para ela funcionam não como trabalho e sim  como descanso para o corpo e a mente. Olhando para a privilegiada vista das montanhas que tem deste cantinho mágico, esta artista, que se diz em constante processo de evolução e aprendizado, diz que desde os primeiros rabiscos a natureza esteve presente em seu processo criativo.


Guignard

Tudo começou na infância, fazendo desenhos e retratos que impressionavam pela fidelidade dos traços da pessoa retratada. Os pais, notando que ali havia uma artista em potencial, levaram a filha promissora para o Rio de Janeiro para começar sua formação com o artista plástico Carlos Chambelland. “Ele foi um excelente professor, mas era muito preso à técnica, muito acadêmico. Quem realmente me ensinou a me soltar, a fazer uma arte mais livre, foi o Guignard”, conta. Na década de 40, a vinda de Guignard para Belo Horizonte juntamente com Niemeyer, Portinari e Burle Max, convidados pelo então prefeito Juscelino Kubitsheck, possibilitou aos artistas da época sentirem de perto a integração de várias áreas do conhecimento. Abria-se em Minas um caminho próprio na história da arte brasileira, somado a um certo lirismo herdado de Guignard.


Terra, Água, Fogo, Ar e Éter

Para Maria Helena, a pintura é uma meditação, um momento de total desligamento com o mundo, onde predomina a tranqüilidade e a paz interior. A tela branca é um ponto de encontro de informações e técnica com o ‘desconhecido’ que vai aparecendo livremente, como uma viagem que chega a um destino sempre surpreendente.

 Somente depois de muito tempo de trajetória, Maria Helena tomou consciência de que ela seguiu na sua arte o itinerário dos cinco elementos da matéria: Terra, Água, Fogo, Ar e Éter. No começo, na fase da Terra, pintava figuras e cenas que via com formas bem definidas, sempre retratando a realidade do campo.

A partir da década de 60, período em que lecionou e foi diretora da Escola Guignard, seu trabalho passa para a fase da Água e toma uma forma completamente abstrata. Influenciada pelo nascimento de Brasília, a artista pintou a tela “Movimento de cores” que lembra ao mesmo tempo edifícios em construção e notas musicais, simbolizadas por pontos coloridos espalhados pela tela. “Meu filho Arthur Andrés (do Grupo Uakti) quando viu este quadro tocou flauta como se ele fosse uma partitura”, conta.

A fase do fogo veio logo depois. Durante os quatro meses em que esteve nos Estados Unidos no período mais tenso da guerra fria ela viu de perto um treino de guerra. Os quadros pintados sob a ameaça de uma guerra atômica tinham traços fortes e agressivos causando impacto à primeira vista.

A fase dos vôos interplanetários, ou a do Ar, é inaugurada coincidentemente com a chegada do homem a lua. O quadro “Foguete Espacial” de 1968 veio como um prenúncio de uma das maiores conquistas da humanidade. As composições, apesar de abstratas, passam claramente a leveza e a integração do homem com o espaço sideral.

A última fase é a do inconsciente, dos sonhos, do inatingível, do virtual. Chamada de Éter por Maria Helena Andrés, esta é a fase de integração de todas as outras, mas que não encerra sua vida artística e continua no caminho que, segundo ela, nunca termina.


Instituto Maria Helena Andrés

Ao longo de todos estes anos, Maria Helena Andrés, além de pintar, desenhar e esculpir, publicou três livros: “Vivência e Arte” de 1966, “Os Caminhos da Arte”, 1977, “Oriente-Ocidente-Integração de Culturas”, 1984, “Encontro com Mestres no Oriente”, 1993 e ilustrou vários outros.

Como se já não bastasse tanta produção artística, esta incansável mineira agora está colocando em prática a idéia de seu neto Roberto Andrés: o projeto do Instituto Maria Helena Andrés. O Instituto visa a construção de um espaço cultural na cidade de Entre Rios de Minas, a 110 quilômetros de Belo Horizonte, com o objetivo de promover a integração e o desenvolvimento de todas as formas de arte na comunidade local. “É necessário conversar com a comunidade, explicar nosso projeto e, aos poucos, despertar a arte nas pessoas. Nós não podemos simplesmente chegar em uma cidade e impor uma situação”, explica.

E qual seria o segredo de manter tanta vivacidade e criatividade até os dias de hoje? “O segredo é procurar fazer sempre aquilo que me dá alegria. Não vou prosseguir em alguma coisa que me traz sofrimento. O importante é navegar sempre por este mar desconhecido e se deixar levar”, diz.