Entrevista
Por Cézar Félix - Foto Carlinhos Filho
Celso Adolfo
O trovador da Estrada Real
Revista Sagarana " A música permite fazer renascer o que parecia perdido no tempo, o amontoado de coisas que formam uma gente e seu momento cultural."

O cantor e compositor mineiro, de São Domingos do Prata, está produzindo um trabalho inédito e surpreendente. 

Celso Adolfo, 51 anos, autor de músicas consagradas, como “Coração Brasileiro” e “Nós Dois”, canta agora as histórias, riquezas e todas as belezas da Estrada Real, num disco com 16 canções inéditas.

— Como surgiu a idéia de fazer um disco tendo como tema inspirador a Estrada Real?

— A idéia de produzir esse disco tomou forma a partir do lançamento do projeto Estrada Real, uma iniciativa do Ministério do Turismo, do governo de Minas Gerais e da Federação das Indústrias de Minas Gerais. Eu fiquei muito motivado a criar um ambicioso trabalho musical em razão da importância desse projeto turístico para o nosso Estado. Aliás, trata-se de um programa de turismo para o Brasil, um produto prioritário para o setor, conforme ressalta o nosso ministro mineiro, Walfrido dos Mares Guia. É inegável que esse projeto precisa de música! Passei então a refletir sobre a importância — e a enorme responsabilidade que assumi — de criar uma trilha sonora para emocionar não só os  turistas como também as comunidades que vivem ao longo da Estrada Real.  

— Além de emocionar as pessoas, o senhor tem outra expectativa em relação a esse trabalho, cujo tema é bem específico?

  São muitas as expectativas. Espero que esse disco seja ouvido fora de Minas Gerais como algo que é uma entre as muitas maneiras de ser mineiro; as canções que brotaram de fatos históricos, dos ambientes antigos, da geografia, das cidades históricas, com elas eu pretendo oferecer a quem viajar por esse caminho uma trilha que traduza  objetivamente alguns dos caracteres mais marcantes de quem é, feito eu, um interiorano. A música permite isso, fazer renascer o que parecia perdido no tempo, o amontoado de coisas que formam uma gente e seu momento cultural. É preciso cantar a natureza magistral dessa trilha, é preciso embalar as belezas das obras de arte e da arquitetura barroca e é preciso valorizar a cultura de um povo que produziu tudo isso, além de reverenciar gente como Tiradentes e resgatar personagens importantes como Fernão Dias e o seu genro Borba Gato, D. Pedro II e outros tantos que fizeram história.

— O CD já tem título?

— O disco ganhou o nome de uma das faixas, “Estrada Real de Villa Rica”.

— O que o senhor pode contar sobre o processo de criação do disco?

— Para chegar a uma idéia clara, simples e definitiva para esse disco, comecei pelo conhecimento da nossa história mineira que me restou dos tempos do Colégio Estadual Marques Afonso, ainda em São Domingos do Prata. Depois parti para uma pesquisa sobre a história das estradas reais, as picadas abertas a mando da coroa portuguesa para viabilizar o escoamento do ouro e das pedras preciosas retiradas das Minas Gerais. Li alguns importantes livros que refletem o conhecimento coletivo a respeito da história mineira. Também me preocupei em buscar informações mais precisas sobre particularidades marcantes dos ambientes que formam a paisagem da Estrada Real.  Fui direto aos nomes e aos ambientes. As músicas contêm, assim, citações históricas, referências à nossa natureza de montanheses, referências rítmicas que soam espontâneas ao interiorano, como são a folia, o cateretê, o batuque.

— Como os temas, os nomes, as situações e os ambientes se transformaram em música?  

— Num disco assim, os traços culturais mais caros à cultura mineira saltariam e seriam a alma do projeto. Os tambores, a congada, o catopê, as folias, os tropeiros, o trabalho escravo, o batuque, a canção dolente e melancólica, isso está no antigo e no recente espírito mineiro. A mescla desses tempos está na nossa maneira de agir no mundo. Os gêneros de época, eles têm recados que merecem ser relidos. Mas tudo começa evocando a atmosfera do século XVIII. Escrevi o poema Entradas e Bandeiras utilizando a métrica de O Navio Negreiro (o mais belo e claro e duro exemplar de reflexão que a poesia e Castro Alves deixaram daqueles dias tenebrosos de escravidão e equívoco), as Entradas e as Bandeiras desbravando a natureza virgem, misteriosa e bravia na Capitania que somava Minas e São Paulo. Em “Terras Altas da Mantiqueira” eu falo disso. Ela tem uma melodia melancólica, que até dói, é lírica, calma e doce, e foi com ela que fechei o disco.

— Quantas canções formam o disco? O senhor compôs todas as músicas?

— O CD de “Estrada Real de Villa Rica”, traz 16 canções. Eu não quis fazer tudo sozinho. Sentia falta de falar daquilo com mais alguém, dividir com quem tivesse algo a ver. Então, convidei Leo Minax, Juarez Moreira e Yuri Poppoff para fazerem melodias sobre letras que eu escrevia. Duas outras têm assinaturas especiais: “Batuque”, escrita por Álvaro Apocalypse, artista plástico e criador do Grupo Giramundo, e “Canoa do Guaicuí”, de Ângelo Oswaldo, jornalista, ex-secretário de Cultura de Minas Gerais e hoje prefeito de Ouro Preto. Dois amigos cuja amizade veio por meio do gosto comum pelo mundo das artes. “Canoa do Guaicuí” concentra o maior número de músicos e intérpretes. Nela eu canto e toco viola caipira, mas vou convidar aí uns dez artistas para participar dessa faixa comigo. Eles entram no final. Cada um canta um verso e todos fazemos um coro. A percussão, nesse momento, tem presença forte. “Batuque” foi composta em 1992 para a trilha da peça “Tiradentes, uma história de títeres e marionetes”, escrita e dirigida por Álvaro Apocalypse e montada pelo Grupo Giramundo - Teatro de Bonecos, de Belo Horizonte. Enquanto Álvaro Apocalypse e eu compúnhamos a trilha da peça, a gente falava de tudo que é Minas Gerais, particularmente essa que está em volta da gente e é, hoje, centro do roteiro turístico. E falamos muito da Estrada Real, do esquartejamento de Tiradentes e seus membros espalhados ao longo daquele caminho até chegar à praça de Ouro Preto, de traição e do jogo pesado político. Os negros fiando a sua história... Disso fizemos o “Batuque”. A composição nasceu no espírito disso que viria a ser o CD “Estrada Real de Villa Rica”. Incluindo essa parceria nesse disco eu alivio a tensão e homenageio Álvaro Apocalypse, parceiro e pessoa tão querida, hoje encantado.

— A Inconfidência Mineira foi citada em alguma canção?

— Inconfidência Mineira é assunto para livro, para a análise da história e historiadores. Pode ser até que alguém queira fazer dela uma ópera, com um libreto denso, cheio de poetas, sonhadores, amantes, igreja, jogo político, um traidor, um padre avarento, um herói enforcado e esquartejado. As artes plásticas, nas mãos de Portinari, representaram o seu lance final, o corpo esquartejado, cuja tela deixou Cataguases e está em São Paulo hoje. Quem também acertou foi Álvaro Apocalypse, que escreveu “Tiradentes, uma história de títeres e marionetes”, esse belíssimo exemplo do repertório do Giramundo que trata de assunto tão grandioso. Mas não vi como a Inconfidência Mineira pudesse entrar com citação e tudo nesse “Estrada Real de Villa Rica”. Esse disco é para o viajante que leva carga mais leve.

— Em que estágio está a produção do CD “Estrada Real de Villa Rica”?

— Já gravamos “No Caraça”, “Estalagem” e “A Tropa”, que são parcerias minhas com Leo Minax. Gravamos também “Terras Altas da Mantiqueira”, essa só minha. Tenho um tripé amigo de apoio moral e musical em Madrid. Então, convidei três músicos espanhóis para esse início dos trabalhos: o guitarrista Huma —  que faz bela carreira pelo mundo tocando com artistas como Jorge Drexler, o uruguaio que ganhou o Oscar de melhor canção com o tema do  filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles —, o excelente baixista e cantor Luismi, e Leo Minax, belo-horizontino-espanhol, violonista, compositor, um parceiro que, além de fazer belas e raras melodias, é um grande intérprete. Para tocar bateria, convidei o grande Mauro Beléu, que sabe como poucos jogar para o time.

— Para quando o senhor prevê o lançamento?

— Ainda não posso prever. Comecei os trabalhos com meus recursos, mas esse disco é mais caro e não posso ir adiante sozinho. Está faltando um patrocinador. Tive que parar os trabalhos nesse ponto.

— Apesar da dificuldade com o patrocínio, o senhor está feliz com o trabalho?

— Quanto ao que está composto, estou plenamente satisfeito. Sendo a Estrada Real um projeto tão bonito, afirmo que quem entrar nela, seja lá por que via for, colherá sempre algum benefício, pois nunca tivemos um roteiro com tamanha riqueza e originalidade para o turismo em Minas Gerais.

— O senhor já está há muito tempo na estrada. Como tudo começou?

— Eu comecei minha carreira profissional em 1983 com o disco “Coração Brasileiro”, produzido por Milton Nascimento. Desde então, faço apresentações interpretando somente as minhas composições. De 1991 até hoje, fiz muitas viagens à Europa e aos Estados Unidos para mostrar a minha música. Ganhei um prêmio em 1995, em Nova Iorque, o “Canta Brazil Award”, ao lado de artistas como Jorge Benjor e Martinho da Vila. Isso deu uma renovada no ânimo que está valendo até hoje. Para 2005/2006, além do CD “Estrada Real de Villa Rica”, preparo um outro lançamento: “Celso Adolfo – Voz & Violão e Algumas Dobras”.

— São quantos discos lançados?

— Olha, o primeiro, como já disse, foi “Coração Brasileiro”. Em 1988, lancei “Feliz”, produzido pelo Túlio Mourão. Em 1990, foi a vez de “Anjo Torto”, o primeiro CD independente do Brasil, produzido por André Dequech; em 1995, fiz “Brasil, Nome de Vegetal”, produzido pelo Mazzola, no Rio. Desse disco participaram Milton Nascimento, João Bosco e Aquarela Carioca. Em 1998, produzi “Festa do Padroeiro” para a minha terra, São Domingos do Prata; em 2003, lancei “O Tempo”.  Nesse disco, eu tive o incentivo de Sol Alac e de seu marido Juan Pablo Sorín, grandes amigos, eles cruzeirenses e eu atleticano. Tenho, ainda, discos gravados ao vivo que não lancei. Em 1998, gravamos “Celso Adolfo Trio - Castel Thun” (Itália), produzido por Giusepe Speccher. Em 2000, foi a vez de “Celso Adolfo Trio - Copenhagen Jazz House” (Dinamarca), produzido por Ole Matthiessen e gravado por Lars Palsig para a Danish Broadcasting Corporation.

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